31/01/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga VI[1]

Grupo de Posturas em Solo&Relaxamento.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Para albergar esse grupo de três posturas, paschimottanasana, purvottanasana e shavasana, o professor Carlos Eduardo argumentou&comentou o ásana na Bhagavadgita (BG).

O ásana/postura na BG expressa o modo antigo de praticar Yoga, exatamente como nas grandes Upanishads e depois no Yoga Sutras. A ideia é identificar o guru que está presente no próprio coração. O sexto capítulo, nos versos 11 a 15, traz a orientação dada por Krishna à Arjuna. O ásana/postura, ou melhor assento&assentamento, deve estar voltado para o si mesmo a partir do si mesmo. Ou seja, o ponto de chegada e o de partida do processo meditativo verdadeiro são os mesmos, isto é, um só! Dito objetivamente, o ásana/postura é construído a partir de conteúdos internos&subjetivos, dos mais simples aos mais nobres. Idealmente, devem expressar valores&princípios que dão&oferecem sustentação à existência, à vida! Essa estrutura viabiliza&oportuniza atitudes&iniciativas acertadas&corretas. Essa adequação&correção, claro, deve estar de acordo com a nossa própria natureza. Krishna ensina na BG que é melhor cumprir nossa Dharma pessoal com imperfeição do que com perfeição o do alheio&terceiro. Isso é muito importante assimilar, pois a orientação verdadeira não é externa&objetiva. Neste sentido, o processo meditativo é a chave de ouro para acessar o divino&sagrado, que consta em nosso inconsciente, melhor dizendo, em nosso coração.

No Yoga, especificamente, o assento&assentamento deve proporcionar&propiciar conforto&firmeza, conforme já anunciado lá atrás. Na Índia, houve um grande yogin que se chamava Swami Sarveshvara, considerado um avadhuta, título dado ao renunciante natha. Foi um homem feliz, iluminado, cujo sorriso proporcionava ao devoto uma experiência mística. O que havia de excepcional? É que era um mestre cotoco; sem braços&pernas, que perdeu para a lepra. Não obstante, era um grande mestre, apesar de um homem aleijado. Era, na verdade, um iluminado. Essa situação&condição prova que é possível libertar o espírito por meio de uma prática coerente, com coerência interna&subjetiva. Portanto, o Yoga é para todos! Apesar de todos os ásanas/posturas facilitarem esse processo de autorrealização, o alcance da Yoga é, realmente, interno.

Em todo ásana/postura, adequada&corretamente praticado&executado, o objetivo supremo é encontrar o verdadeiro tesouro verdadeiro (a dobradinha é possível&necessária; não há redundância), que está oculto nas profundezas do coração. Sua manifestação é expressa na forma de alegria&felicidade. O segredo é assentar no espaço interno&subjetivo, fazendo do assentamento uma plataforma de liberação&libertação! Isso é possível&viável para todos, qualquer que seja a conjuntura&conjunção de forças favoráveis&desfavoráveis. O esforço, contudo, deve ser contínuo&diligente! Todavia, sempre podemos contar com a graça&benção&glória! Na realidade, só acontece com as mãos Dele!

Agora, paschimottanasana!

Paschima significa está atrás e/ou vem depois, desde uttan e/ou tana, de paschimottana e/ou paschimatana. Ou seja, estender parte para trás, atrás, promovendo um alongamento. Mas, é só isto? Não! Este ásana/postura tem um sentido (significado&significação) mítico&místico muito forte&poderoso! Pode-se visualizar&imaginando ou imaginar&visualizando o espaço circular, abrindo os braços, sentado, definindo as quatro direções básicas: mão direita aponta para o Sul; a mão esquerda para o Norte; a frente para o Leste; e as costas para o Oeste. Pronto, estamos no espaço interno&subjetivo, sobretudo, sagrado&divino! Como assim? É que o salto desde a vigília é quântico&tântrico!

Em seguida, uma ilustração da sua posição final.

