22/05/2016

NEM À ESQUERDA; MUITO MENOS À DIREITA: MAS À FRENTE!

Correção antes da ideologia: uma homenagem a 2016!

Inicio a reflexão afirmando ou informando que fui um ex-quase anarquista covarde. Ao sair da Universidade, formado em engenharia civil e administração e recém-casado, tive contato teórico com os textos de Bakunin, Proudhon, Malatesta, Kropotkin, dentre outros, como Tolstói. Estávamos em 1983/1984. Apesar de não ter avançado numa prática mais contundente, passei a adotar algumas amarras e limites para questionar a autoridade e a evitar acumulação.

Na realidade, creio que conflitos com a autoridade fazem parte da personalidade desta forma ordinária, que sempre estabelece o contraditório com firmeza e determinação. Sempre questionador, em algumas oportunidades históricas arranhou a relação hierárquica inerente às instituições. Nessas experiências, imbuído de boa intenção ideológica vertida ao autodesenvolvimento, sempre observou e constatou a limitação que a autoridade política determina na criação humana.

No plano pessoal, como já disse em outros escritos, optei em me tornar um pequeno burguês servindo à sociedade via Estado, em detrimento de ir atuar diretamente no mercado. Até mesmo por incompetência em comprar/produzir para vender ou simplesmente vender conhecimento. Até mesmo pela oportunidade do momento histórico pós-formatura. Ou ainda pela tradição familiar. Mas entendi e aceitei a oportunidade profissional ao ajustamento ideológico. Creio que o público alvo do pequeno burguês é mais coletivo do que o do empreendedor e do empresário ou mesmo do profissional do capital.

Nessa seara, consegui, junto com minha companheira, encaminhar nossas filhas para a vida e para o mercado, não sem contar com a ajuda de muitas pessoas, como pais e irmãos, dentre outros amigos. Hoje, conseguimos manter o núcleo familiar com apenas uma casa, duas contas bancárias e dois carros, meus e de minha companheira, simbolizando a opção mínima no acumular.

Mas essa pequena introdução biográfica é apenas para consubstanciar as opções políticas. Mais uma vez, contrariando o anarquismo, na sua vertente anarco-sindicalista, sempre fiz opção política pelo voto. E, face ao histórico da formação socioeconômica nacional, sempre marcando posições à esquerda. Assim, me enamorei pelo discurso ético-moralista do Lula e do PT. Quase me filiei à legenda, retrocedendo quando percebi o assembleísmo com que suas decisões são tomadas, apenas aparentemente negando o coronelismo.

Votei no Lula até quando em 2005 senti cheiro de podre ao ele afirmar à sociedade brasileira que nada sabia sobre o que viria a ficar conhecido como escândalo do mensalão. Como pode o capataz da engrenagem estar preso e o coronel não? Ou vice-versa? A oposição errou ou medrou ao argumentar a governabilidade, e proteger a economia que ia bem, frente à possibilidade de aprofundar as investigações antes das eleições de 2006. Engraçado que foi nessa época em que deixei de ser aproveitado profissionalmente em nível de cargos de confiança, exatamente após as experiências na administração FHC. Talvez meus pares, já intuindo minha construção ideológica, como já dito e redito, vertida ao autodesenvolvimento, associado ao fato de que andava no chão institucional e nos salões sociais com estrelinha do PT no peito, afastaram-me, por precaução ou por outro motivo qualquer, dos círculos da corte.

Esse corte foi sacramentado na administração da Dilma, quando um ferrenho correligionário petista assumiu um cargo sob o qual estava subordinado. A essa altura, já havia me manifestado como ex-voto ideológico do PT. Por uma ou por outra razão, carta fora do baralho, consolidado o estigma de polemista ou por força de manifesta inconformidade psicossocial, como rascunhou uma colega da Suframa. Outro colega já havia afirmado que o jogo é complexo, talvez insinuado que incautos e neófitos não devem jogá-lo. Mas, a ideologia do autodesenvolvimento continuou agregando valores, com novos dados, informações e conhecimento. Sem a habilidade do agir politicamente correto, avancei questionando a natureza intrínseca da ZFM, que gera dependência aos investimentos e pacotes tecnológicos que financiam a industrialização de Manaus.

Quase escorrego na temática à qual me apego em demasia e que me é cara. Mas a ideia é associar a oportunidade que o anarquismo me deu, de estar à frente, especialmente hoje após a frustrada experiência histórica do lulapetismo. A administração Lula navegou em voo de cruzeiro, quando as demandas chinesas pelas commodities brasileiras estavam em alta. Essa condição favorável, junto com a estabilidade da moeda conquistada as duras penas na administração FHC, financiou a adoção de políticas de inclusão e de assistência social, inauguradas sob a égide da socialdemocracia tucana, com o idealismo da primeira dama Ruth Cardoso. O “sucesso” dessa política sustentou 13 anos de exercício de poder. É fácil administrar na fartura; difícil é superar os momentos de dificuldade com criatividade e responsabilidade.

O lulapetismo teria estado à altura do momento histórico que teve se tivesse tido a responsabilidade de reduzir os programas sociais, revendo seus critérios e níveis e reformatando seus projetos e ações, aos primeiros sinais de desgaste e de esgotamento de suas fontes de financiamento. Mas preferiu jogar o rombo para debaixo do tapete para não perder as eleições. Jamais poderia ter sido colocado em risco a economia como um todo, drenando o tesouro nacional, para sustentar uma igualdade de oportunidades insustentável. Seu número, 13, apontava para a magia; hoje representa o trágico!

Infelizmente, ou felizmente, o sistema que organiza a sociedade humanoide é o capitalista, que gera acumulações e exclusões. Não à toa, tocado pelo anarquismo, creio que a ala política mais aderente à perspectiva distributiva está à esquerda. Mas a insistência de políticas populares, em nível de opção governamental não pode, não deve provocar contrações, depressões e recessões, solapando as próprias conquistas sociais, como se fez. O sistema capitalista por si só já é temerário frente aos seus ciclos econômicos. No sentido da consciência econômica, talvez o melhor exemplo latino seja o chileno.

A decepção e ceticismo, todavia, foi maior e irrevogável com a corrupção, supostamente para financiar um projeto político totalitário. Aqui ratifico o título da reflexão: correção antes da ideologia. Realmente foi estarrecedor o estrago causado pelo lulapetismo desde o mensalão até o petrolão. E aqui não está a salvo nenhuma figura política, nem à esquerda, nem à direita. Nestas plagas tupiniquins, pequenas fortunas foram formadas desde a implantação da Nova República, sob o slogan “rouba, mas faz”. Projeto político que, em verdade, ainda se reproduz, ora à direita mascarado de esquerda; ora à esquerda utilizando-se da direita. Portanto, sempre a direita dando as ordens e tentando promover o progresso, como é do DNA positivista da República.

Segundo especialistas, caso a Petrobrás adote as melhores práticas e estratégias a partir de 2016, retornará aos níveis de valorização de mercado, com investimentos de liderança, somente daqui a uma década. Será que temos consciência do que isso significa? O lupatismo exponenciou ao quase-infinito o mesmo expediente, a mesma prática histórica da direita, porém, se lambuzando como todo novo rico emergente, sem tradição nas coisas boas da vida, que infelizmente o sistema capitalista nega à maioria. Mas essa condição não justifica: antes a correção, ante a ideologia. Cheguei até a publicar no meu sítio uma carta aberta à presidente, parabenizando-a pelas medidas moralizadoras adotadas no início do primeiro mandato. Ledo engano; quanta ingenuidade. O pior já estava em curso.

Nesse cenário de tristeza e decepção com a atual formação socioeconômica nacional, penso que as investigações devem avançar, retirando do poder todo aquele que faz da Constituição Federal e do Estado de Direito, respectivamente, peça e ordem de ficção científica. O Tio Sam afirmou que a democracia brasileira está forte. Discordo frontalmente, pois nossas instituições devem ser fortalecidas na base com educação e instrução do povo. Nossos políticos corruptos não devem encontrar facilidades de toda ordem para se manterem no poder; antes devem encontrar obstáculos intransponíveis para se candidatarem em prol do progresso. E os eleitores devem ter a consciência do que seja realmente importante para a sociedade como um todo. Tanto no curto, quanto no médio prazo, e especialmente no longo prazo, enquanto projeto de sociedade.

Para este pensador, hoje com 57 anos, portanto, não valem nem os discursos de esquerda, muito menos os de direita. Mas os que se posicionam à frente. À frente com uma postura verdadeiramente ética, de respeito ao coletivo, ao poder e recursos do povo. À frente com a ética da autossustentabilidade. À frente com a possibilidade da meritocracia. À frente com uma maior taxação de grandes fortunas. À frente com a extinção do direito de herança de família. À frente, sim, com programas de inclusão social, quando estes forem possíveis, sem prejuízo à solvência da economia capitalista.

Comunismo, ou melhor, socialismo real, é quando o Estado é proprietário dos meios de produção, quando o mercado é substituído pelo planejamento central e quando o contrato social não cultua a propriedade privado como esteio da sociedade. Esse tipo de organização social representa uma experiência histórica falida. Da mesma forma, a estória de que comunista come criançinha também já era. A direita conservadora deveria ser mais séria com conceitos historicamente estabelecidos e consagrados na academia. A superação do capitalismo não depende de canetadas, nem mesmo de armas, mas da extirpação dos venenos da ambição, da inveja, do orgulho sediados coração. Até lá, muito aprendizado amoroso e compassivo vai rolar debaixo da dualidade!


