13/02/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga VIII[1]

Grupo de Outras Quatro Posturas: de Relaxamento (1), Deitada de Bruços (1), sobre as Costas (1) e de Equilíbrio sobre às Mãos (1).[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Neste grupo, vamos trazer: halasana&makara&mayura&shalabhasana. Fica registrado que seus backgrounds já foram sintetizados em outros grupos de posturas, correlata&respectivamente: do Yoga Sutras (vide Grupo 2), do Siddha Siddhanta Paddhati (vide Grupo 3), dos Nathas (vide Grupo 3) e do Shivaismo (vide Grupo 2). Pelo longo título do grupo, já deu para perceber que a de relaxamento é o makarasana, deitada de bruços é o shalabhasana, sobre as costas é o halasana e de equilíbrio sobre às mãos é o mayurasana. Sendo assim, vamos direto aos marcos mitológicos das posturas, começando pelo halasana.

Hala, o arado! Halasana, a postura!

Olhemos, adiante, uma ilustração do halasana, em sua posição final.

 

Caixa de Texto: O halasana oferece a possibilidade de termos foco na proteção, para dar comando à voz do ‘eu’ do coração!Foto preta e branca de homem deitado no chão

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

O arado é uma das ferramentas mais antigas da humanidade. Era usado para preparar a terra para a agricultura. E, talvez ainda seja utilizada nas propriedades rurais de pequeno porte, apesar do maquinário agrícola moderno, utilizado pela grande empresa. Com a abertura de valas, abertas pelos arados, as sementes são acolhidas&acomodadas pela terra, e se tornam produtivas, gerando frutos, na forma de comida. É possível que a semente jogada direta na terra não prospere com a produtividade necessária. Mas, e aí? E a mitologia? Pois é, vamos avançar para ela agora.

A base do marco mitológico é que o campo de cultivo, segundo a Bhagavadgita, é o nosso corpo. E, é, exatamente, o que os significados&significações se propõem, ou seja, servir como semente para serem acolhidas&acomodadas no espaço interno&subjetivo. O coração, pela unidirecionalidade da mente, aberto pelo halasana, se prepara para receber as sementes, vale dizer, os significados&significações. Claro, aqui estamos apontando o que vale para todos os ásanas/posturas com seus valores&conceitos mitológicos específicos; um gênero, um caráter geral. Mitologicamente, falando de forma específica, hala&halasana defende&protege o campo do corpo&mente. Mas, é só isso? Não!

Sita, a esposa de Rama, por exemplo, é filha da terra, nasceu do sulco da terra. E, no Ramayana, a personagem Sita aponta para o coração; a luta de Rama pelo resgate de Sita, em posse dos demônios&asuras, é o objetivo supremo de todo&toda yogin&yogini, para acessar o si mesmo no coração, obtendo a autorrealização; assim como a Bhagavdgita, é uma guerra que acontece dentro de nós mesmos, com a mente dialogando com a escravidão&libertação, buscando&lutando para superar as marcas&traços&tendências&memórias, para se assentar no espaço interno&subjetivo do coração e obter a união&fusão&integração com o Absoluto Brahman. Embora, halasana seja uma concepção moderna, o sentido dele aponta para a defesa do espaço mítico, que se arranja&acomodado no coração, espiritual, enquanto produto&resultado de ekagrata mental. Balarama, irmão de Krishna, usa arma igual a um arado. Hala, portanto, também é uma arma de defensa&ataque, além de cultivo. Há, ainda, na mitologia, os halas, que são guerreiros fortes, como que justificando a perspectiva adicional à do cultivo do corpo, albergando&acolhendo significados&significações.

Halasana&hala, desta forma, podem ser consideradas, em seu conjunto, como forças de proteção&defesa, para dar comando à voz do ‘eu’ do coração, como dito no quadrinho acima, de forma a nutrir a semente ideal para o samadhi, quer com ou sem semente (não há paradoxo!). A pergunta sobre qual semente ideal devemos lançar no coração resta apontada, isto é, devemos cultivar a semente de moksha, para que a nossa autorrealização possa prosperar em campo fértil!

Agora, makara, um animal misterioso!

Observem, abaixo, ilustração de uma variação do makarasana.

Caixa de Texto: É dito que makarasana produz fogo no corpo. Makara possui uma série de trocadilhos, como veremos adiante.Foto preta e branca de mulher sentada

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Makara é um animal mítico; aquático. Ele está relacionado com kamadeva; o cupido! Possui uma iconografia estranha, pois é reproduzido como crocodilo esquisito. Como está associado às águas, representa a montaria dos deuses Varuna&Ganga. O makara nas profundezas das águas, seu habitat, é correlato ao inconsciente; semelhante do capricórnio da astrologia ocidental. Enquanto metade mais escura do ano, fica conectado à Varuna, pois esse deus é o céu noturno, guardião das forças do inconsciente. Seu terceiro olho de Shiva nos conduz para o abismo, para o Infinito do coração onde está Ele, o próprio Shiva. O makarasana, portanto, é um ásana/postura que nos põe em contato com as grandes forças do inconsciente.