Caixa de Texto: Paschima é o Oeste, isto é, estendido para trás. Os rituais são realizados de frente para o leste, onde o sol nasce. Lá, em ritual, podemos oferecer o próprio Conhecimento como oferenda mais nobre!Uma imagem contendo mulher, deitado, dama, foto

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Continuando... Varuna é o deus do reino das sombras, presidindo o Oeste. O brilho das estrelas acontece na escuridão, nas trevas, que ocultam&protegem. Ou seja, esse cenário não é, necessariamente, ruim. O aspecto negativo se manifesta só se estivermos em desarmonia. Neste caso, aprisionam&assustam a mente! Por outro lado, se estivermos animado&motivado pela nossa natureza, o escopo mítico&místico das estrelas brilhando&iluminando se torna nosso inconsciente, donde brota nossa intuição vertida ao Dharma, ao nosso Dharma.

Num sentido amplo, paschimottanasana aponta para uma dualidade a ser superada, pois se, por um lado, aponta para as águas cósmicas de Varuna, enquanto forças de proteção do inconsciente, por outro lado, podem representar prisão&opressão pelas trevas&escuridão. Pictoriamente, o passado pode ser um passado que nos acossa&persegue, cheio de mentiras&falsidades. Esse alicerce do presente&futuro deve ser questionado&superado, ou seja, é necessário remover&estirpar o falso&mal do passado. Quando lidamos&operarmos adequadamente com o passado – observe-se que ele já não existe − processamos uma purificação, abrindo as portas para a proteção que o inconsciente pode nos dar&oferecer.

Mirando o Leste, em forma ritual, na posição final de paschimottanasana, podemos apontar para a libertação&liberação com&via moksha. Este ásana, assentado no espaço interno&subjetivo, apresenta um significado&significação de purificação do nosso passado, reativando&autolembrando nossa natureza verdadeira. Podemos&devemos mirar&focar nas transformações de coisas ruins em coisas boas, com a ajuda&apoio de Varuna, o guardião da Verdade!

Agora, purvottanasana, que faz um par perfeito com paschimottanasana!

Vejam, adiante, a visão da sua posição final.

 

Caixa de Texto: Purvo significa anterior, no sentido do que está na frente, isto é, é o que veio antes, porém ficou para trás, no passado.

Mulher de roupa preta em fundo branco

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Podemos, ainda, atribuir dois sentidos: um espacial, para frente; outro temporal, para trás. Nossa, como assim? É o que veremos, com calma&tranquilidade; sem correria&pressa.

Purvottanasana aponta para a direção Leste, assim como paschimottanasana. No Leste, estão Surya&Indra.[4] O ásana/postura traz a possibilidade&oportunidade de despertar uma consciência máxima, por meio dos órgãos da chamados de indriyani, literalmente, subalternos a Indra. Portanto, o alongamento em direção ao nascer do Sol desperta a consciência, trazendo clareza ao estado de vigília.

Há, ainda, a percepção mitológica da internacionalização do ritual védico por meio da prática de hathayoga, na medida em que podemos transcender, no sentido Oeste → Leste, do inconsciente para consciente; da mortalidade para a imortalidade. Ou seja, podemos&devemos atingir moksha no momento&instante presente, num aqui&agora.

Aqui, Savita, o Sol noturno, está mais uma vez presente como um agente ritual importante.[5] É que Ele é o patrono do ritual do Soma, cuja extração representa&aponta a força de ascensão latente nos vegetais. Nessa beberagem, para Indra se elevar, junto ao sacrifício do bode, a mente está representada, pois é ela que, objetivamente, deve se iluminar. De novo, igualmente, kundalini pode se manifestar, na forma tântrica. O Soma arrasta os três componentes importantes da nossa existência: cit (consciência); ojas (vigor); e vach (voz; expressividade), conformando-os. Ou seja, o Prana ascendente viabiliza&disponibiliza as forças internas, exatamente, numa leitura tântrica. A ascensão atinge o anahata, cujas oito pétalas, apontam para os 8 poderes de Shiva, fechando o assento&assentamento, como uma árvore que atende aos desejos mais puros&verdadeiros.[6] Esse é o que purvottanasana oferece&doa para o yogin assentado, com seus significados&significações, no espaço interno&subjetivo, mítico&místico, sagrado&divino do coração!