Essa visão política ideológica, à frente, foi possível incorporar com a leitura da doutrina anarquista e com a sensibilidade às mudanças climáticas, que oportunizou a percepção das causas e efeitos das rachaduras do tecido social e das demandas planetárias vertidas à sustentabilidade. Hoje amenizada e organizada com a busca do autoconhecimento, que adota como pressuposto a impermanência de tudo e de todos.

08/05/2016

SOBRE MARCOS REGULATÓRIOS APLICÁVEIS À REALIZAÇÃO DE AMAZONIDADES

Autoconhecimento versus Autodesenvolvimento: uma crítica em prol das amazonidades

É sabido que apenas uma diminuta parte dos seres sencientes busca permanentemente saber o que de fato são, de onde vieram e para aonde vão. E isso envolve saber o que se deve realizar em vida e de que forma essa existência deve ser cumprida. Todo esse processo poderia ser entendido de busca do autoconhecimento.

Essa não percepção, em geral, decorre do fato de que nós trocamos o que é Real, no sentido de que está além do tempo, pelo que é irreal, o qual é submetido à impermanência de tudo e de todos. Aceitamos nossa identidade com o CPF e com o status que conquistamos durante a existência, sem nos darmos conta de suas transitoriedades. Metrificamos essa perspectiva na propriedade de bens móveis e imóveis, na conquista de títulos e honrarias e no desfrute de status e poder.

A viagem do autoconhecimento se opera numa espécie de involução, quando devemos procurar zerar o produto das ações que realizamos no passado, presente e futuro. Superada a ignorância quanto a uma Realidade Última, os frutos das ações passam a ser vivenciadas sem apego e sem aversão. Nesse sentido, importa a essência da existência, deslumbrando o que está por detrás das manifestações, sem descuidar dos próprios fenômenos. Vale tanto a imanência quanto a transcendência. Vale a totalidade subjetiva e objetivo do Universo.

Mas, atenção: como apenas o Sujeito não pode ser destruído, é Nele que está contida a Verdade. E o que isso tem a ver com o autodesenvolvimento? Tudo, se estabelecermos links associados à criação e consolidação de condições objetivas para o progresso técnico e industrial autossustentado.

Autodesenvolvimento é uma categoria de análise que tento permanentemente elaborar para qualificar a ZFM como Projeto, e, por conseguinte, como meio para o desenvolvimento sustentável. Nesse cenário, o Projeto ZFM proporciona o crescimento econômico associado à indústria de transformação que se processa em Manaus a quase meio século. Nesse processo, a tônica é a da atração de investimentos, pelo que a maioria da energia, senão toda, gasta na sistemática do marco regulatório geral está envolvida como num fim em si mesmo.

Portanto, qual quando estabelecemos a identidade com nosso ego, a inteligência e a consciência tupiniquim estão focadas nas evidências positivas da ZFM, sem desafiar a dependência de capital e de tecnologia que reproduz o crescimento industrial. É muito fácil à indústria de transformação da ZFM permitir novos entrantes, sem que haja o desgastante e custoso processo de inovação, que desbravam as tendências tecnológicas. Basta cumprir o PPB!

Esse modelo mental é tão fortemente limitado, que, mesmo após mais de quatro décadas de operação, não conseguimos gerar uma só marca global como resultado de conhecimento aplicado à indústria high tech. Na realidade, esse modelo mental, fácil para a atração de investimentos e frágil para a emergência de negócios, resta ratificado com dois dos marcos regulatórios idealizados para a explotação do chão amazônico.

Vejamos. O primeiro vige desde a segunda metade da década dos anos 1970. Prevê a isenção de IPI sobre produtos elaborados com insumos da floresta para firmas com projetos industriais aprovados pela Suframa e estabelecidas na Amazônia Ocidental.(1) Esta isenção tributária fica adicionada da geração de crédito equivalente ao pagamento desse imposto calculado como se devido fosse, quando utilizados na industrialização de outros produtos em qualquer ponto do território nacional. Ou seja, além da isenção ainda gera crédito tributário!

Qual foi a grande marca a nível global que o chão amazônico promoveu com essa baita ferramenta de política industrial? Nenhuma! Ainda que possa ter beneficiado um conjunto de pequenas empresas, em especial as que exploram madeira, com tecnologia universal. Grandes perguntas, vertidas ao por que a perspectiva da industrialização não se estabeleceu de forma próspera e progressista, poderiam ter sido feitas, problematizando o cenário inerte quanto à realização de amazonidades:

ü  Por força da falta de empreendedorismo, de tecnologia/inovação e/ou de crédito?
ü  Por força da falta de logística e de mercado?
ü  Por falta de políticas e de regulamentações complementares?

Ao invés de se questionar e investigar, procurando sanar e superar as dificuldades e os obstáculos, adotou-se um novo marco regulatório que aponta para a atração de investimentos.(2) Isso é verdade porque nem mesmo o novo marco regulatório saiu do forno, neste final de 2015 e início de 2016, e já se flerta com a tradicional indústria de perfumaria francesa que utiliza, desde quase sempre, insumos da floresta para fins de se oferecer as novas isenções na Amazônia.

O novo marco, idealizado especificamente para as ALC’s, está estruturado na isenção de IPI para produtos finais fabricados com insumos da floresta. Seu maior mérito é organizar e unificar essa temática contida nas legislações de criação das ALC's. Apesar das diferenças entre ambos, podemos afirmar que são equivalentes quanto ao mérito da isenção tributária que se cristaliza mediante produção industrial.

O primeiro marco regulatório aponta para matérias-primas, produtos intermediários ou matérias de embalagem a serem aplicados numa nova industrialização. O segundo aponta para produtos finais a serem consumidos no mercado. Registre-se que uma aplicação não exclui a outra. Observe-se que os locais da nova legislação estão contidos no espaço maior da primeira, à exceção da ALCMS. A nova legislação perde quanto à agregação de crédito tributário, além de estabelecer condições de predominância de matérias-primas de origem regional. Em ambos, o mercado externo está restringido, o que não dá para entender. Talvez para ratificar o mercado interno vertido à sina da substituição de importações, via atração de investimentos. Mas, talvez, aí resida um erro crasso; não só quanto a perda da oportunidade, expressa por uma necessidade, de gerar produtos dinâmicos, quanto pelo fato de amazonidades apontar para produtos inovadores.

O que queremos destacar é a possibilidade do segundo marco regulatório, cujo nome-fantasia reforça a memória das contradições internas do marco regulatório mor, dar com os burros n’água frente à perspectiva do autodesenvolvimento, na medida em que os entraves relativos ao insucesso do primeiro não terem sido superados, nem mesmo problematizados. Da mesma forma que só conseguimos avançar na busca do autoconhecimento quando passamos a observar e ajustar à Ordem Cósmica, expressa pelo Dharma, os nossos pensamentos, palavras e ações, o autodesenvolvimento resta comprometido se não promovemos internamente a emergência e a expansão de firmas locais para acumular lucros e para apropriar conhecimentos associados à indústria da transformação, considerando a lógica do sistema capitalista. Assim como as casas, conta corrente e carros não nos pertencem em definitivo, as marcas globais instaladas na ZFM e no chão amazônico são apenas nossas parceiras no processo de industrialização, no qual devemos nos posicionar como agentes de transformação e não somente como atores que reproduzem scripts e papéis.

Entre esses marcos, ainda temos o marco regulatório direcionado à bioeconomia, sob a perspectiva do cumprimento do PPB, aplicável na ZFM, que deverá dar maiores frutos junto à lógica da atração de investimentos, conforme notícias relativas à aprovação de projetos industriais de marcas não locais, ainda que nacionais.(3) Isso ratifica que continuamos carentes quanto ao estabelecimento de um motor próprio para alavancar e potencializar uma indústria de transformação que realize amazonidades, tanto no chão amazônico, quanto na ZFM, que devem ser entendidas como a realização no mercado de produtos fabricados com insumos e saberes da floresta.

Continuaremos, nesse passo e pisada, não tendo marcas globais, não registrando patentes e não acumulando royalties, distantes que estamos da fronteira tecnológica e mesmo de uma acumulação primitiva de capital industrial, cujas posses provisórias são indispensáveis para o uso e ocupação soberana da Amazônia por amazônidas via amazonidades. Sem xenofobismo, mas com autonomia, visando a própria realização industrial e tecnológica. À propósito, a aplicação de incentivos fiscais, para a realização de amazonidades, deveria ser desobrigada de cumprimento de PPB em todo chão amazônico. Especialmente toda aquela realizada com capital e tecnologia amazônidas! Idealmente toda aquela derivada da transformação de conhecimento em negócios!

A busca da liberdade e da imortalidade, possível de ser conquistada com o autoconhecimento, é longa e dura. A trajetória industrial que poderá conferir liberdade política e independência econômica para a Amazônia também é longa e dura. Mas nunca poderá ser trilhado e atravessado o desafio se não nos dermos conta da necessidade de termos capital e tecnologia endógenas. Nossa inteligência usa o nosso ego para focar na quantidade e mesmo a qualidade do produto ZFM ao invés de utilizar nossa consciência para questionar a natureza intrínseca do produto ZFM. Devemos ser o sujeito, e o objeto, de nossa indústria de transformação!

(1) Decreto-Lei 1.435/1975.
(2) Decreto 6.614/2008; Decreto 8.597/2015; Resolução 01/2016/CAS.
(3) Portaria Interministerial 842/2007.