Makara tem uma série de trocadilhos, conforme dito no quadrinho ilustrativo. Ma-kara é o nome da sílaba ‘ma’, e ‘ma’ representa o deus Shiva. Na Mandukya Upanishad está associado ao ‘eu’ do coração, enquanto emblema de OM, de Brahman. Um outro trocadilho seria a representação quarta nota da escala musical indiana, que aponta para o meio, para o equilíbrio. Tem, também, associação com o preta, que é a cor o céu noturno e do inconsciente, apontando para as trevas&escuridão. Possui a presença a memória da ancestralidade, nos tornando mais humanos, na medida da associação com os antepassados&antecessores. Um outro seria frente à sua iconografia; é que seu rabo com três voltas aponta para a Kundalini, que também é escura. Percebe-se, claramente, que escuridão&trevas não representa, necessariamente, ignorância, tampouco sabedoria, até porque o liberto em vida está além do Dharma&adharma. É um paradoxo como outros, diversos&múltiplos, do Advaita Vedanta. Até porque, a voz do coração também está no escuro&negrume, mas que pode se tornar clara&reluzente, se tiver a oportunidade conferida pela autorrealização.

Makara brilha no svadhisthana, o chakra da água, habitat dos genitais. Esse chakra traz, em sua iconografia, o desenho do makara, que representa as forças lá sediadas. Suas seis pétalas estão no entrelaçamento de dois triângulos, que aponta, mais uma vez, para o equilíbrio.

Assim, makara&makarasana conduz as forças dentro de nós. As forças do inconsciente bem trabalhadas nos conduzem ao nosso Dharma, com uma visão certa&correta. Essa perspectiva de makarasana&makara, viabiliza&oportuniza ocupar nosso espaço no mundo secular, travando&jogando uma vida útil, cheia de significados, cheia de Yoga. Desta forma, vamos assentar os significados&significações do makarasana no espaço interno&subjetivo, do nosso coração, espiritual.

Agora, mayura, o pavão!

Olhem, abaixo, uma ilustração de uma variação de mayurasana.

Caixa de Texto: É um pássaro, uma ave nativa; representa um símbolo, na Índia. O pavão, um indivíduo altivo, foi adotado, correlatamente, como ícone de culto ao corpo belo, no sentido de vaidade.

 

A base verbal de mayurasana significa berrar. Embora, tenha penas&crista bonitas, seus pés&berro é feio. Muito além da estética, mayura é um instrumento de medição do tempo por meio das palavras, ou seja, mayura são as palavras como medida de tempo; referente ao discurso. Portanto, tem uma associação direta&indireta com as palavras. É, também, um veículo mitológico. Kartikeya (Skanta) e a deusa Saraswati usam o pavão como veículo ou como o utilizam como um companheiro. Skanta, filho de Shiva, deus da guerra, luta com a mentira; a luta cristiana do bem versus o mal, no hinduísmo, é a verdade contra o falso. Ou seja, o que é mentira é falso; o que é falso é mentira! Simples assim! A presença do pavão junto a Sarasvati configura o poder da palavra verdadeira; a fluição das palavras&discurso expressa a verdade. Temos, aqui, o poder das palavras como impulso do processo de libertação!

A configuração do pavão, ainda, sinaliza para instrumentos&ferramentas de meditação. Ou seja, a calda cheia de olhos&olhares é a platéia. E a cabeça, o artista. Sabemos que o artista transmite ensinamentos através da arte, especialmente na forma de teatro. Sem falar que o pavão é um emblema de Shiva; emblema do processo de concentração, isto é, meditar como corpo inteiro, ficando atento à cabeça. No cristianismo, a meditação se faz com diálogo; no hinduísmo, com o fazer, e não com o pensar. Há uma diferença entre fazer&falar! Viver para falar é um equívoco; a ideia da existência é fazer mais e tagarelar menos. Portanto, mayura ensina transformar palavras em ações. Ele representa esse poder relativo à nossa natureza, isto é, fazer ao invés de descrever. Neste sentido, a ideia é colocar para fora a nossa autorrealização, tornando nossa subjetividade objetiva; sem apego, sem aversão. Assim, mayurasana&mayura constituem ferramentas de realização&autorrealização, com menos teorias&quimeras.