Agora, shavasana, um diálogo com a morte, na forma de um relaxamento!

Abaixo, ilustro uma visão da sua posição final.

Caixa de Texto: É o ásana do cadáver! Oportuniza relaxamento, tensionando com a morte. A raiz shvi aponta para dois caminhos: um maligno, outro benigno.Mulher deitada no chão

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Como assim? É que uma leitura sinaliza para o crescimento; outra para o murchamento. Ou seja, o indivíduo&sujeito pode enxergar sua existência de forma positivo ou negativa. Podemos, sobretudo, devemos lutar para crescer, para evoluir! Vamos destrinchar essa ideia.

A única certeza que temos é a morte; então, que possamos mentalizar&visualizar um futuro otimista. Ou seja, devemos buscar&intentar um amanhã melhor, com saúde&sabedoria! Ou podemos murchar&desanimar, o que obstaculiza&dificulta até a autolembrança&autorrealização. Não podemos permitir que o tumor da malignidade&lesividade prospere, o que, certamente, seria péssimo&ruim. Portanto, na postura do cadáver podemos nascer novamente para a vida; assim como devemos transcender da mortalidade para a imortalidade. A ideia é construir uma boa morte, acumulando bons méritos; desfrutar de um bom futuro, vivendo&morrendo bem. Podemos contar com Shiva nesse processo de dialogar com a morte em shavasana. Especialmente com Shiva, em sua benignidade&magnificência, despertando as forças&poderes Dele dentro de nós, que podem ser controladas em nosso benefício&proveito. As forças fora de nós não podem ser controladas, e podem nos destruir.

Há, ainda, para explorar esta temática&tema, o famoso diálogo da Katha Upanishad, na conversa de Nachiketas com Yama, o deus da morte. Nele é revelado o segredo da morte, que também se apresenta com dois caminhos: um é o supremo, o caminho da felicidade, da sabedoria, da imortalidade, etecetera; outro é o da escravidão aos desejos, via desfrute dos prazeres finitos&temporários, com presença da ignorância, que leva às mortes sucessivas&intermináveis. Há uma passagem esclarecedora&iluminadora: aquele que pensa que mata, se engana; aquele que pensa que morre, se engana; porque&pois o Atman é imortal; é Luz Eterna! É o Eu dentro do coração, maior do que o maior e menor do que o menor! Portanto, a opção deve ser clara pela liberação&libertação, por moksha! Assentado, o yogin vai a todos os lugares; deitado, em shavasana, o yogin percorre o mundo inteiro! Isso é autorrealização&autolembrança com Atman, que é OM, que vibra em&por todo o universo, com a dança de Shiva!

Já que citamos OM, podemos afiançar, que em shavasana, superamos dualidades: ignorância versus sabedoria, leveza versus peso; crescimento versus recolhimento, etecetera. Visualizando um yantra expressando dualidades, podemos perceber que quanto mais miramos o centro mais de amplia as coisas&eventos contrários&opostos, e, ao contrário, quanto mais nos afastamos mais nos aproximamos do bindu. Shavasana, desta forma, é um ásana importante, na medida em que podemos transcender a morte, em processo de autotransformação, viabilizando&alcançando o melhor, como morrer para nascer livre das limitações dos pares de opostos. E isso acontece no espaço interno&subjetivo, quando optamos sermos eternos&imortais que já somos, ao invés de nos impor limites.

Shavasana, assim, é uma trilha de libertação! Para se obter liberdade é preciso, simbolicamente, morrer, para soltar as amarras e viver a Verdade, com sabedoria&autoconhecimento, superando a ignorância lastreada pela mentira&falsidade, mas para além do Dharma&adharma. É o encontro com a autenticidade, a marca registrada da nossa natureza autêntica&original. Objetivamente, viver com coerência&sinceridade.

Assentados na posição final de shavasana, absolutamente relaxados, podemos visitar todos esses significados&significações no espaço mítico&místico&mágico do coração!



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] No segundo projeto editorial que produzi com base nos cursos do professor Carlos Eduardo, de louvores&oferendas&petições, na forma de meditação em hinos do Rigveda, aloquei Indra no Norte, junto com Kali. E deixei, no Leste Surya&Durga, que tem me trazido conforto&estabilidade. Esse arranjo&disposição surgiu da incapacidade&incompetência deste autor de caracterizar&descrever os atributos&hinos em homenagem ao deus Kubera, que, por pressuposto, não criou aversão, muito menos me incriminou. Kubera é o deus da riqueza. Então, adotei moksha como o maior tesouro, sob a proteção de Indra, rumo ao Norte, num futuro próximo, ainda nesta existência, se assim o Universo&Infinito permitirem!

[5] Tat Savitur varenyam, bhargo devasya dhimahi, dhiyo yo nah prachodayat!

[6] Os oito poderes de Shiva são: de redução do tamanho do corpo; de expandir o corpo; de se tornar pesado; de se tornar leve; de acessar&obter qualquer lugar&objeto; de realizar qualquer desejo; sobre a criação&destruição; e, controlar&submeter seres&coisas.

27/01/2026

AGORA, YOGA!

 Agora é tempo de Yoga V[1]

Grupo de outras Posturas Sentadas&Deitadas.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Aqui vamos abordar o ásana na era do budismo. E para ilustrar seu marco mitológico, vamos estudar as posturas matsyasana&matsyendrasana, que o professor Carlos Eduardo explorará o peixe&guru (matsya&matsyendra). Além disso, vamos trazer mais duas: simhasana&uttanapada, incluídas num módulo cuja preleção do professor foi vertida às origens védicas do ásana.

Assim, começando pela perspectiva do budismo.

No século VI, incipientemente, teve início a concepção de ásanas como posturas do corpo. Todavia, o desenvolvimento dessa perspectiva, de fato, ocorreu a partir do século XII. Portanto, deste a era védica, passando pelo Yoga Sutras, houve uma espécie de “evolução”, do ásana enquanto assentamento da mente para o ásana como assentamento do corpo.[4] E esse período podemos demarcar com sendo o primeiro milênio, época em que predominava o budismo, na Índia, já migrando para outras regiões orientais.

O rei Ashoka adota o budismo como cultura oficial de estado, predominando no território indiano por um milênio. Portanto, a cultura budista era o pano de fundo cultural até a chegada de Sankara, o organizador do Advaita Vedanta, a visão&escola da não-dualidade. Pode-se visualizar com a hipótese, o ásana como assentamento para meditação na era budista, considerando sua iconografia. Nela, a partir do pedestal da escultura, vemos, claramente, a posição das pernas&mãos; estas em mudrá (gestos de poder). Portanto, a inspiração budista para o conceito de ásana, como desenvolvimento da postura corporal ao longo de primeiro milênio, parece ser a melhor hipótese, no mínimo, uma boa proposição&possibilidade. Isto, sem dúvida, provocou, até a chegada do século XX, a mudança de abordagem. Em outras palavras, na era moderna, o ásana se torna uma postura do corpo, se esquecendo da sua origem, que é, originalmente, para o assentamento da mente. É claro que há idas&vindas do conceito&concepção original de ásana, é o desenvolvimento do Hatha Yoga, no bojo do segundo milênio, durante a história medieval, é um bom exemplo, uma boa demonstração. O Tantra também libera&liberta o espírito!

Agora, finalizando o marco mitológico deste grupo, segue algumas anotações sobre as origens védicas do ásana.

Para começo de conversa, ásana era entendido como um lugar para sentar-se, uma espécie de residência, de porto seguro favorável&factível para obter-se permanência&preservação; esses são os significados primários do ásana nos primórdios da era védica. Ou seja, pressupõe uma necessidade de imobilização, de se permanecer imóvel por algum tempo. À propósito, essa inevitabilidade continua presente na era moderna, apesar&sobretudo em função do atributo da velocidade com que tudo acontece na sociedade; talvez até mesmo haja maior demanda por esse porto seguro. O assento&assentamento imobiliza a mente&sentidos, os quais são fontes de perturbações, portanto, de intranquilidades. Sabemos que a desconforto mental agita; e que o conforto, por pressuposto, calma. Simples assim!

A ideia básica, então, é estabelecer um comando interno da&para mente, para que o comandante Isvara, residente em nosso coração, assuma o comando da nossa existência&vida, por meio da percepção&intuição puras&imaculadas, via disciplina&despego&devoção. A partir daí, pode-se desfrutar da identidade Atman=Brahman! Objetiva&subjetivamente o Eu do&no coração assume o comando do corpomente numa base de sustentação estável&equilibrada, não só no tapetinho, mas, sobretudo, no cotidiano e durante o curso da existência mundano-secular.

Ásana, no seu sentido corporal, é bom que se diga, não era um componente do Yoga, que, conforme dito acima, ganhou evolução com o Hatha Yoga. A Hatha Yoga Pradipika, um clássico do Tantra do século XIV, traz a ideia de cadeira, trono, verdadeiramente, assento, que proporciona o alinhamento&ajustamento do corpomente&coração. Muito antes dela, a Svetasvatara Upanishad aponta, definitiva&embrionariamente, para o surgimento da doutrina do Yoga, com a orientação da postura clássica com coluna&tronco e pescoço&cabeça como um só membro do corpomente. Esse processo de harmonização do corpo, aquietamento da mente e pacificação do coração pode&deve ser conduzido por mitos, bons&corretos, levando a mente para uma zona de conforto&estabilidade. Nessa linha do tempo, chegamos, ao Yoga Sutras, que, como sabemos, orienta exatamente estabilidade&conforto para a prática de ásanas, condizente com o Eu que reside no coração. Portanto, por interpolação, podemos assegurar que a orientação do YS conduz&leva à eliminação das dualidades, por meio da imobilidade&equanimidade. Cita-se, ainda, a Katha Upanishad, que sinaliza que o yogin assentado viaja para longe, mergulhando no Infinito dentro do seu coração! Novamente, a essência do ásana aponta para o abandono das dualidades, viabilizando&oportunizando perceber&intuir a presença do comandante Isvara em nossa vida. O alinhamento&ajustamento dá-se trazendo o coração para a mente e desta para o corpo; ou, no sentido inverso, corpo para a mente e, em seguida, para o coração. Nesse processo finalizado com justeza&firmeza reconhecemos&destacamos o Atman, na forma do Quarto Estado (Turiya), que é idêntico a Brahman! Nossa existência se transforma em Realidade&Consciência&Felicidade!

Agora, matsya&matsyasana e matsyendra&matsyendrasana!

