Agora é tempo de Yoga VIII[1]
Grupo
de Outras Quatro Posturas: de Relaxamento (1), Deitada de Bruços (1), sobre as
Costas (1) e de Equilíbrio sobre às Mãos (1).[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
Neste grupo, vamos trazer:
halasana&makara&mayura&shalabhasana. Fica registrado que seus
backgrounds já foram sintetizados em outros grupos de posturas,
correlata&respectivamente: do Yoga Sutras (vide Grupo 2), do Siddha Siddhanta
Paddhati (vide Grupo 3), dos Nathas (vide Grupo 3) e do Shivaismo (vide Grupo
2). Pelo longo título do grupo, já deu para perceber que a de relaxamento é o
makarasana, deitada de bruços é o shalabhasana, sobre as costas é o halasana e
de equilíbrio sobre às mãos é o mayurasana. Sendo assim, vamos direto aos
marcos mitológicos das posturas, começando pelo halasana.
Hala, o arado! Halasana, a postura!
Olhemos, adiante, uma ilustração do
halasana, em sua posição final.

O arado é uma das ferramentas mais antigas
da humanidade. Era usado para preparar a terra para a agricultura. E, talvez
ainda seja utilizada nas propriedades rurais de pequeno porte, apesar do
maquinário agrícola moderno, utilizado pela grande empresa. Com a abertura de
valas, abertas pelos arados, as sementes são acolhidas&acomodadas pela
terra, e se tornam produtivas, gerando frutos, na forma de comida. É possível
que a semente jogada direta na terra não prospere com a produtividade
necessária. Mas, e aí? E a mitologia? Pois é, vamos avançar para ela agora.
A base do marco mitológico é que o campo
de cultivo, segundo a Bhagavadgita, é o nosso corpo. E, é, exatamente, o que os
significados&significações se propõem, ou seja, servir como semente para
serem acolhidas&acomodadas no espaço interno&subjetivo. O coração, pela
unidirecionalidade da mente, aberto pelo halasana, se prepara para receber as
sementes, vale dizer, os significados&significações. Claro, aqui estamos
apontando o que vale para todos os ásanas/posturas com seus
valores&conceitos mitológicos específicos; um gênero, um caráter geral.
Mitologicamente, falando de forma específica, hala&halasana
defende&protege o campo do corpo&mente. Mas, é só isso? Não!
Sita, a esposa de Rama, por exemplo, é
filha da terra, nasceu do sulco da terra. E, no Ramayana, a personagem Sita
aponta para o coração; a luta de Rama pelo resgate de Sita, em posse dos
demônios&asuras, é o objetivo supremo de todo&toda yogin&yogini,
para acessar o si mesmo no coração, obtendo a autorrealização; assim como a
Bhagavdgita, é uma guerra que acontece dentro de nós mesmos, com a mente
dialogando com a escravidão&libertação, buscando&lutando para superar
as marcas&traços&tendências&memórias, para se assentar no espaço
interno&subjetivo do coração e obter a união&fusão&integração com o
Absoluto Brahman. Embora, halasana seja uma concepção moderna, o sentido dele
aponta para a defesa do espaço mítico, que se arranja&acomodado no coração,
espiritual, enquanto produto&resultado de ekagrata mental. Balarama, irmão
de Krishna, usa arma igual a um arado. Hala, portanto, também é uma arma de
defensa&ataque, além de cultivo. Há, ainda, na mitologia, os halas, que são
guerreiros fortes, como que justificando a perspectiva adicional à do cultivo
do corpo, albergando&acolhendo significados&significações.
Halasana&hala, desta forma, podem ser
consideradas, em seu conjunto, como forças de proteção&defesa, para dar
comando à voz do ‘eu’ do coração, como dito no quadrinho acima, de forma a
nutrir a semente ideal para o samadhi, quer com ou sem semente (não há
paradoxo!). A pergunta sobre qual semente ideal devemos lançar no coração resta
apontada, isto é, devemos cultivar a semente de moksha, para que a nossa
autorrealização possa prosperar em campo fértil!
Agora, makara, um animal misterioso!
Observem, abaixo, ilustração de uma
variação do makarasana.

Makara é um animal mítico; aquático. Ele
está relacionado com kamadeva; o cupido! Possui uma iconografia estranha, pois
é reproduzido como crocodilo esquisito. Como está associado às águas,
representa a montaria dos deuses Varuna&Ganga. O makara nas profundezas das
águas, seu habitat, é correlato ao inconsciente; semelhante do capricórnio da
astrologia ocidental. Enquanto metade mais escura do ano, fica conectado à
Varuna, pois esse deus é o céu noturno, guardião das forças do inconsciente. Seu
terceiro olho de Shiva nos conduz para o abismo, para o Infinito do coração
onde está Ele, o próprio Shiva. O makarasana, portanto, é um ásana/postura que
nos põe em contato com as grandes forças do inconsciente.
Makara tem uma série de trocadilhos,
conforme dito no quadrinho ilustrativo. Ma-kara é o nome da sílaba ‘ma’, e ‘ma’
representa o deus Shiva. Na Mandukya Upanishad está associado ao ‘eu’ do
coração, enquanto emblema de OM, de Brahman. Um outro trocadilho seria a
representação quarta nota da escala musical indiana, que aponta para o meio,
para o equilíbrio. Tem, também, associação com o preta, que é a cor o céu
noturno e do inconsciente, apontando para as trevas&escuridão. Possui a
presença a memória da ancestralidade, nos tornando mais humanos, na medida da
associação com os antepassados&antecessores. Um outro seria frente à sua
iconografia; é que seu rabo com três voltas aponta para a Kundalini, que também
é escura. Percebe-se, claramente, que escuridão&trevas não representa,
necessariamente, ignorância, tampouco sabedoria, até porque o liberto em vida
está além do Dharma&adharma. É um paradoxo como outros,
diversos&múltiplos, do Advaita Vedanta. Até porque, a voz do coração também
está no escuro&negrume, mas que pode se tornar clara&reluzente, se
tiver a oportunidade conferida pela autorrealização.
Makara brilha no svadhisthana, o chakra da
água, habitat dos genitais. Esse chakra traz, em sua iconografia, o desenho do
makara, que representa as forças lá sediadas. Suas seis pétalas estão no
entrelaçamento de dois triângulos, que aponta, mais uma vez, para o equilíbrio.
Assim, makara&makarasana conduz as
forças dentro de nós. As forças do inconsciente bem trabalhadas nos conduzem ao
nosso Dharma, com uma visão certa&correta. Essa perspectiva de
makarasana&makara, viabiliza&oportuniza ocupar nosso espaço no mundo
secular, travando&jogando uma vida útil, cheia de significados, cheia de
Yoga. Desta forma, vamos assentar os significados&significações do
makarasana no espaço interno&subjetivo, do nosso coração, espiritual.
Agora, mayura, o pavão!
Olhem, abaixo, uma ilustração de uma
variação de mayurasana.

A base verbal de mayurasana significa
berrar. Embora, tenha penas&crista bonitas, seus pés&berro é feio.
Muito além da estética, mayura é um instrumento de medição do tempo por meio
das palavras, ou seja, mayura são as palavras como medida de tempo; referente
ao discurso. Portanto, tem uma associação direta&indireta com as palavras.
É, também, um veículo mitológico. Kartikeya (Skanta) e a deusa Saraswati usam o
pavão como veículo ou como o utilizam como um companheiro. Skanta, filho de
Shiva, deus da guerra, luta com a mentira; a luta cristiana do bem versus o
mal, no hinduísmo, é a verdade contra o falso. Ou seja, o que é mentira é
falso; o que é falso é mentira! Simples assim! A presença do pavão junto a
Sarasvati configura o poder da palavra verdadeira; a fluição das
palavras&discurso expressa a verdade. Temos, aqui, o poder das palavras
como impulso do processo de libertação!
A configuração do pavão, ainda, sinaliza
para instrumentos&ferramentas de meditação. Ou seja, a calda cheia de
olhos&olhares é a platéia. E a cabeça, o artista. Sabemos que o artista
transmite ensinamentos através da arte, especialmente na forma de teatro. Sem
falar que o pavão é um emblema de Shiva; emblema do processo de concentração,
isto é, meditar como corpo inteiro, ficando atento à cabeça. No cristianismo, a
meditação se faz com diálogo; no hinduísmo, com o fazer, e não com o pensar. Há
uma diferença entre fazer&falar! Viver para falar é um equívoco; a ideia da
existência é fazer mais e tagarelar menos. Portanto, mayura ensina transformar
palavras em ações. Ele representa esse poder relativo à nossa natureza, isto é,
fazer ao invés de descrever. Neste sentido, a ideia é colocar para fora a nossa
autorrealização, tornando nossa subjetividade objetiva; sem apego, sem aversão.
Assim, mayurasana&mayura constituem ferramentas de
realização&autorrealização, com menos teorias&quimeras.
O pavão, também, remete à garuda, que é
primo da serpente, pois mayura foi criado a partir das penas de garuda. Mayura
possui o olhar do coração, e não da mente. O coração observa as
coisas&eventos&mundo, numa perspectiva de inimigo do olhar da mente,
que é frio&distante. Esse olhar que de escrutinador é o olhar espiritual,
subjetivo&interno, comprometido com a nossa natureza
autêntica&original. O poder das palavras conduz do objetivo para o
subjetivo, do esterno para o interno, espiritual, fazendo uma ponte, para, em
seguida, se manifestar nos manifestarmos subjetivamente de forma objetivo, em
prol da autorrealização, como dito acima. Na iconografia de Valmike, a pena de
pavão, escreve ensinamentos espiritualmente inspirados, que apontam para o ‘eu’
mais profundo, para Isvara, que guarda a natureza de nosso coração, junto com
Shiva. Mayura, então, como ponte, tem duas pontas: faz o vínculo entre o mundo
externo&objetivo com o mundo interno&subjetivo, se prevalecer o mundo
secular está apontando para a vaidade. Por outro lado, se aponta no sentido
inverso, sinaliza para a autorrealização, representado na força de presença do
espírito sobre a matéria.
Observe-se que as imagens dos deuses nos
templos hindus são feitas com as penas do pavão. Desta forma, os
significados&significações de mayurasana&mayura pagam as
coisas&eventos do mundo, para preservar o essencial&primordial. A
dupla, mayurasana&mayura, homenageia o yogin&yogini
perfeito&perfeita, os quais que, em geral, vivem só, isolados, para
descobrir a natureza autêntica&original de cada um, que tem base no
espírito.
Agora, shalabha, o gafanhoto!
Percebam, adiante, uma ilustração da
variação do shalabhasana.
Denominar shalabha de lagosta, como
eventualmente acontece, é incorreto. Designa, exatamente, gafanhoto. Temos duas
ou três variações além da ilustração acima: uma com as mãos no solo à altura do
estômago&instestino, com os braços&antebraços em 90° graus; outra com
as mãos&braços&antebraços simplesmente levantados na altura dos ombros,
ou mesmo à frente; e uma terceira com os braços ao longo do tronco com as
pernas levantadas e cabeça rente ao chão, eventualmente, apoiada no queijo.
Enfim, shalabhasana!
O principal aspecto mítico de shalabha é
que é uma forma assumida por virabhadra. Um herói maluco? Não. Trata-se de
nome&forma associado à fúria de Shiva, junto à mitologia da vingança pela
morte de Sati, sua primeira esposa, que se lançou ao fogo com vergonha pelas
atitudes de pai, Daksha.
Há, em complemento, também uma outra
simbologia, vertida à Verdade. É que Visnhu assume a postura&atitude de
narashimha, o quarto avatar do deus da manutenção cósmica. No entanto, perde o
controle dessa personagem e se transforma, novamente, num grande pássaro, com
duas cabeças, lembrando a figura de garuda, ou num outro animal com corpo de
leão e cabeça de elefante. Nessa mitologia, Vishnu, então, assume a forma de
gandabherunda, narashimba transformado, um ser tipo águia com duas cabeças,
para subjugar sharabha, apontando a afirmação: eu sustento apenas a Verdade. Shiva,
então, liberta o espírito de Vishnu desses condicionamentos; numa história
shaiva, claro.[4]
No brasão indiano, talvez apenas talvez e não à toa, há um dizer que afirma que
somente a Verdade vence&trinufa, sozinha.
Com base nessas histórias mitológicas, o
que shalabha representa na meditação, em shalabhasana? Representa,
figurativamente, duas grandes forças poderosas, que convivem dentro de nós, ao
mesmo tempo, na forma de conflito e de equilíbrio. Essas forças nos mantêm
dentro dos limites, ou seja, sinalizando&alertando para não ultrapassarmos
nossos limites. Entretanto, a sabedoria nos permite ultrapassar os limites, sem
ferir o próximo. Assim, o Dharma é o foco dos significados&significações do
shalabha&shalabhasana, quando devida&corretamente assentados no espaço
interno&subjetivo do&da yogin&yogini. Portanto, o Dharma é o tema
da meditação em shalabhasana!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] O
vaishnavismo também deve acolher&acomodar muitas histórias que liberta
Shiva de seus condicionametos. Não obstante, acredito que a perspectiva de
Shiva, que, ao destruir, recria&mantem, até nova transformação, atuando de
forma contínua&ininterrupta, está mais próxima do não dualismo, tradição hindu
que adota&acolho; na realidade, Shiva encerra a não-dualidade, desde sempre
e para sempre, aqui&agora!
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