10/02/2016

ESCALADA AO MONTE RORAIMA

Crônica de uma aventura ao monte Roraima, por Antônio José Botelho, 56, agora 57.
Durante o segundo semestre de 2015, programamos, eu e o caríssimo Antônio Mesquita, parceiro e companheiro da caminhada até Santigo de Compostela, a escalada ao monte Roraima sob a liderança da Adventures Roraima, firma experiente. Negociamos preços, organizamos a tralha, treinamos, procuramos entender o trajeto, conversamos com o mochileiro França, que já realizou a escalada 3 vezes e que ofereceu um depoimento valiosíssimo, compramos as passagens e apetrechos de tralha complementares, enfim, dia 21.1.2016 estávamos prontos para a aventura. Uma aventura, especialmente para mim, como você, que me lê, constatará até o final desta crônica!
A ansiedade era tanta, que esqueci o casaco corta vento em casa. Meu problema existencial não é de depressão, mas a ansiedade, decorrente por estar com o pé direito no futuro. Aquariano! O Yoga me ajuda a colocar os dois pés no presente. Mas o aprendizado é de longo prazo, e deve ser cumprido sem apego e sem aversão. O problema foi resolvido com a ajuda do mochileiro Wagner, que conhecemos no aeroporto de Boa Vista. Ele, a esposa e a filha de 8 anos retornavam da trilha a Machu Pichu, desde Cuzco. Manauara que adotou Boa Vista, Wagner foi muito generoso, levando-me para comprar um casaco alternativo. Em seguida, tomamos sorvete, papeando com vista para o rio Branco. Depois ainda nos levou para um rápido passeio pela cidade, nos deixando no shopping Roraima, onde lanchamos.
A generosidade já havia sido concedida pelo guia Francisco da Adventure Roraima, que ao fazer nosso traslado, levou-me para sacar dinheiro no autoatendimento do Banco do Brasil, para o pagamento final da aventura in cash. Francisco viria a ser muito presente e importante no momento em que lesionei o joelho esquerdo, conforme ratificarei adiante. De plano, registro a competência da Adventure quanto à organização e logística. O sistema de coleta e de destinação adequadas de resíduos sólidos é bastante responsável, compatível com a ética sustentável, que deveria ser observada e seguida por todos os programas de acesso ao monte Roraima.
Ficamos hospedados no Hotel Aipana, dentro do Programa 3 Nações, onde no dia 22.1.2016 haveria o briefing com o Magno, proprietário da Adventure Roraima. À noite, antes de dormir, o caríssimo Mesquita sugeriu, por recomendação de sua esposa Selma, que pedíssemos permissão, licença, autorização do Universo para realizarmos a escalada sob a proteção dos guias espirituais, especialmente quanto ao ataque de animais (aranhas; cobras; escorpiões), quanto a acidentes e chuvas. Assim o fiz! Cristina, minha esposa, quando disse que havia esquecido o casaco corta vento, que serve também para chuva, assegurou: “Não vai chover! ”. Dito e feito: só garoou no primeiro dia, já no topo. Todos torciam pelo sucesso da aventura; a ricafilha Carolina me disse, quando retornei, que rezou muito. Iza, professora de Yoga, antes de partirmos invocou ao Grande Espírito, para que nos acompanhasse. A ricaneta Maria Clara, na noite anterior, me presentou um canivete da melhor qualidade, que representa uma ferramenta de proteção profana. A proteção espiritual é importante, ainda que Ele esteja sempre presente, em todos os tempos e em todos os lugares, permeando tudo e todos desde além do tempo-espaço. E foi importante para irmos e voltarmos em paz, conforme expressa esta crônica.
Segundo Dia
Acordei cedo para tomar café, fazendo algumas séries de Saudação ao Sol. Tomei banho, fui tomar café. Em seguida, fui passear no hotel, ficando alguns minutos na piscina, observando os passarinhos. Gayatri mantra continuava em minha mente, assim como foi na maior parte do tempo das caminhadas e subida/descida que envolveu a aventura de escalar o monte Roraima.
Após fazer companhia ao Mesquita durante o seu café, fomos para o briefing, que levou cerca de 2 horas com as explanações, explicações e exigências do líder Magno, para que a escalada fosse realizada com prudência e em segurança. Suas orientações, após todos do grupo terem se apresentado, inclusive, relatando suas experiências em trilhas e expondo suas expectativas quanto ao escalar o monte Roraima, foram bastante reforçadas quanto aos pés, atenção quanto aos animais vis a vis mochilas, botas e barracas, com a insolação, e para que evitássemos excessos frente aos riscos envolvidos na escalada, relatando casos de resgate de helicóptero decorrentes de acidentes. Ao final, ofereceram um bolo e um presente, o romance Inia: uma aventura amazônica, de Marcela Marques Monteiro, para os aniversariantes, com direito a ‘parabéns para você’, dentre os quais estava eu, que faria 57 anos dia 31.1.2016. Na manhã do dia 27.1.2016, essa homenagem foi repetida para a Ju, que recebeu de presente um microssapinho preto, característico do monte Roraima. Por oportuno, registre-se que o coaxar dessa população sugeria uma sinfonia, audível com o silêncio. Aliás, no sentido da manutenção de condições auspiciosas, a ordem no monte Roraima é o silêncio. Fiquei satisfeito com a exposição do Magno, que visava, sobretudo, a segurança individual de cada um e coletiva do grupo.
Após o almoço, duas Vans nos levaram para a cidade de Santa Elena, na Venezuela. A viagem foi tranquila e aduana um pouco demorada, mas sem problemas. Após o check in no hotel, saímos para jantar num restaurante chinês, onde chegamos após uma boa caminhada. Observei uma espécie de toque de recolher, na medida em que restaurante fechou conosco dentro às 21 h. Notei, ainda, uma urbanidade decadente, qual a percepção que tive na visita à Havana, em Cuba. Mesmo que Santa Elena não seja capital, anos de recessão e não crescimento econômico implica, necessariamente, em decadência, sob a perspectiva do progresso sociotécnico.
Terceiro Dia
Após o café da manhã, saímos em caravana de 3 jipes em direção à comunidade nativa ­ habitantes autóctones da região; povo indígena pemon ­, para daí seguir caminhando por 13 km até o primeiro acampamento. Nessa comunidade, assinamos na direção local do Parque Nacional de Canaima, a entrada para a grande aventura de escalar – subir e descer – o monte Roraima. Essa comunidade, intitulada paraitepui, fica a 1.473 metros acima do nível do mar. Portanto, o desnível até o topo do monte Roraima é de algo em torno de 1.400 metros, conquistados em 3 estágios, conforme veremos a seguir. Os pemones acreditam que no monte Roraima repousa o espírito do filho de um encontro entre o sol e a lua, ocorrido numa noite rara. Essa sacralidade está ligada ao mito de Makunaima, cuja tradição é passada oralmente através das gerações. Vide a citação sobre Makunaima em Monte Roraima: uma ilha no céu, disponível em http://www.brasilnatural.net/destinos/pdfs/monte_roraima.pdf .
Esse primeiro trecho, diferentemente dos dois seguintes, é praticamente plano. No dia, o realizamos, contudo, sob um sol causticante. Ao chegarmos no acampamento, fomos direto para um banho nas águas super geladas no rio Pedra. Esse banho, junto com o repelente, amenizou as boas vindas dadas pelos mosquitos, bastante naturais nessa região. Esses banhos ficariam ainda mais e mais gelados nas próximas paradas.
Em Boa Vista, durante o briefing, fomos informados do número de nossas barracas. A nossa, minha e do Mesquita, recebeu o número 15. Seria nossa primeira dormida em barraca de toda vida, o que viria a servir de espaço-tempo para um bom aprendizado com a utilização consciente da não-aversão, sustentada com a tolerância pacífica.
As refeições (café; lanche durante as caminhadas; almoço e janta) foram todas da melhor qualidade, saborosas mesmo, considerando as condições de temperatura e pressão. Havia sempre uma combinação de carbo-hidrato com proteína para revigorar as energias. Os lanches eram sempre regados com frutas frescas: melancia, melão, abacaxi e maçã. Eu tinha adicionalmente uma barrinha de proteínas e um sache de mistura de frutas, cereais e legumes. De novo, a logística implementada pela Adventure Roraima amalgamada pela sua equipe sempre atenta tornou a aventura, para um neófito como eu, segura e, até mesmo, minimamente confortável.
Dividimos esse primeiro acampamento com outros grupos que seguiam ou que retornavam para e do monte Roraima. Após o jantar, já com a lanterna de testa, tomada emprestada do genro Armando, nos recolhemos cedo, como seria por toda a aventura, após a preleção do guia líder Francisco, que chamava a atenção para o horário do café e da partida, orientando quanto o que iríamos enfrentar no dia seguinte.
Quarto Dia
Como sempre, saímos cedo entre 7 h e 7 h 30 min. O segundo trecho de aproximação ao monte Roraima foi de cerca de 9 km. Todavia, ao contrário do primeiro, tivemos um estágio do que viria a ser a subida final, de extremo esforço para quem não tem coxas e costas de aço, como os nativos, que parecem deslizar sobre as pedras, tanto subindo quanto descendo, carregando todo o material de apoio, barracas, comidas, e as mochilas contratadas para serem carregadas. Aqui destaco em especial, o nativo Francisco, que carregou a minha mochila principal. Essa capacidade de ir e vir com facilidade ao monte Roraima também já está absorvida pelos guias da Adventure Roraima, que no caso do nosso grupo foram: a Ana, de São Paulo, Francisco, de Boa Vista, e Jésika, da Venezuela.
Fazíamos duas ou três paradas técnicas para descansar. Numa delas comíamos as frutas frescas. Elas eram literalmente servidas, numa mordomia toda especial. Elas caiam realmente como uma luva para revigorar as energias. Assim como no primeiro trecho, parávamos também para tirar fotos. Tirei mais de 300 fotos, na máquina tomada emprestada do genro Germano; na realidade de sua filha, Isadora.
Durante essas paradas e até mesmo durante as caminhadas, subida e descida, íamos aprofundando os contatos, as novas amizades com os integrantes do grupo. O grupo naturalmente se dividia em 3: tinha a turma da frente, dos mais bem preparados; o pessoal intermediário, no qual me encaixei a maioria das vezes; e a turma mais lenta, porém, não menos corajosa e determinada. Eu sempre começava com a turma da frente, mas antes da primeira hora já ficava para trás. Muitas e muitas vezes caminhava sozinho, longe de todos, e até mesmo dos guias. No entanto, nunca solitário, pois estava sempre a mantar o Gayatri, que me acompanhou por toda a aventura ao monte Roraima, e que me acompanhado no caminho ióguico. Trata-se de um mantra espacialíssimo, sagrado e poderoso, que tem tudo a ver com tudo o que estava antes da criação, permanece durante toda a manifestação e continuará presente após a dissolução; sob a proteção d’Ele e meditando n’Ele podemos migrar do irreal para o real. Com Ele tive alguns insights que registrarei adiante.
Dividi o grupo que compôs a escalada ao monte Roraima por profissões: havia o subgrupo de 5 médicos: Dani, cirurgião pediatra; João, neurologista; João psiquiatra, Ju, nutróloga; e Sasha, cirurgião vascular; outro subgrupo era o maior e todos trabalhavam com a terra, fornecendo insumos e gerando produtos; estudaram juntos e estavam se revendo depois de longo tempo: Ana, Bira, Dani, Dudu, Mário e Raquel. Havia dois casais: a Anita e o Alex, franceses; e o Danilo e a Carol, mineiros, especialistas em TI, que fizeram faculdade juntos. Havia, ainda, a Rose, professora de botânica, que fez boa parte da caminha de acesso comigo no pelotão intermediário. Além desses, havia eu e o Mesquita, biólogo. O Mesquita, assim como no caminho até Santiago de Compostela, bem preparado fisicamente, fazia parte do pelotão de frente.
Com o Dudu e o Mário travei prosas sobre coisas sobrenaturais e expectativas espirituais. Esses temas não me cansam, ao contrário, me aninam. Senti muito carinho por parte do João (neurologista), que sempre me incentivava, reconhecendo meu esforço e perseverança. As orientações de Sasha, experiente mochileiro, foram fundamentais para que não viesse a ter bolhas. Fiquei sabendo, nas conversas com a Ju, que ela já praticou Yoga, pelo que, de plano, a incentivei a retornar. Sasha e Ju são casados. Os papos com a guia Ana, mostraram uma pessoa autoconfiante e convicta de seus valores. Foi uma surpresa agradabilíssima dialogar com o guia líder Francisco sobre o professor Milton Santos, acadêmico já falecido de alto quilate, cujos conceitos e ideias consubstanciam parte do meio entendimento sobre o Projeto Zona Franca de Manaus (ZFM).
Quinto Dia
Ao final do segundo trecho da caminhada chegamos ao acampamento base, a partir de onde faríamos a subida final até o topo do monte Roraima, pela entrada topo tepui, passando pela rampa, com trechos de inclinação de até 75º, pelo el carro (maverick) e pelo paso de las lagrimas, vazio tanto na subida quanto na descida em função de que não havia chuva. Essa subida sim seria o teste cardiovascular principal da escalada ao monte Roraima. Seria cerca de 4,5 km de extensão de subida bastante íngreme. Boa parte dela feita com ajuda das mãos, de galhos de árvores e de pedras e rochas. Extenuante, mas a chegada ao topo oportuniza um êxtase todo especial, notadamente para um coronariopata.
Tepui significa, segundo Emilio Pérez & Adrian Warren, em seu Mapa Monte Roraima, primeira edição, 2002:
Tepui é uma palavra de origem pemon que significa Monte ou Montanha. A palavra tepui sozinha é utilizada pelos indígenas da família linguística pemon. Em outras etnias da Amazônia venezuelana se utiliza em seu lugar a ‘Jidi’. Um tepui (plural: tepuis) é um tipo de formação montanhosa, morro ou maciço do Escudo Guianês, com forma de meseta ou não, constituído de rochas sedimentares (arenito, quartzo) e/ou ígneas, que alcançam uma altitude mínima de 1.000 msnm e uma máxima de 3.015 m msnm. Além disso, um tepui apresenta em suas encostas e cumes um clima úmido chuvoso, ecossistemas de média e alta montanha, o que diferencia claramente esse tipo de montanha tropicais, por apresentar uma variedade de comunidades vegetais e animais únicas (endêmicas).
O monte Roraima se localiza nos tepuis orientais, e, juntamente com o Kukenan, são os únicos que possuem rotas de ascensão a pé, os quais já foram também ascendidos com técnicas de escalada em rocha. Portanto, subimos e descemos, a pé, o tepui Roraima, de cerca de 2.800 metros acima do nível do mar, e sua superfície é de aproximadamente de 34,38 km2, segundo Pérez&Warren.
O acampamento base oferecia menores condições de apoio do que o acampamento anterior, onde a comida era preparada num abrigo fixo com cobertura e uma pequena varanda. Já no acampamento base a comida era preparada num abrigo de lona, numa espécie de tenda armada com esse propósito, que passava a ser a base da equipe da Adventure Roraima. Mas nem por isso a comida ficava menos saborosa, apesar das condições não-urbanas, considerando, ainda, a fome e a necessidade de repor as energias.
No acampamento base também tivemos um super banho para lavar as partes num riacho mega gelado.
A subida, como dito, foi uma experiência única, onde lançamos mão de toda nossa energia e atenção. Havia também as paradas técnicas para repor o fôlego e repor a água nos cantis, quando o uso de cloro para purificação algumas vezes é indispensável. Os trechos eram conquistados paulatinamente, os quais recebem seus apelidos, em função do grau de dificuldade: da titia; da vovó. Eu diria que, o último lance, seria o da bisavó, pois íamos praticamente nos arrastando no final da ascensão até o topo, especialmente os menos preparados fisicamente e/ou mais pesados corporalmente.
Sexto Dia
Antes de finalizarmos o 5º dia, após a chegada ao topo do tepui Roraima, fomos tomar banho em banheiras naturais com super mega geladas, alcunhadas de ‘jacuzzis’, que além de anestesiar as dores do corpo, revigora as energias. Nessa caminhada, pegamos o único dia de chuva. Na realidade, uma pequena garoa, conforme já dito.
Após uma caminhada extra de 1,5 km, chegamos ao hotel de infinitas estrelas, onde nos hospedamos por 3 belas noites, dormidas de forma meia sola. De forma incompleta, pois virando para a esquerda e para direita, intermediando em decúbito dorsal, sonecando, acordando, rocando e peitando dentro do saco de dormir. Mas feliz, muito feliz por estar vencendo o desafio auto imposto como coronariopata para conhecer um local auspicioso e de muita energia. Os hotéis ficam em cavernas com parapeitos, que oferecem abrigo do sol, do vento e das chuvas para as barracas. Seu teto, contudo, é o Universo!
O primeiro dia no topo foi tirado para ir até o marco geográfico que registra a fronteira tríplice Brasil-Guiana-Venezuela. Lá deixei com alegria uma bandeira da Pátria, que nos servia durante os jogos da Copa do Mundo. É verdade, usamos muito pouco os símbolos nacionais, e é com eles que construímos a nação, a brasilidade.
Antes do ponto geográfico fronteiriço, tomamos banho em águas puríssimas num poço cuja fonte vem do Vale dos Cristais, que também visitamos. De novo, águas super mega geladas. E mais um belíssimo lugar. Sempre tirando fotos; sempre apreciando as paisagens. Via imagens à toda hora, a representar nomes e formas ancestrais, nas rochas&paredões e nas formações das nuvens. Os cristais simplesmente afloram, apontando para a riqueza mineral que o tepui Roraima ainda deve albergar. No início dessa caminhada, Francisco, o guia líder, considerando as condições climáticas favoráveis, nos levou para um mirante, uma espécie de enseada definida pelos paredões do tepui Roraima, onde as nuvens ficam aprisionadas. Um deslumbre!
Nesse trecho, lesionei o joelho esquerdo. Ao pular um pequeno desnível, ao invés de descer como vinha fazendo, o hiperfleti como que quase fraturando. O core fatigado e o peso da mochila de ataque contribuíram para ampliar o risco da desatenção. Estava confiante, pois tinha superado as caminhadas e a subida. Mas nesse quesito fica o aprendizado: a atenção deve ser permanente! Após o almoço no El Foso, outro lugar especialíssimo, com o corpo frio, o joelho começou realmente a doer. Francisco, o guia líder, foi fundamental na reta final de retorno ao hotel de estrelas infinitas, pois me dava a mão para subir e descer todo desnível que viesse exigir mais do joelho. Apesar do atraso, chegamos primeiro que o grupo, que se perdeu na névoa e na neblina que o tepui Roraima produz permanentemente. O primeiro momento do retorno foi em companhia das guias Ana e Jésika, que igualmente me dedicaram atenção. À Jésika, preocupada com o meu coração, disse que minha mente estava atenta e alerta.
Como resultado perdi o passeio do dia seguinte ao mirante ‘A Janela’, pois precisei ficar de molho, descansando e recuperando para a grande descida. Em troca, ganhei o primeiro rascunho desta crônica, finalizada agora, durante o carnaval. Descansei o corpomente com pequenos momentos de reflexão sobre os acontecimentos e aprendizado decorrente da aventura de escalar o tepui Roraima. Adicionalmente, meditei utilizando o ajapa So Ham, como sempre faço. Este mantra, igualmente sagrado e poderoso, revela Tudo! Aproveitei a oportunidade para organizar minimamente a tralha, já meio que bagunçada. Nessa noite, o jantar me foi servido na barraca, o que demonstra a atenção que a equipe da Adventure Roraima dedica para com seus clientes. Aproveitei, ainda, para iniciar a leitura do romance que ganhei de presente, e que continuo aqui em Manaus. Registro que estava atento ao músculo nobre e com foco nos pés para evitar bolhas, mas foi o joelho esquerdo lesionado que se fez presente. As noites, em geral das 19 às 20 horas, eram desfrutadas contemplando as estrelas, ou papeando sobre as experiências e as vidas de cada qual e de todos numa roda. O frio não era polar e glacial com as águas em que nos banhávamos, mas exigia ceroula, segunda pele e fleece básicos. Um um gorro pegava bem. Entre 5º e 10º à noite; entre de 10º e 15º durante do dia. 
Sétimo Dia
Conforme dito acima, este dia foi todo dedicado a “parar” e ficar sem fazer “nada’. Isso traz um bom significado para o nosso cotidiano, na medida em que é bom parar, não fazer nada e observar os papéis que desempenhamos em nossa existência. Verificar o karma, enquanto lei universal de causação; aquilatar o Dharma, enquanto perspectiva de aproximação com a Ordem cósmica.
Descanso e recuperação, afinal a grande descida iria exigir muito da estrutura esquelético-muscular, notadamente do joelho lesionado. A mente precisaria se manter firme. O coração, tranquilo, especialmente por hospedar o Ser numa forma ordinária perecível-impermanente, mas fundamental e essencial para a realização do autoconhecimento. Neste momento da crônica aproveito para socializar e comentar os insights:
O MUNDO ESPIRITUAL É AINDA MATERIAL MESMO QUE MENOS GROSSEIRO E MAIS SUTIL. PORTANTO, PERMANECE SUBMETIDO AO TEMPO!
Comentário:
Essa é uma afirmação que li em algum texto do Budismo Tibetano. Naquele momento, a ‘ficha não caiu’. Mas, ‘passei o cartão’ contemplando o tepui Roraima, durante os vários momentos em que durante as caminhadas estava só, porém, nunca solitário. Como disse acima, sempre acompanhado do Gayatri mantra.
O insight, para mim, faz todo o sentido, pois a liberdade e a imortalidade, que se realiza com o autoconhecimento, só é possível para além do tempo. O mundo espiritual engendra, ainda, algum espaço. Assim, do ponto de vista do Ser, de Sat-Cit-Ananda, não faz sentido adjetivar por exemplo Luz, de divina, pois Tudo é Um Só! A adjetivação não-profana da Luz, como divina, está associada aos nomes e formas perecíveis e impermanentes. Essa percepção torna mais e mais incompreensível e inaceitável a equação vedantina Atman é idêntico à Brahman. Isso, contudo, não afasta a proteção que recebemos de seres espirituais, que absorveram grande conhecimento e dedicam sua existência não-secular para a iluminação, libertação e salvação de todos os seres.
DO CONFLITO: ESSENCIAL VERSUS NECESSÁRIO VERSUS SUPÉRFLUO
Comentário:
Essas correlações foram pensadas durante a caminhada até Santiago de Compostela, mas foram ratificadas durante a escalada ao tepui Roraima. A busca do supérfluo nos aprisiona na luxúria. Os sistemas de propriedade e de acumulação de bens criados pela humanidade oportuniza a diferença social pela posse, que pode ser expressa pelo conforto e segurança. Nesse mundo de status e títulos, que todos nós buscamos, os sentidos externos estão comandados pelo ego. Nessa dimensão, visamos o futuro para como conformar a manutenção das coisas e bens acumulados, ampliando-os.
A ponte entre os extremos da luxúria e do essencial é o caminho do meio, como plataforma existencial modesta. Uma existência pautada no necessário possibilita espaço-tempo para trabalhar o equilíbrio para a boa qualidade de vida.
O essencial traz consigo, todavia, um grande aprendizado, pois aponta para a sobrevivência. Ele nos afirma no momento presente, no aqui e agora, quando podem aflorar a solidariedade, ao invés da competição do outro extremo. As experiências isoladas, qual escalar o tepui Roraima, realizadas necessariamente fora do mundinho urbano, nos leva a observar de longe os cotidianos intrínsecos associados às posses e aos títulos, portanto, ao status social e econômico, para visualizar o caminho do meio. Idealmente, podemos lançar mão de coisas e bens em excesso, abrindo espaço-tempo para novas energias reparadoras e, sobretudo, transformadoras.
Esta forma ordinária continua no passo da unidade desde quando tomou consciência das rachaduras do tecido social com a leitura da doutrina política anarquista, que aponta para a solidariedade em detrimento da competição econômica: uma casa; um carro; uma conta bancária. Uma experiência civilizatória lastreada pela autogestão, contudo, só poderá ser efetivamente realizada quando os venenos que escondem o Ser no músculo nobre forem extirpados por transmutação: regozijo ao invés de inveja; a compaixão ao invés da ganância, e, sobretudo, o Conhecimento ao invés da ignorância. Até lá, o diálogo karma versus Dharma continua compatível com o atual estágio de evolução espiritual da humanidade.
ENFRENTAR OS DESAFIOS POR APROXIMAÇÕES SUCESSIVAS É UMA BOA ESTRATÉGIA
Comentário:
Muitas e muitas vezes temos que enfrentar, durante nossas vidas, metas, objetivos, projetos complexos e duros. Nunca devemos; nunca deveríamos desistir, a menos que por motivo de força maior. Devemos observa-los, estuda-los e investiga-los, pois aos poucos vamos dominando a questão e sua ambiência.
Ao me deparar, ao me aproximar do tepui Roraima, me perguntava como iria destrinchar a encrenca, o abacaxi da escalada até o topo. Não obstante, à medida da subida em que se dava a ascensão, percebi que de degrau a degrau, passo a passo, o desafio ia se desconstruindo, o paredão ia ficando menor, se encurtando, se estreitando. A grande decisão é dar o primeiro passo, encarando o desafio de frente. E, como num passo único de mágica, lá estava eu: no topo!
Minha consciência sobre a ZFM é resultado de uma observação, de um estudo e de uma investigação que já dura duas décadas. Nesse tempo, consegui transcender sua dimensão de um modelo, de um fim em si, para a de um projeto, de um meio para si, desvendando sua natureza intrínseca, segundo valores do autodesenvolvimento. Suas evidências positivas apontam para um crescimento econômico dependente de vantagens competitivas estáticas, para a atração de capital e tecnologia exógenas. Na lógica capitalista, o que faz sentido é a acumulação de lucros e a apropriação de conhecimento, caso contrário, os cidadãos do local dependente se tornam de segunda categoria.  
A Descida
O sétimo dia foi programado pela Adventure Roraima para a grande descida. A descida representa fazer o segundo e o terceiro trecho de ascensão numa só lapada. Foi bom ter descansado em função da lesão no joelho, do ponto de vista da grande descida. Descer significa exigir muito dos joelhos, os quais seriam protegidos com coxas de aço, o que não é meu caso. Então, me preparei psicologicamente para descer, afirmando positivamente para a mente essa possibilidade e necessidade. Passei a tomar Torsilax de 12 em 12 horas, com o aval do Sasha, e lancei mão de duas joelheiras.
Cheguei ao acampamento base sozinho, após descer a maior parte em companhia da Raquel, que avançou na reta final. Lancei mão da bunda, para escorregar quando o espaço não oferecia galhos e pedras para o suporte. Na oportunidade, muitos mochileiros, de diferentes grupos, subiam, quando percebia o quanto já havia desfrutado do tepui Roraima. Quando cheguei ao acampamento base, lá já estava o pelotão de frente. Em seguida, chegaram todos. Todos buscavam descansar à sombra.
Depois de almoçar, saí no primeiro pelotão, que acompanhei apenas por poucos minutos, ficando para trás, sozinho. Quando estava sozinho, como disse, nunca estava solitário, pois continuava a mantrar o Gayatri. Sempre. Adiante o guia Francisco me fez companhia, avaliando meu estado e orientando o sentido correto do caminho. O sentido da direção era uma só; a margem de erro é muito pequena. Não há desvios. Ainda assim, ao invés de contornar a base de um morrinho, subi, o que exigiu nova descida, ainda que muitíssimo menos extenuante. Mas, poderia ter sido evitado.
Cheguei ao acampamento do rio Kukenan muito lentamente. Passo após passo; sozinho. Todo dolorido; cansado. Imediatamente, fui tomar banho em suas águas hiper geladas. Lá já estavam os mochileiros do pelotão de frente, que comemoraram a minha chegada, parabenizando minha determinação. Foram 16 km desde o hotel estrelas infinitas!
Após o contato com a mochila e com a barraca, tomamos cerveja quente para festejar o avanço. Afinal só faltava o último trecho de 13 km até a comunidade nativa. Cada cerveja valia $ mil pesos bolivarianos, o que representa algo em torno de R$ 5,00, demonstrando a perda do poder aquisitivo da moeda venezuelana. A propósito, o câmbio de R$ 500,00 para pagar o carregamento da mochila principal e para despesas pessoais, exigiu um monte de dinheiro; uma dinheirama.
Como sempre acontecia durante o programa, o guia líder Francisco fazia sua preleção e fomos dormir cedo, após um macarrão com atum. Desta vez, saímos um pouco mais cedo, antes do sol nascer, para evitar insolação. A previsão era chegar antes das 10 h, com 4 horas de caminhada. Minha caminhada nesse último trecho foi propositalmente lenta e sempre atenta. O realizei sem grandes dores e sofrimento, como aconteceu no momento da lesão no joelho esquerdo, na visita ao marco fronteiriço, e na grande descida, no dia anterior. A maior parte do trecho foi realizado com a Deni (cirurgiã pediatra), com quem ratifiquei o insight do essencial abortar no aqui e agora. Deni foi uma guerreira, pois me confessou que foi a primeira grande trilha finalizada. Ou seja, as duas outras experiências negativas não foram suficientes para faze-la desistir. Nunca. Sempre que possível avançar. Essa é a Ordem. Estamos condenados à liberdade e à imortalidade!
Registro especial para a outra Dani (agrônoma), que fez esse último trecho de chinelo, em função das múltiplas bolhas que seus pés fizeram. Outra heroína! Observei também que o João (neurologista) também fez bolhas, o que provocou algumas vezes deixar o pelotão de frente. Sempre resistindo; nunca reclamando, venceu a escalada ao tepui Roraima. Todos, cada qual ao seu modo, vencemos!
Enfim, chegamos na comunidade nativa, assinamos o ponto de saída do Parque Nacional Canaíma, assim como fizemos no início, pela entrada. Tomamos cerveja, agora gelada para comemorar o sucesso da aventura de escalar o tepui Roraima. No total, foram cerca de 80 km. Tiramos uma bela foto com todos os guias e nativos de apoio, inclusive o Francisco, que carregou minha mochila principal e que foi presenteado com a minha mochila de ataque, uma calça de poliamida e uma papete e outros coisas e apetrechos menores.
Após almoçarmos na localidade São Francisco, onde comprei uma pedra para a Cristina, para mim e para o Dudu, uma corujinha de arenito para a coleção da ricaneta Maria Clara e uma lembrança, um pequeno artesanato também em arenito da Gran Savana, para um amigo, deu-se a viagem para Boa Vista. A aduana se processou sem maiores problemas, salvo as influências de uma cultura que nega o coletivo, conforme observou e protestou o Sasha. Jantei no hotel mesmo, limpei a mochila e as botas. Dormi. Ao acordar fui tomar café e nadar. Em seguida a um papo cabeça com o Mesquita, fui ao shopping Páteo comprar presentes para as ricanetas. No aeroporto, comprei camisetas para os genros; da senhora idosa, super gentil, que me atendeu, ganhei bombons de chocolates, que ofereci para as ricafilhas, e um pequeno artesanato de Boa Vista, que dediquei para a Tainara, colega da Suframa, que me forneceu o contato com o Magno. No voo, vieram, ainda, o Danilo e Carol, que receberam carona do Mesquita. No aeroporto, a Cristina e a ricaneta Maria Clara me aguardavam. A vida, agora, volta seu curso normal, com um cotidiano a ser reconstruído a partir do aprendizado e do conhecimento acumulados e oferecidos pelo tepui Roraima. Que assim seja!

Nota: A tralha foi basicamente a mesma da de Santiago de Compostela, adicionada de 3 camisas de manga comprida com proteção solar, que se mostraram bastante úteis, dois jogos de calções e camisetas de ginástica de poliamida e uma ceroula de algodão, aproveitando o jogo do carregamento contratado associado ao uso de uma mochila de ataque. Usei tudo que levei, à exceção de uma segunda pele, para o frio, que se mostrou em excesso. Muito útil se mostrou a agulha e os compeed para drenar e sarar as bolhas dos mochileiros. Nessa escalada, se extraviou dois cuecões de poliamida, o que é de somenos, qual a lesão no joelho, frente aos benefícios existenciais conquistados. Mas, fica o registro, como alerta, para os aventureiros. Custo da aventura? Se você, que me lê, não mora em Boa Vista, como eu; se já tem tralha, como eu tinha; e, se pretende utilizar carregador para levar sua mochila principal, como eu fiz, reserve cerca de R$ 3,5 mil. Se for econômico, capaz de voltar com alguma sobra!
Apêndice:

Meu comentário ao post do Mesquita em seu mural no facebook, compartilhado em meu mural, que bombou na grande rede:

Grande escalada de superação cardiovascular e aproximação espiritual. Joelhos estourados de somenos. Obrigado caro Mesquita pela parceria e companhia. Lugar especialíssimo do planeta Terra. Luz!

Meu comentário em meu post no meu mural do facebook:

Caríssimos amigos facebookianos. Passada a emoção, superada a lesão no joelho esquerdo, já no convívio familiar e de retorno ao trabalho, socializo algumas imagens da aventura de escalar o monte Roraima. Experiência espetacular e indescritível! Para além de descobrir que esta forma ordinária está com boa saúde física e mental (não deu um espirro, mesmo lavando as partes em águas super mega hiper geladas; não sentiu uma dor de barriga, mesmo comendo comidas preparadas fora das condições urbanas; não teve nenhuma alergia, mesmo em contato explícito com a natureza; não teve nenhum pânico em relação ao desafio e às condições socioambientais e ainda superou o medo da doença - lesões nas coronárias - e até mesmo o medo da morte, consciente da impermanência dos nomes e das formas), ainda teve oportunidade de fazer aproximações espirituais, aprendendo e expandindo o autoconhecimento. Shakti foi extremamente generosa oferecendo dias ensolarados e mantendo afastadas do grupo as aranhas, os escorpiões e as cobras, sem falar da proteção contra as fraturas expostas e acidentes mais sérios, possíveis nesse ambiente de risco de acesso a um local dos mais antigos deste planeta Terra. Todos podem realizar essa aventura; basta se preparar física e mentalmente e estar com boa saúde. Vale a pena! Luz!

Cronograma da aventura:

21.1.2016
Viagem para Manaus/Boa Vista
22.1.2016
Viagem Boa Vista/Santa Elena, na Venezuela
23.1.2016
Viagem para a comunidade nativa. Caminhada até o primeiro acampamento no rio Pedra
24.1.2016
Caminhada até o acampamento base.
25.1.2016
Subida ao topo do monte Roraima. Caminhada até as “jacuzzis”, para tomar banho. Caminhada até o hotel de estrelas infinitas
26.1.2016
Caminhada até o ponto geográfico da fronteira tríplice, passando pelo Vale dos Cristais, onde tomamos banho, e almoçando no Poço
27.1.2016
Descanso e recuperação em função da lesão do joelho esquerdo. Parte do grupo foi a um mirante chamado “A Janela”
28.1.2016
Descida até o primeiro acampamento no rio Kukenan
29.1.2016
Caminhada final até a comunidade nativa. Viagem para Boa Vista
30.1.2016
Viagem Boa Vista/Manaus


Nota Final: Dia 31.1.2016, como dito acima, esta forma ordinária fez 57 anos!

25/08/2015

ESQUIZOFRENIA ZONAFRANQUINA


Dos delírios e aberrações esquizofrênicas zonafranquinas

Antes de demonstrar os obstáculos para o autodesenvolvimento, no sentido do embotamento da mente coletiva associado ao capital social de Manaus e do capital intelectual dos agentes do sistema de inovação, devemos ter nas mãos o que significa a palavra esquizofrenia. Do dicionário eletrônico Miniaurélio, extraímos o que segue:

Substantivo feminino.
Grupo de distúrbios mentais que, basicamente, demonstram dissociação e discordância das funções psíquicas, perda de unidade da personalidade, ruptura de contato com a realidade.
§ es.qui.zo.frê.ni.co adj. sm.

Portanto, o termo aponta para uma ruptura frente à realidade, além de transformar o substantivo feminino num adjetivo masculino. Fico agora à vontade para sugerir que a ZFM, tratada como modelo, como um fim em si mesmo, e não como projeto, como um meio para o autodesenvolvimento, nos desconecta com a natureza fundamental do capitalismo, estruturada na acumulação de capital e na apropriação de conhecimento, via competição, e não por meio da solidariedade. Ou seja, ou os locais caminham com as próprias pernas, criando suas próprias firmas, ou seus cidadãos permanecerão ou se tornarão sujeitos de segunda categoria. O conjunto de distúrbios da mente coletiva manauara está dissociado e em discordância com a lógica capitalista, permanecendo na esfera cadente, porque dependente, da atração de investimentos vis a vis da substituição de importações.

Adotar o mito do desenvolvimento unicamente à perna da atração de investimentos, reduz o crescimento econômico à uma questão contábil, na medida em que evitamos a importação de produtos para consumo no mercado doméstico, mas em contra partida ficamos dependentes de investimentos, metrificados pelos plantas industrias transferidos de alhures por alheios, e de tecnologia, metrificada pelos pacotes tecnológicos concernentes associados às licenças de produção, às assistências técnicas e à importação de insumos que constituem segredos estratégicos. Portanto, não é suficiente que as firmas e marcas globais atraídas para a ZFM sejam constituídas pelas leis brasileiras.

Na realidade, é bom que se diga que Manaus representa uma imagem em miniatura do Brasil, onde continuamos dependentes de tecnologia que geram produtos dinâmicos derivados da fronteira tecnológica. Ou seja, nacionalmente ainda não conseguimos nos libertar da dependência gerada com o Plano de Metas que construiu a diversificada plataforma industrial pátria, ainda que sejamos a uma das maiores economias do planeta. É fácil verificar essa dependência, quando se percebe que seguimos crescendo na onda das commodities e que não temos firmas e marcas globais na esteira das grandes tendências tecnológica da microeletrônica, por exemplo. Essa condicionalidade dependente caracteriza a nova hegemonia de poder global, não mais lastreada na posse do território, como da realização dos grandes impérios, mas na posse da tecnologia frente aos estados nacionais tardios e seus pertinentes processos de industrialização tardios.

Isto posto, podemos agora retornar ao objetivo fulcral desta reflexão que é apontar as aberrações e os delírios zonafranquinos, desde a perspectiva esquizofrênica. Para tanto, basta recorrer à qualquer listagem das 100 maiores indústrias do PIM. Adotei, fruto de uma busca rápida na grande rede, um levantamento da Revista Circuito de 2007, com base no ano 2006. Apesar estar desatualizada, serve para nossos propósitos, pois a essência do ano base 2014 não deve ter alterado o que desejamos demonstrar, mas apenas mostraria novos entrantes, reproduzindo seus capitais de origem e realizando a mais-valia global. Então vamos lá.

Nessa lista, entre as maiores marcas que faturaram ente US$ 500 milhões e US$ 2,8 bilhões em 2006, constavam apenas uma empresa considerada brasileira, pelo capital, que é a Recofarma, e apenas uma joint-venture onde uma das bandeiras era a brasileira, que é SEMP TOSHIBA. Todas as outras eram ou japonesa, ou finlandesa, ou norte americana, ou holandesa, ou sul-coreana. Provavelmente nessa lista hoje, devemos ter alguma grande firma e marca chinesa. Todos esses países desenvolveram em suas plagas pátrias políticas industriais e tecnológicas que privilegiaram as dimensões patrimoniais de suas firmas, tanto em nível de criação, quanto de consolidação de suas solvências nos mercados locais e internacionais. Consultando a Wikipédia, a enciclopédia livre da grande rede, consolidamos os seguintes dados e informações básicas sobre esses gigantes que se instalaram na ZFM.

1.      A líder de faturamento é a Honda, que manteve sua razão social do tempo do seu estabelecimento na ZFM, Moto Honda, em associação com firma importadora local. Seu slogan é ‘o poder dos sonhos’. Realmente, esse é uma grande lição na forma de sutra: para ir longe, para ir além, temos que sonhar, idealizar, projetar e executar. E não apenas copiar, na realidade, nesse caso nem mesmo copiamos. Foi criada em 1948, portanto, num ambiente pós-guerra, de reconstrução do Japão, por Soichiro Honda. Sua sede é em Tóquio. Possui 167.231 empregados. Seus produtos são: automóveis, caminhões, motocicletas, motonetas, quadriciclos, geradores, robótica, equipamentos marinhos, jatos, equipamentos para jardins. É um gigante!

2.      A Nokia foi criada em 1865 por Fredrik Idestam. Seus produtos são: torre de dados 4G-3G, sistemas, bancos e switches wireless. Em 2013, disponha de 97.000 empregados. Seu lucro em 2014 foi de € 6,5 bilhões. Em 2007, a Nokia era líder mundial na fabricação de aparelhos de telecomunicações móveis, com cerca de 40% do mercado mundial. Não à toa, foi líder de investimentos em P+D em decorrência da Lei de Informática. Em 2013, a divisão de sua linha de produção foi adquirida pela Microsoft. A Microsoft é uma empresa transnacional estadunidense com sede em Redmond, Washington, que desenvolve, fabrica, licencia, apóia e vende softwares de computador, produtos eletrônicos, computadores e serviços pessoais. É uma firma contemporânea criada em 1975, cujos proprietários estão arrolados como dois dos sujeitos mais ricos do planeta. São ambas gigantes.

3.      Recofarma é uma empresa brasileira, ainda que totalmente de propriedade da COCA-COLA DO BRASIL sediada no Rio de janeiro e pertencente à multinacional The Coca-Cola Company. Atua na área de produção de bebidas, sendo a fabricante de todas suas marcas pertencentes a esse poderoso grupo econômico, entre elas o refrigerante mais vendido do mundo, a Coca-Cola. Em 2011, a Recofarma se tornou a maior exportadora do Amazonas, com uma geração de US$ 120 milhões de divisas na venda de concentrados. A Recofarma é a 3ª maior fabricante em volume de produção da Coca-Cola no mundo. De fato, embora tenha em sua formação algum capital nacional, a tecnologia que utiliza está amarrada talvez ao maior segredo industrial da história da humanidade. A situação, certamente, é a mesma junto ao Grupo Simões, firma de capital local que atua com franquia da multinacional, produzindo refrigerantes. Portanto, não seria o que é ­ não seriam o que são ­ se não fossem as licenças para produzir um produto que representa uma das maiores marcas contemporâneas, que por ironia disputa com a marca Amazônia. Mas esta não gera riquezas no chão amazônico para os amazônidas na forma de amazonidades.

4.      A Philips aparece em quarto lugar na ordem de faturamento no PIM em 2006. Tem origem holandesa, tendo sido criada em 1891. Seu lucro em 2010 no mercado de eletrônica de consumo, lâmpadas e sistemas médicos foi de US$ 1,9 bilhão. Em 2011 contava com 119.000 empregados. Já em 2007 operava na ZFM numa parceria estratégica com a LG, que desponta na sexta posição na ordem de faturamento no PIM, em 2006.

5.      Na quinta posição está uma gigante sul-coreano, a Samsung. A Samsung foi fundada em 1936 por Lee Byunq-chul. Em 2013 tinha 489.000 empregados, quando acumulou US$ 22,1 bilhões em lucros, produzindo e vendendo smartphones, TVs, câmeras fotográficas, CDs, DVDs, discos rígidos, drives óticos, home theaters, impressoras, dentre outros, desde um faturamento de US$ 529.5 Bilhões. É um bom exemplo para nós que devemos trilhar a vereda do autodesenvolvimento, pois sua evolução se deu após a idealização de uma política industrial e tecnológica por parte da Coréia do Sul no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, portanto, praticamente coincidindo com o período histórico da ZFM. Isso deveria nos dizer alguma coisa.

6.       A LG, como já dito, vem em seguida. Trata-se de uma co-irmã da Samsung em termos de fruto da mesma política de desenvolvimento nacional. Portanto, é outra gigante multinacional sul-coreana, possuindo fábricas instaladas nos 4 continentes. Foi fundada em 1958 por Koo In-Hwoi. O montante do seu faturamento anual está acima de US$ 500 bilhões de dólares.

7.      A sétima posição é da SEMP TOSHIBA. Consta no sítio da empresa que a Semp Toshiba é uma marca brasileira de equipamentos eletrônicos fundada em 1942 na cidade de São Paulo por Affonso Brandão Hennel. A empresa contava com 3.220 empregados no final de 2011. Informa, ainda, a Wikipédia que em 2010 lucrou R$ 2,2 bilhões e que em 2011 faturou R$ 1,6 bilhão, o que representa um aparente paradoxo, que mereceria ser aprofundado. Talvez apenas talvez seja resultado da concorrência com os gigantes sul-coreanos. Ao vir para a ZFM na década de 70 do século passado firmou a parceria estratégica com a Toshiba, unindo o domínio tecnológico japonês com a capacidade de produção da firma e marca nacional. Portanto, é um ilustre representante do capital nacional no grupo dos oito maiores faturamentos do PIM em 2006.

8.      Finalmente, o oitavo maior faturamento do PIM em 2006 é mais uma firma e marca de capital e tecnologia japonesa, que é a Yamaha. A Yamaha foi fundada por Torakusu Yamaha em 1955. Em 2005 contava com 39.300 empregados, tendo faturado US$ 12 bilhões e lucrado US$ 900 milhões nesse mesmo ano, produzindo motocicletas, motonetas, scooters e quadriciclos. Sem dúvida, outro gigante nipônico.

O capital e da tecnologia estrangeira presente na lista das maiores empresas instadas no PIM não para por aí. Seguem-se: Sony; Benq, Gillete, Panasonic, Jabil, Bic, Kodak, Pepsi-Cola, Showa, Thomson, Nissin, ... Enfim, se todo o faturamento dessas gigantes mundiais fosse totalizado, certamente seria maior do que o PIB brasileiro. Só os faturamentos dos dois gigantes sul-coreanos, Samsung e LG, ultrapassam a monta de US$ 1 trilhão. E reproduzem seus capitais realizando a mais valia global em qualquer local deste planeta que lhes seja favorável e amigável como aqui na ZFM. Pois só a Samsung, de cuja firma e marca sou fã pelo que representa ao se tornar líder mundial desbancando firmas tradicionais estadunidenses, afirma em seu site que se fosse um país seria o trigésimo quinto mais rico do mundo. É brincadeira, quando afirma que ¼ do seu capital intelectual tem grau acadêmico do doutor? Considerando que seu contingente operário é de 489.000 funcionários, temos que 122 mil são profissionais pesquisadores doutores! Esse número é quase igual ao total de doutores no Brasil, que segundo o censo do CNPq de 2014, é de 140.272. Como a região Norte ainda não superou a marca histórica de dispor de menos de 5% do total nacional, podemos afirmar que o Amazonas dispõe de 1,5% desse total, que é de 2.078 doutores. E ainda teríamos de verificar quantos desses estão efetivamente trabalhando nos chãos de fábrica de firmas locais e mesmo nos laboratórios do chão acadêmico, na medida em que talvez a maioria se lance nas relações de poder em busca de posição e status, deixando de atuar em pesquisas, para as quais foram treinados e formados. Isso é insignificante frente ao poder e à potência da Samsung para fins de desenvolvimento tecnológico e de realização de melhorias e inovações. Mas é o que temos; temos que otimizar e potencializar, fazendo mágicas e encantos. Não à toa a Apple briga nos fóruns internacionais quanto a posse de patentes da tecnologia touchscreen, após a Samsung ter tido limitado seu acesso às licenças e patentes que visavam o desenvolvimento de tecnologia por meio de engenharia reversa avançada. A evolução da Samsung alcançou inicialmente a cópia de produtos e processos transferidos de empresas estrangeiras, depois focou a busca melhorias e inovações incrementais conquistando mercados internacionais, e agora seu desafio são as inovações transformadoras e revolucionárias para consolidar e ratificar sua posição de líder mundial. Claro do ponto de vista da liderança econômica.

Portanto, trata-se de um absurdo dizer que essas firmas e marcas são nossas porque estão instaladas no PIM, reproduzindo seus capitais sob o manto de vantagens competitivas estáticas, só porque estão constituídas por leis brasileiras. Igualmente trata-se de outro absurdo dizer que temos tecnologia quando o PIM substitui importações pátrias de produtos dinâmicos, quando em verdade essa tecnologia está embutida nos pacotes tecnológicos associados aos projetos industriais, que exigem apenas o cumprimento de operações mínimas no chão de fábrica para o gozo das vantagens competitivas estáticas. Numa oportunidade passada ouvi um decano federado à classe patronal amazonense dizer, talvez com endereço certo para este pensador, que a ZFM não tem problemas com investimentos. Claríssimo que não, mas mantém dependência industrial e tecnológica em níveis cada vez mais assombrosos, ao passo em que tarda em acumular e expandir capital industrial em prol do autodesenvolvimento. Então, o que elas são desde o ponto de vista do autodesenvolvimento? São nossas parceiras de crescimento econômico; aportando capital e aplicando tecnologia, geram trabalho, pagam salários, recolhem tributos e difundem técnicas de gestão. Não é pouca coisa, mas não é tudo o que precisamos para o autodesenvolvimento. Precisamos fazer a tarefa de casa!

Então: dizer que as firmas e marcas líderes em faturamento do PIM são nossas é o que digo constituem aberrações; dizer que a tecnologia associada a esse faturamento é nossa é o que digo constituem delírios. E o que significam as palavras aberração e delírio, segundo o dicionário eletrônico Miniaurélio, respectivamente?

Substantivo feminino.
1.Ato ou efeito de aberrar.
2.Defeito, distorção.
3.Anomalia, anormalidade. [Pl.: –ções.]

Substantivo masculino.
1.Psiq. Distúrbio mental caracterizado por ideias que contradizem a evidência e são inacessíveis à crítica.
2.Exaltação do espírito; desvairamento.

É importante fazer uma associação com os significados aqui reproduzidos de esquizofrenia, aberração e delírio, pois a postura esquizofrênica encerra distorções e desvarios, limitando e emperrando a crítica e, sobretudo, a idealização de alternativas econômicas, desde a realidade real das coisas e fatos econômicos. Há uma correlação, na medida em que aceitamos a ZFM como um processo com fim em si mesmo, não encarando o desafio histórico de frente, não só quanto à sua condição de projeto, mas, sobretudo, quanto à sua oportunidade de ser entendido e adotado como meio para o autodesenvolvimento. Para tanto, como já dito e redito, o capital social de Manaus precisaria idealizar, dimensionar e implantar uma política industrial e tecnológica com base na dimensão patrimonial das firmas locais. É muito mais factível e lógico tentarmos trilhar o mito do desenvolvimento buscando realizar amazonidades do que pensando em apenas consolidar as firmas e marcas estrangeiras sob o manto da ZFM, que encerra contradições e limitações insolúveis do ponto de vista do autodesenvolvimento. Isto é verdade mesmo que o nível do ambiente de inovação manauara, segundo determinada taxonomia elaborada por pesquisador qualificado da FGV, albergue iniciativas de melhorias e de inovações incrementais enquadradas num estágio pré-intermediário numa escala que vai até 7, onde se processam as criações e as invenções, isto é, a  própria proximidade com a fronteira tecnológica. Basta observar as assimetrias e anacronismos históricos existente entre o chão de fábrica do PIM e os bancos escolares e as bancadas laboratoriais disponíveis no chão acadêmico, depois de observada a origem do capital que lidera o seu faturamento:

1.      Qual o PPB que foi efetivamente reduzido sociologicamente de esforços de pesquisa e de investigação locais sob o lema de produzir mais com menos?

2.      Quais foram as contribuições da academia local para as rupturas de engenharia de processo de mecanismos semi-montados (SKD) para partes e peças totalmente desagregados (CKD)?

3.      Qual a participação do Sistema Manaus de Inovação na revolução tecnológica que transformou o tubo catódico em peça de museu e trouxe as novas tecnologias associadas ao LCD, PLASMA e associações correlatas, quais OLED?

4.      Qual, enfim, a participação de academia local no desenvolvimento das tecnologias e correlatas evoluções sequenciais de telefonia móvel ­ ...; G3; G4; G5; ...?

Na tradição védica há um texto sagrado clássico que se chama BHAGAVADGITA, que reproduz um diálogo de Krishna para Arjuna. Arjuna se vê com medo de guerrear a boa luta. Então, Krishna lhe fala palavras fortes e duras, gerando efeito positivo não só para a resolução do problema existencial de Arjuna, mas o impulsionando para o autoconhecimento. Malbaratando essa verdade védica inserida no contexto da liberdade e da imortalidade, podemos dizer que essas palavras − esquizofrenia; aberração e delírios – visam despertar o capital social de Manaus para o autodesenvolvimento em busca da liberdade política e independência econômica da Amazônia por meio das amazonidades, vale dizer, da construção de capitalismo amazônico, que transforme insumos e saberes da floresta em produtos e serviços realizados no mercado. Isso enquanto o capitalismo for o sistema que organiza a humanidade no seu atual estágio de evolução espiritual. É absolutamente indispensável que tomemos refúgio na lógica genuína do sistema capitalista, que acumula lucros e apropria conhecimento entre firmas, expressos em capital e tecnologia, e na lógica dos estados nacionais, que os contabilizam em suas contas de comércio exterior. Devemos ter coragem heroica para travar a boa guerra vertida ao mito do desenvolvimento, indo para além da reprodução de capital e tecnologia de alheios e de alhures. Anexo, um dx de esperança!


Anexo: Da Esperança

O professor Frank Cruz defendeu sua tese de doutoramento, aprovada por unanimidade, com a realização da pesquisa intitulada O Efeito da Substituição do Milho pela Farinha de Apara da Mandioca em Rações de Poedeiras Comerciais em Manaus.

O trabalho, defendido em audiência pública realizada em 29.10.04, foi a primeira tese de doutorado em biotecnologia da Ufam e do Programa Multi-institucional de Pós-graduação em Biotecnologia financiado pela Suframa.

A reportagem denominada “Biotecnologia: resto de mandioca substitui o milho”, publicada no jornal A Crítica de 02.11.04, página C8, sintetiza o trabalho conforme trecho abaixo:

...Em sua pesquisa, o doutor Frank Cruz conseguiu trocar o milho, um produto importado pelo Estado, das rações para aves por um material produzido e encontrado em abundância na Amazônia – a farinha retirada dos restos de mandioca cortadas nas feiras de Manaus – sem alterar a qualidade do ovo produzido na região.

Os resultados da pesquisa mostram vantagens econômicas aos produtores do ramo de postura avícola...

Trata-se, portanto, de um exemplo recentíssimo de criação de uma amazonidade, à qual toda a atenção deveria ser dispensada. Temos dezenas, talvez centenas, quiçá milhares no futuro, de outras criações que mereciam igualmente o mesmo tratamento. Poder-se-ia fazer uma simulação da aplicação de uma política industrial e tecnológica à luz da do modelo estadunidense, que fez do Estados Unidos a maior potência econômica do planeta:

1.     Conceder prêmio pecuniário ao autor;

2.     Incentivá-lo a empreender a sua criação no mercado, financiando o investimento com taxa zero;

3.     Proteger a empresa nascente da competição predatória, inclusive estabelecendo barreira tarifária para a entrada de produto concorrente no Estado;

4.     Conceder subsídios até a consolidação do investimento;

5.     Estabelecer incentivos fiscais para todos os insumos e matérias-primas utilizadas na produção;

6.     Estabelecer novos prêmios e incentivos financeiros para o desenvolvimento de inovações tecnológicas de produto e de processo;

7.     Estabelecer outros prêmios e incentivos financeiros para a conquista de novos mercados; enfim,

8.     Oferecer capacitação de todo ordem (gerencial; tecnológica; mercadológica; etc.) para o sucesso do empreendimento.


Nota: Trata-se de um fragmento da segunda edição do Redesenhando o Projeto ZFM: um estado de alerta! uma década depois, publicada em 2006. Representa mais uma demonstração inequívoca que com amor próprio e galhardia poderíamos trilhar o mito de desenvolvimento pela vereda do autodesenvolvimento. Mais um exemplo de combinação virtuosa de catching up, na medida em que o pesquisador idealizou máquinas e equipamentos – trituradores e secadoras, por exemplo – de tecnologia universal, com a perspectiva do growing up, que se utiliza de um insumo amazônico enquanto trajetória tecnológica alternativa, trazendo benefícios para a ética da autossustentabilidade; ex ante, mitigando impacto ambiental utilizando a casca da mandioca como insumo, e ex post, reduzindo déficit na balança com a importação de milho. Mas, infelizmente, decorridos quase 11 anos desde a defesa da tese, não se tem notícias de que esse conhecimento tenha sido transformado na forma de negócio, e, como tal, acolhido e protegido por determinada política industrial e tecnológica amazonense que privilegie o capital e a tecnologia local. Não sabemos nem mesmo se essa transformação foi tentada.