As quatro denominações representam um animal, o peixe, e um ásana, a postura do peixe; e, do outro lado, um homem, um guru, e outro ásana, a postura da torção. Desta forma, matsyasana&matsyendrasana têm histórias mitológicas, com variações que se associam em torno da Verdade. Senão, vejamos: Matsya aponta para a Verdade (satyam)! Ou seja, matsya possui&tem uma relação mágica com a Verdade. Na Índia, os rios são femininos, dedicados às deusas. No caso, o rio Saravasti, enquanto aspecto feminino de Brahman, o Absoluto, representa a deusa da linguagem comprometida com a Verdade. O povo matsya, os matsyas, compuseram os Vedas às margens do rio Sarasvati. Daí vem a associação&correlação de matsyasana, na medida da beberagem do Soma, visando inspiração poética, isto é, matsya expressa essa simbologia, enquanto sentido oculto das palavras. Mas antes disso, o mito diz que Manu, o primeiro homem, foi abordado por um peixinho, que disse: “me proteja, que te protegerei”. O peixinho, então, com a proteção, cresceu tanto que não cabia num rio, muito menos num oceano. Assim, Ele se revela, como Brahman, o Absoluto, dizendo estar satisfeito com a proteção.[5] Em decorrência entrega a sabedoria ancestral, Vedas, para Manu. Percebam&vejam o entrelaçamento marco mitológico: Vedas&Verdade. Portanto, o peixe é a vida! As profundezas das águas, onde habitam os peixões&peixes&peixinhos, em potência e em manifestação, apontam para o oceano do inconsciente; o peixe protege&defende o que é verdadeiro dentro de nós! Há, aqui, um pulo&salto tântrico&quântico!

Em complemento ao tópico, matsyendra, o guru, dá suporte para matsyendrasana, o outro ásana/postura acima registrado. Como? É o que veremos: é que a torção possui dupla direção, permitindo estar estarmos atentos para os dois lados; são sinônimo de iniciados em práticas&mistérios, tal qual leite&mel! Matsya, igualmente, como Verdade, dá esse suporte à esse marco mitológico, na qualidade de autores dos hinos védicos, como dito acima. Essa percepção é importante tanto para o shivaismo quanto para o tantrismo, e, por pressuposto, também para o Yoga. É dito que Matsyendra, filho de Shiva, assumiu a forma de peixe para ensinar Yoga! Aqui, outro salto&pulo mágico&&mítico, pois os iniciados tântricos aceitam que esse guru tenha tido uma vida de 1.300 anos! Montado sobre um peixe ou saindo de uma boca de um peixe é a iconografia representativa de Matsyendra. Matsyendra Natha foi guru de Goraksha Natha, o iniciador da tantrismo Kaula. Então, ambos são importantes personagens históricos, no contexto da cultura&mitologia sânscrita. Ambos possuem o acesso à Verdade! Ambos possuem a visão direta da Verdade! Enquanto poetas, enxergam a Verdade pela poesia. Não podemos nos esquecer que a poesia é expressão da verdade espiritual.

Isto posto, podemos&devemos praticar matsyasana&matsyendrasana mirando&focando o compromisso ióguico com a Verdade, atitude&motivação que pode&deve ser constante&permanente. Esse é o espírito com que os yogins&yoginis podem&devem praticar esses dois ásanas, apoiados&sustentados pelos aspectos&atributos dos significados&significações das mitologias de matsya&matsyendra, assentando-os no espaço interno&subjetivo!

Vejam, abaixo, duas ilustrações&variações para as posturas do peixe&torção, respectivamente.

Uma outra variação para o peixe seria colocar as pernas como em padmasna; já para a torção seria abraçar os joelhos, segurando as mãos atrás das costas. Ambas são mais difíceis de executar para quem possui pouca flexibilidade.

 

 

Agora, simhasana, o assento do leão!

O leão não é nativo da Índia; é da África. Porém, se incorporou à mitologia hindu, servindo de veículo para a grande deusa&mãe Durga. A atitude do leão é de voracidade, então, é visto como devorador de carnes. Não obstante, mitologicamente, é entendido como o trono majestoso&real do rei. Qual rei? Isvara, o rei que preside nosso coração. Portanto, o leão está associado&ligado ao rei&coração. Como isto se dá? É o que vamos ver!

Para começar, temos que visualizar a visão de que o leão é inimigo do elefante. Este, o elefante, representa as grandes forças; aquele, o leão, é percebido como o devorador das forças. Por outro lado, na astrologia hindu, o leão representa o sol, o centro do sistema. Traz sorte, pois simboliza um bom augúrio, mesmo tendo natureza ameaçadora. Está associado&correlacionado às montanhas, habitat do leão; assim, o leão circula na coluna pelo canal pingala, do sol, amarelo. O canal sutil pingala é o leão! Lembremos que as vertebras mitologicamente representam montanhas, o que até já foi dito antes. Adicionalmente, o rugido do leão, quando entra dentro do canal sushumna, representa o grande som da natureza, OM, que é pura vibração, a última essência. Há, desta forma, uma sublimação do rugido bruto do leão, que se transforma no OM refinado&purificado. No coração, ocorre a União de Shiva&Shakti, cujo Uno, cuja Unidade segue até o portal do Infinito, para a morada de Brahman, o Absoluto.

Finalizando, simha simboliza garra, ferocidade! É com essa energia&força que ele, simha, ruge, entrando no canal sutil central, até a sua transformação final, apontando para a autorrealização do devoto. Fica, então, ratificado o significado&significação do simhasana como o assento&trono do rei, Isvara, que comanda nossa existência desde o coração, espaço interno&subjetivo do devoto. É com Isvara que obtemos a graça&glória&benção da liberação&libertação. O ásana, em si mesmo, pode representar uma homenagem ao comandante interno, Isvara!

Adiante, uma visão da postura, simhasana, exatamente da variação que registra seu rugido.

As descrições modernas são diferentes das dos textos antigos, até mesmo incompatíveis. Esta é uma variação largamente praticada na modernidade. Simha está presente tanto na mitologia vaishnava quanto na shaiva. Aponta para prajna, intuição!

[6]

Agora, uttanapada, a força da ascensão!

Com uttanapadasana imaginamos a poder da criação e a grande força associada ao Soma, conforme ensina o Rigveda, no hino X,72: (que) faz a comida surgir, o espaço surgir, as quatro direções surgirem, a partir do não-existente. Nesse objeto de meditação, pode-se&deve-se meditar, meditar, meditar até se obter a graça!

Há, ainda, outro indicador mitológico: é a estrela polar, ocupando a posição central no universo, que não se move, nem na destruição ela perde a posição de centralidade. Ou seja, representa a sabedoria indestrutível que está no coração. É outro objeto de meditação no qual se pode&deve meditar, meditar, meditar até obter uma benção!

Ademais, uttanapadasana tem uma posição simbólica importante junto aos vegetais. Apoiados na terra com os pés&mãos&pernas&braços estendidos apontando para caminhos no céu, como um cavalo alado! Representando o fogo na mitologia hindu, fogo que vem do céu e sobe como Soma pelos vegetais, conforme já descrevemos antes.

Portanto, há um aglomerado de significados&significações que podem&devem ser adotados para o assentamento do uttanapadasana no espaço interno&subjetivo! Podemos pensar&refletir, meditando, nas grandes forças do Infinito cósmico, que fazem a ordem existente brotar do inexistente. E isto é muito forte&poderoso!

Vejamos, abaixo, uma ilustração da postura.

Uttanapada representa as fraquezas da mente, superadas com as forças presentes no coração!

 

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Evolução entre aspas porque, como sabemos, a essência do ásana é seu assentamento no espaço interno&subjetivo do coração, com a congruência&confluência do corpo&mente equilibrado&quieto. Para tanto, nunca podemos&devemos nos esquecer do ajustamento&alinhamento do corpomente&coração para a liberação&libertação do espírito, ainda que saibamos que o Yoga é para todos, em quaisquer circunstâncias&cenários, quando praticado com correção&coerência como veremos no próximo grupo de ásanas.

[5] O professor Carlos Eduardo, no módulo da preleção, comenta a equivalência com a parábola bíblica da Arca de Noé, ou seja, Noé constrói, sob inspiração divina, uma arca para resistir&sobreviver, com proteção sagrada, a um dilúvio que destrói toda a vida.

[6] Na nota finalística, traremos algumas descrições dos textos clássicos Gheranda Samhita e Hatha Yoga Pradipika, além de outras modernas como as do Iyengar.