O pavão, também, remete à garuda, que é primo da serpente, pois mayura foi criado a partir das penas de garuda. Mayura possui o olhar do coração, e não da mente. O coração observa as coisas&eventos&mundo, numa perspectiva de inimigo do olhar da mente, que é frio&distante. Esse olhar que de escrutinador é o olhar espiritual, subjetivo&interno, comprometido com a nossa natureza autêntica&original. O poder das palavras conduz do objetivo para o subjetivo, do esterno para o interno, espiritual, fazendo uma ponte, para, em seguida, se manifestar nos manifestarmos subjetivamente de forma objetivo, em prol da autorrealização, como dito acima. Na iconografia de Valmike, a pena de pavão, escreve ensinamentos espiritualmente inspirados, que apontam para o ‘eu’ mais profundo, para Isvara, que guarda a natureza de nosso coração, junto com Shiva. Mayura, então, como ponte, tem duas pontas: faz o vínculo entre o mundo externo&objetivo com o mundo interno&subjetivo, se prevalecer o mundo secular está apontando para a vaidade. Por outro lado, se aponta no sentido inverso, sinaliza para a autorrealização, representado na força de presença do espírito sobre a matéria.

Observe-se que as imagens dos deuses nos templos hindus são feitas com as penas do pavão. Desta forma, os significados&significações de mayurasana&mayura pagam as coisas&eventos do mundo, para preservar o essencial&primordial. A dupla, mayurasana&mayura, homenageia o yogin&yogini perfeito&perfeita, os quais que, em geral, vivem só, isolados, para descobrir a natureza autêntica&original de cada um, que tem base no espírito.

Agora, shalabha, o gafanhoto!

Percebam, adiante, uma ilustração da variação do shalabhasana.

Imagem em preto e branco de pessoa com a mão

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Denominar shalabha de lagosta, como eventualmente acontece, é incorreto. Designa, exatamente, gafanhoto. Temos duas ou três variações além da ilustração acima: uma com as mãos no solo à altura do estômago&instestino, com os braços&antebraços em 90° graus; outra com as mãos&braços&antebraços simplesmente levantados na altura dos ombros, ou mesmo à frente; e uma terceira com os braços ao longo do tronco com as pernas levantadas e cabeça rente ao chão, eventualmente, apoiada no queijo. Enfim, shalabhasana!

O principal aspecto mítico de shalabha é que é uma forma assumida por virabhadra. Um herói maluco? Não. Trata-se de nome&forma associado à fúria de Shiva, junto à mitologia da vingança pela morte de Sati, sua primeira esposa, que se lançou ao fogo com vergonha pelas atitudes de pai, Daksha.

Há, em complemento, também uma outra simbologia, vertida à Verdade. É que Visnhu assume a postura&atitude de narashimha, o quarto avatar do deus da manutenção cósmica. No entanto, perde o controle dessa personagem e se transforma, novamente, num grande pássaro, com duas cabeças, lembrando a figura de garuda, ou num outro animal com corpo de leão e cabeça de elefante. Nessa mitologia, Vishnu, então, assume a forma de gandabherunda, narashimba transformado, um ser tipo águia com duas cabeças, para subjugar sharabha, apontando a afirmação: eu sustento apenas a Verdade. Shiva, então, liberta o espírito de Vishnu desses condicionamentos; numa história shaiva, claro.[4] No brasão indiano, talvez apenas talvez e não à toa, há um dizer que afirma que somente a Verdade vence&trinufa, sozinha.

Com base nessas histórias mitológicas, o que shalabha representa na meditação, em shalabhasana? Representa, figurativamente, duas grandes forças poderosas, que convivem dentro de nós, ao mesmo tempo, na forma de conflito e de equilíbrio. Essas forças nos mantêm dentro dos limites, ou seja, sinalizando&alertando para não ultrapassarmos nossos limites. Entretanto, a sabedoria nos permite ultrapassar os limites, sem ferir o próximo. Assim, o Dharma é o foco dos significados&significações do shalabha&shalabhasana, quando devida&corretamente assentados no espaço interno&subjetivo do&da yogin&yogini. Portanto, o Dharma é o tema da meditação em shalabhasana!



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] O vaishnavismo também deve acolher&acomodar muitas histórias que liberta Shiva de seus condicionametos. Não obstante, acredito que a perspectiva de Shiva, que, ao destruir, recria&mantem, até nova transformação, atuando de forma contínua&ininterrupta, está mais próxima do não dualismo, tradição hindu que adota&acolho; na realidade, Shiva encerra a não-dualidade, desde sempre e para sempre, aqui&agora!

Nenhum comentário: