09/02/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga VII[1]

Grupo de Posturas Nobres, de Meditação.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Para albergar esse grupo de ásanas, vou sintetizar a preleção do professor Carlos Eduardo intitulada “o que é um mito?”. Já que estamos registrando marcos mitológicos, para acolher os significados&significações para assentamentos no espaço interno&subjetivo, acredito que seja uma boa ideia essa elucidação. Além disso, nada mais coerente selecionar posturas de meditação, entendidas aqui como nobres, na medida em constituem as excelentes plataformas para a revelação do si mesmo, já disponível em tudo e em todos. Exploremos três, embora haja outras: padmasana, a mais antiga delas, svastikasana, a postura que aponta para Surya, e siddhasana em combinação com muktasana, que sinaliza a perfeição para o espírito livre.[4]

Então, o que é o mito? O mito, no hinduísmo, não é uma mentira, como é visto&entendido no ocidente. Estudar mitos aponta para uma perspectiva de relatos históricos, numa outra dimensão. Podemos, e aqui devemos entender que mitos são narrativas adotadas como verdade. Eles conduzem a mente, que gosta de ser conduzida, quando se perde&isola do peso da responsabilidade. Mas, espera aí? Como é essa dimensão da verdade sem responsabilidade? É que o mito arrasta&assopra uma ancestralidade, uma herança ancestral. Por que não podemos acreditar que o organizador do Yoga, Patanjali, nasceu de um raio emanado de ananta, a serpente infinita, manifestado já com 8 anos, filho de uma mãe de oitenta anos?[5] O fato de não vermos&enxergarmos o mundo invisível não significa que ele não exista.

As narrativas especiais dos épicos dão estatura identitária a uma nação, que oferece substrato existencial a um povo. As narrativas derivam&fluem com linguagem do coração, habitat do Absoluto, enquanto Atman, que é idêntico a Brahman. Elas são contadas&comentadas por sábios poetas hindus; e a poesia é a expressão da sabedoria, que lastreia o autoconhecimento. Num sentido contrário, num outro sentido, os relatos de jornalistas&cientistas não constituem a base dos mitos, não é verdadeiro, pois estão estruturados numa perspectiva impermanente&temporária, de finitude. A concepção hindu do mito é verdadeira, na medida em que superam a dualidade irreal versus real; transcendem, até mesmo, o Dharma&adharma. Esses relatos poéticos ultrapassam as barreiras do tempo&espaço, configurando lastro para a Realidade. Simplesmente, mergulham na imensidão do Infinito, do Eterno, do Absoluto, enfim. O relato fiel do coração é a matéria prima dos mitos! Representam o peso&força da natureza mítica&mística.

A Mandukya Upanishad ensina sobre o OM, apontando para os três “eu’s” que residem dentro de nós. Esse ensinamento já foi abordado lá atrás, inclusive, mais de uma vez; e nunca é demais repeti-lo. Há um “eu” no corpo, presente no estado de vigília; há outro na mente, no estado de sonhos; e há o terceiro no coração, configurando a inconsciente e apontando para o sono sem sonhos. Sabemos que o Quarto é Atman! E que o alinhamento dos três “eu’s” oportuniza&viabiliza o desvelamento&revelação do Atman. Então, para tanto, a inconsciência não é ignorância, mas, alberga, sobretudo, a intuição mergulhada na sabedoria e lastreada na Verdade. As trevas da dicotomia&dualidade escuridão&luz não é ignorância. É o espaço Infinito, Absoluto. De lá brota o instantâneo&espontâneo, fluindo pelo inconsciente na forma de mitos. É a linguagem da intuição, do inconsciente para o instantâneo. É que no inconsciente estão guardadas as grandes forças da natureza, os arquétipos, as experiências do viver, as existências.

Portanto, é preciso dar voz aos mitos, pois é a voz do coração! Devemos permitir que a sabedoria se manifeste, se expresse. Essa é a essência que buscamos quando analisamos os significados&significações presentes nos ásanas/posturas. Ou seja, devemos aprofundar nos significados&significados durante a prática. O espaço interno&subjetivo do coração é o assentamento perfeito para a mente servir de ponte o alinhamento com o corpo, quando os três “eu’s” se ajustam.

Agora, padmasana, o mais antigo dos ásanas!

Na realidade, além do mais antigo, padmasana é o ásana/postura comum aos grandes clássicos do Hatha Yoga: Gheranda Samhita, Goraksha Shataka, Hatha Yoga Pradipika e Siva Samhita. Fiz esse levantamento na reflexão intitulada Posturas do Hatha Yoga que Curam Doenças e Enfermidades! Ela está inserida na brochura Sínteses de Oito Upanishads: uma visão do que elas ensinam sobre o Yoga, na forma de Apêndice, publicada em 2016, na plataforma www.clubedeautores.com.br . O padmasana, portanto, cura todas as doenças&enfermidades!

Vamos a ela!

Ela, a posição final dela mais clássica, representa o lótus, que é uma flor se abre com a luz do sol e se fecha com a escuridão. Possui várias mitologias que, iconograficamente, simbolizam o assento para a divindade. O lótus possui outras denominações, como kamalasana. Mas, por que padmasana? Qual a razão? É que a raiz sânscrita pad significa cair, estando associada a água, que é o inverso do fogo, que eleva. A interpolação moderna, ocidental, que o lótus nasce do lodo e procura a luz não corresponde à cultura hindu. A visão mítica correta é que ela, a flor de lótus, nasce da água, estabelecendo uma conexão com o mundo do ar, que aparta&conduz o Prana. Assim, em complemento, há o mundo submerso, que é correlato, simbolicamente, ao inconsciente, onde jaz o secreto&oculto&espiritual. O lótus transmite bençãos! A água, na forma dos rios, que são sagrados, representam deusas e são veículos da manifestação da espiritualidade; por isso trazem a graça!

Já padma/padam representa passos da caminhada, e palavras, como passos do discurso. Brahma, que possui o poder da palavra&discurso, é assentado no padma/lótus, porque representa, exatamente, a palavra.

Há um mantra tibetano, já citado anteriormente, que estabelece conexão com essa flor, na forma de joia do lótus: OM MANI PADME HUM! Padme é, exatamente, a joia do lótus! É a joia da preciosidade da palavra, que aponta para a poesia, na expressão dos ensinamentos dos sábios. É a manifestação divina do bem. O mantra expressa a compaixão&sabedoria de Buda por&para todos os seres.

Podemos, ainda, correlacionar o lótus como o assento do Guru, de Shiva no coração, fluindo com perfeição&plenitude. Sabemos que Isvara, o comandante do Universo habita nosso coração. Isvara acolhe&abraça Shiva&Shakti, assentados no coração. Guru, na realidade, é uma palavra criadora, que vem da raiz ga de Ganesha. Seguem à ga, ainda, três sílabas sânscritas: mapada, que formam padma, de forma aleatória, mas que tem a ver com a expressão do mantra em sânscrito. É a expressão primordial dos mantras, versos&hinos do Rigveda, apontando para a integração dos três universos: terra + atmosfera + céu.

Portanto, a flor de lótus está eivada de magia tântrica, representando a força da expressão, na forma do ekagrata, a atenção num ponto só. Devemos nos fechar no Eu, assentado no coração, sobre o lótus, com esses significados&significações em mente. Esse processo, esse assentamento se sustentam com a palavra, com a Verdade!

Vejam, abaixo a sua variação mais clássica.

Caixa de Texto: O módulo do curso A Mitologia dos Ásanas traz, ainda, comentários sobre outras três variações, que não serão aqui sintetizadas: baddhapadmasana, karmukasana e chakrasana.

Mulher de calcinha e sutiã

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Agora, siddhasana&muktasana, a postura perfeita e a do espírito liberto, que se somam, sinergicamente!

Vejam, abaixo a ilustração de uma variação da postura perfeita, ardhasiddhasana; e uma de muktasana,[6] respectivamente.

Imagem em preto e branco de mulher sorrindo

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Dissemos, no introito deste capítulo, que siddhasana faz um par perfeito, mitologicamente falando, com muktasana. Por quê? Porque o yogin perfeito é um yogin livre; e a liberdade é a perfeição! Mas calma, vamos acompanhar o destrinchar dos marcos mitológicos, daí você faz as aproximações sinérgicas dos dois ásanas, por sua própria conta, apesar dos apontamentos.

Sobre siddhasana começamos por definir sadh, que significa completo, perfeito. Siddhasana é também um mudrá, que representa uma espécie da assinatura. Trata-se de uma manifestação autêntica que permite estabelecer a identidade espiritual. E daí? É um tipo de personagem, num assento de alguém humano, mas, também, não-humano. Um siddha! Nascemos adhara, um papel em branco onde escrevemos a nossa história. Um siddha escreve! Nossa história se faz perfeita quando resta associada ao Dharma. Os siddhas são pessoas perfeitas, sendo elas mesmas. Ou seja, nosso svrupa precisa se manifestar na forma do svadharma. Ao mesmo tempo, os siddhas, originalmente, são pessoas simples, que adotam uma obsessão especial: criar um foco, para atrair um guru, visando alcançar a perfeição. Desta forma, são seres humanos que alcançam a perfeição, que aponta para um estado de integração, de união, onde nenhum elemento da natureza os fere, não os machuca. São pessoas coerentes, protegidos pela intocabilidade; não são contraditados pelas forças da natureza, mas, ao contrário, são ajudadas por elas. Enfim, são pessoas de alcance incomensurável, no contexto espiritual.

Sobre muktasana começamos afirmando que representa o objetivo supremo do yogin, vale dizer alcançar a liberdade plena do espírito. Mas, espera aí! Se libertar de quê, do quê? Se libertar do samsara, entendido&definido como o ciclo interminável de renascimento, por meio de moksha. O liberto em vida se torna uma pessoa importante, pois arrasta seus discípulos para a libertação&liberação, fazendo-os revelarem o autoconhecimento já presente&disponível em cada jivatma. A libertação está ao alcance de todos! Isto é muito importante afirmar&reafirmar contínua&permanentemente.

O rio Ganges é uma energia libertadora, na medida em que as águas purificam o espírito. Liberta-se das impurezas! Já a Hatha Yoga Pradipika ensina que é o Prana que purifica. Muktasana busca nossa natureza original&genuína; nossa vocação. O mukta olha apenas para a frente, sem expectativas&esperanças, e se liberta do passado, tanto das coisas quanto das pessoas.

A proposta&pergunta final&definitiva é: vamos nos libertar!? Aqui&agora! Neste instante; neste momento! Siddhasana&muktasana estão aguardando para nos ajudar a conduzir&levar seus significados&significações para assentamento no espaço interno&subjetivo, para a autorrealização com perfeição&liberdade!

Agora, svastikasana, o ásana da swastika!

Swastika é um símbolo hindu muito antigo, desde antes de era moderna. Na realidade, antiguíssimo, presente no planeta há 5000 ou mesmo 6000 anos atrás. E ele aponta para a divindade que há por detrás de Surya (Sol)![7] É um símbolo auspicioso; de felicidade, de bem-estar, de prosperidade e aponta, sobretudo, para a elevação espiritual. Seu ásana, por sua vez, representa benignidade. É utilizado, basicamente, para meditação (dharana&dhyana), e, eventualmente, para respiratórios (pranayama),  

Há muitas teses envolvendo este símbolo poderoso&sagrado. Contudo, certamente, é muito importante para a prática de Yoga. Porém, o significado original não é sabido&conhecido. Pensa-se sobre o representar o emblema da órbita solar, da reprodução do movimento solar, ou mesmo, de um mito solar. Há quem discorde, em torno de outras leituras. No entanto, o fato é que, na tradição hindu. Representa o equilíbrio dinâmico, em função de que, talvez, porque o Universo está, permanentemente, em movimento equilibrado, quer de expansão quer de contração, considerando as fim&início das yugas: satya, treta, dwapara e kali. Nos encontramos em kaliyuga, predominando o mal, apesar da existência do bem.

Nesta abordagem, a swastika representa quatro grandes elementos: água, fogo, terra e ar; girando em torno do quinto, que é o espaço, espaço mítico de onde surge o Universo. Neste sentido, a swastika representa, também, as 4 direções naturais&básicas desse espaço mítico. A iconografia da swastika para a direita ou esquerda é uma grande bobagem, na medida que pouco importa o sentido, isto é, tanto faz como tanto fez. Ou seja, é um símbolo auspicioso em qualquer direção; em qualquer uma há formação&integração das forças&poderes naturais; da natureza.

Quando o praticamos svatikasana, podemos criar, na mente, o espaço mítico, para dar voz&foro ao coração. Aí é que está o mágico&tântrico da hathayoga! E devemos conferir atributos de significados&significações benignos&auspiciosos, ocultos&protegidos às forças alheias&contrárias à nossa natureza, que tanto interferem&obstaculizam as nossas existências. Para tanto, devemos ratificar&reforçar, permanentemente, a essência do Yoga, que é descobrir&revelar a nossa verdadeira natureza e colocá-la em&na jogo&dança de forma mais autêntica&original possível.

Vejam, abaixo, uma ilustração da posição final da svastikasana.

 

Caixa de Texto: No fundo, a svastikasana& swastika são ferramentas& instrumentos de armas& forças de defesa&proteção; constituem símbolo&ásana contra as interferências objetivas&externas, em prol da firmeza &rigor.Foto preta e branca de mulher sentada no chão

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[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Outros ásanas de meditação seriam a sukhasana (postura fácil), além da vajrasana, já abordada anteriormente. Na realidade, observe-se que todo ásana/postura é, preferencialmente, de meditação, por meio de seus significados&significações, enquanto objetos de concentração, conforme estamos registrando.

[5] Vejam o nascimento de Jesus, filho de Maria, imaculada, que oferece base ao cristianismo; ou mesmo de Padmasambava, que nasceu com 8 anos numa flor de lotus, que sustenta o budismo tibetano!

[6] Acredito que as posturas nobres de meditação se diferenciam, fundamentalmente, quanto a posição dos pés&pernas. Observe que em padmasana os dorsos dos pés repousam nas coxas; que em siddhasana os pés restam entre as panturrilhas e coxas; que em muktasana os tornozelos de aproximam da região pélvica; e que em svastikasana os dorsos dos pés se assentam na panturrilha. Todos exigem o máximo de flexibilidade; quando não é possível ajustar as duas pernas&pés, chamam-se de meia (ardha) postura. Em geral, uso nas práticas pessoais ardhapadmasana, e, ainda, com ajuda de duas almofadas, já desgastadas pelo tempo de uso, e um tijolinho de cortiça, para evitar que o joelho, afastado do tapetinho, fique em balanço.

[7] OM SUM SURAYA MANAH! OM JAYA SURYA MANAH! OM SUM SURAYA MANAH!

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