18/02/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga IX[1]

Grupo de Duas Posturas Invertidas: a mãe&rei dos ásanas.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

O professor Carlos Eduardo definiu as Upanishads do Yoga para albergar as posturas invertidas, notadamente, a sarvangasana, a mãe dos ásanas, e o sirshsana, o rei dos ásanas. Embora essa categoria de Upanishads não seja, essencialmente, foco para a prática de ásanas, é um ótimo background mitológico para acolher essas duas posturas.[4]

Então, vamos à síntese dos comentários&preleções do professor sobre esses textos, as Upanishads do Yoga.

Para início de conversa o estilo literário das Upanishads do Yoga trata&retrata cunhos&aspectos místicos&filosóficos. E é o estilo mais duradouro da cultura sânscrita. As Upanishads clássicas possuem cerca de 3.500 anos, variando do século 1.700 a.C. até o século 1.800 da nossa era. Já as do Yoga se apresentam como do “período medieval”, aproximadamente, entre os séculos VI/VII e XVII. Inclusive, algumas foram aditadas até mais recentemente, no século XVIII.

Upanishad significa sentado abaixo e ao redor do mestre. É a maneira, como ainda hoje, dos discípulos receberem os ensinamentos do professor. A perspectiva do Vedanta envolve mudanças de cenários culturais. O foco das Upanishads foi relativamente contínuo ao longo desse período, tanto considerando as clássicas, quanto as do Yoga. O que prevalece é a visão mística&mítica do sujeito consigo mesmo, visando a busca da autorrealização.

O conjunto das Upanishads do Yoga é atestado por uma das últimas delas, chamada Muktika Upanishad, do século XV. Ela cita 1.180, mas lista apenas 108 Upanishads, com o foco sobre o si mesmo, sobre Atman idêntico a Brahman; por isso mesmo que alguns yogins&yoginis devotos&devotas entendem que só uma categoria, vale dizer das Upanishads, simplesmente. Essa listagem, contudo, exigiu uma classificação, para distribuição dos textos em categorias. E a base é a vinculação das obras com as linhas védicas: rigveda, samaveda, yajurveda (branco&negro) e atharvaveda. Outras classificações foram criadas mais recentemente, desta feita associadas às linhagens&tradições espirituais do hinduísmo; ou seja, alguns pandits puxaram a sardinha para a interpretações de suas escolas filosóficas&religiosas, sem serem consubstanciados por um documento autoritativo. Inclusive, o trânsito entre as classificações causa alguma polêmica&desconforto entre estudiosos&devotos. Contudo, o que interessa, aqui, é que são Upanishads do Yoga.

E, é bom deixar registrado, que não significa que sejam obras doutrinárias por constituir uma doutrina do Yoga. Porém, significa sim que trata de assuntos&temas pertinentes ao Yoga. Tratam de debates sobre Yoga que aconteciam entre o sexto e o décimo dezoito séculos da nossa era. Embora, as datações sejam imprecisas, a maioria foram produzidas entre os séculos XII e XVI da era moderna; portanto, cerca de 400/500 anos da época medieval. Desta forma, não são tão antigas como as Upanishads clássicas, como a Brihadaranyaka e a Chandogya. E algumas delas como a Svetasvatara e Katha Upanishads até tratam de temas sobre o Yoga, todavia de forma secundária. Sobre datações, sempre há controvérsias, pois, às vezes, citam a própria Svetasvatara como a mais antiga; o próprio professor Carlos Eduardo é aderente a esse marco inicial. Isso não é tão importante; o essencial é sobre o que tratam.

As principais Upanishads do Yoga são vinte, aproximadamente, cujo foco fundamental é trazer inspiração poética&mitológica para a prática&caminho espirituais, vertidas ao autoconhecimento para o yogin&yogini: dezesseis são as mais citadas e dessas principais mais famosas sete trazem informações básicas sobre a HathaYoga&Tantra. E, aqui, chegamos ao cerne do que interessa à mitologia dos ásanas. Assim, no quanto delas há presença&trabalho sobre ásanas? Dessas Upanishads cerca de 6/7 sequer mencionam o ásana; e 6 delas tratam do OM (pranava), que é idêntico Brahman, o eu interno, Atman. A Mandukya, uma Upanishad clássica, elabora, de forma definitiva, a definição do OM, formando a base das reflexões posteriores.[5] Porém, em algumas outras sim, aparece o assunto vinculado ao ásana.[6] O professor Carlos Eduardo lista as seguintes Upanishads do Yoga, no curso A Mitologia dos Ásanas, citadas na ordem&posição em que aparecem na Muktika Upanishad. No texto de apoio do seu curso, acompanha uma síntese das suas essências.

1.       Hamsa (15);

2.       Amrtbindu (20);

3.       Amrtnada (21);

4.       Kshurika (31);

5.       Nadabindu (38);

6.       Dhyanabindu (39);

7.       Brahmavidya (40);

8.       Yogatattva (41);

9.       Trishikhi Brahmana (44);

10.    Yogachudamani (46);

11.    Mandalabrahmana (48);

12.    Shandilya (58);

13.    Pashupata (77);

14.    Yogakundali (86);

15.    Darshana (90);

16.    Mahavakya (92).

Essas Upanishads do Yoga, que tratam do ásana, abordam&apontam para o mesmo como conhecimento seguro, ou seja, não é uma prática corporal, mas mental, feita com convicção. Essa concepção prevaleceu até o século XVIII, quando ainda não se percebia o destaque corporal que o ásana ganharia na modernidade. Por isso, é importante a revisitação da prática com base em significados&significações mitológicas, enquanto objetos de meditação, quando assentados correta&adequadamento no espação interno&subjetivo. Ou seja, readotar o ásana como atitude mental, como prática para alcançar os objetivos do Yoga, que viabilizam&oportunizam moksha!

Agora, a mãe de todos os ásanas, sarvangasana, o pouso sobre os ombros!

É um ásana que alguns acreditam que seja um dos modernos, mas só que não! Está num texto clássico dos Nathas, no Rudrayamala Uttaratantra, inclusive, descrito; portanto, é bem antigo, desde séculos atrás. Os Nathas enxergam o mundo de forma invertida. Então, sarvangasana se tornou um emblema da seita dos Nathas, ou seja, valorizar as coisas&eventos&conteúdos que vêm de dentro de nós, que emergem do coração, é o que importa, dando valor&importância ao nosso mundo sutil, autorrealizando uma existência invertida, via compromisso de seguir diária&continuamente a voz do coração. Espera aí, como assim ter uma existência invertida? É o que vamos ver!

Vejam, abaixo, a posição final do sarvangasana, em sua variação mais conhecida&famosa. Sarvangasana é elogiada&aplaudida, por isso acompanhamos a denominação de “mãe” de todos os ásanas, dada em alguns trabalhos modernos.

 

Sarvangasana significa o assento de todas as partes do corpo! Sarva = todo; anga = membro. Significa integrar todos os componentes do corpo. É desde aqui que começa a explicação.

 

A ideia primordial é integrar o nosso corpo material com o corpo sutil. Por isso, sarvangasana é o veículo de expressão do nosso ser mais íntimo, mais interno&subjetivo. Mas, e na prática, como acontece? Vamos perceber a superação da dualidade, sinalizando o desequilíbrio entre os dois corpos, vale dizer, da matéria, entendido aqui pelo grosseiro, e do espírito, pelo sutil (embora o corpo sutil ainda seja matéria). O que queremos dizer? É que se assentamos o corpo buscando descando&firmeza, mas mantemos o nosso mundo subjetivo em conflito, com a nossa mente agitada, nada acontece de positivo. Isto é, o assentamento não está pleno, não produzindo o efeito desejado, pois a agitação da mente prejudica o nosso corpo. Portanto, a mente precisa ficar tranquila para também se assentar na postura. Essa é ideia do sarvangasana, ou seja, assentar o corpomente! E daí?

E daí que uma mente agitada, no extremo, pode colapsar o corpo, com desequilíbrios&doenças (ainda que a decadência&falência seja natural com o avançar da idade). O mundo externo&objetivo é a fonte de todas as nossas tensões&preocupações, que deixam a mente agitada&inquieta. A mente para relaxar precisa inverter a sua perspectiva, a sua visão de mundo. Aí está o cerne da questão, que envolve o correto&adequado assentamento do sarvangasana. Claro, o corpo também precisa estar saudável! Mas, aceitar que o mundo subjetivo é o mundo real é a solução para superar a dualidade: do irreal para o real; das trevas para a luz; da mortalidade para a imortalidade, diz o mantra hindu de iluminação! Com isso, superamos todos os pares de opostos.

O mundo objetivo é falso! E, no Yoga, o que importa é a Verdade! Se a mente não aceitar a Realidade, última&definitiva, ela não relaxa, pois ela fica defensiva&aflita. Aceitar o mundo subjetivo é uma ideia fundamental. Mas, a mente dará mais importância para o mundo objetivo, se estivermos mais conectados com a matéria, em detrimento do espírito. Se assim for, a mente vai continuar tensa&inquieta, mesmo o corpo estando relaxado; aliás, será até pior se o corpo estiver relaxado, pois fica desarmado, com as portas abertas às marcas&tendências&traços&memórias, que devem ser superadas. Portanto, inverter a maneira de enxergar o mundo altera a perspectiva de enxergar as coisas&eventos&conteúdos, autorrealizando a não-identificação. Ou seja, a manifestação dos fenômenos relativos&transitórios&efêmeros deve, portanto, ser vista pela mente como irreal, para que ela possa, de fato, relaxar. Tirar as tensões&agitações do mundo subjetivo é o mais importante, isto é, se o mundo interno estiver tranquilo&pacificado, as agitações&tensões do mundo externo não nos afeta.

Como já dito, essa é a proposta do sarvangasana, que, de todo modo, tem que ser realizada pelas sabedorias (no plural mesmo), para o yogin&yogini se tornar um(a) erudito(a). Vidya é sabedoria! A sabedoria se expressa na ação de um pandit. A erudição se expressa no falar de um sábio. O pandit sabe fazer, mas nem sempre sabe explicar; já o sábio&poeta (rishi) sabe explicar, mas nem sempre sabe fazer. E o que isso tem a ver? É que as sabedorias fluem pelas mahavidyas, quando percebemos&intuímos diversas&múltiplas formas de agir&fazer, para resolver problemas&dilemas que se apresentam em nossas vidas, sem explicações, sem lógica. Vem da energia Shakti, a deusa-mãe, por ações das grandes deusas, e sob os poderes de Shiva. É o que sarvangasana pode viabilizar&oportunizar, quando há correção&adequação em seu assentamento, vale dizer, quando os corpos, grosseiro&sutil, estão em equilíbrio. Utilizamos essa sabedoria natural da mente, para alcançar o coração.

A execução de sarvangasana deve ser realizada com firmeza da mente, aquela que pensa com clareza. Ou seja, a atitude deve ser mental e não só corporal. Não é um ásana para artista de circo (no sentido da sua estética), mas para uma pessoa que tenha clareza. A ideia&proposta é ir além da dualidade do esforço versus repouso, pois o objetivo não é alcançar a perfeição, mas o equilíbrio interno. Deve-se propiciar um assento para todo corpomente. Durante a execução não se deve reter o Prana, pois sarvangasana alcança o vayu sutil, que mexe com o corpo sutil; o vayu grosseiro mexe com o corpo. Pranas sutis são mais difíceis de se identificar, porém com eles se alcança o mundo dos deuses, promovendo o(a) yogin&yogini congelado(a). O que isso significa? Significa posturas&atitudes indiferentes&insensíveis perante o mundo objetivo&externo. E isso é alcançado relaxando a mente, conforme ficou dito acima. E não se trata de descortesia ou falta de generosidade, mas do silenciamento no tumulto do mundo secular, sem se deixar levar arrastar pelas correntes existenciais. Definitivamente, sarvangasana não deve só ser executada com o corpo, mas invertendo a perspectiva da mente, para assentá-lo adequado&corretamente. O silenciamento aponta para focar&fixar, na realidade ilusória&relativa, apenas naquilo que é essencial, nas coisas que são mais importantes para nós, já que não podemos dar conta de tudo. Assim, a ideia não é pirar, pois não adianta saber tudo, e nem tem como conhecer tudo (salvo com o autoconhecimento)! É impossível para yogin&yogini no processo de realização espiritual.

Então? Vamos praticar sarvangasana com esses significados&significações na mente, para acessar e dar voz ao coração, com ela quieta e este pacificado, para o correto&adequado assentamento?

Agora, shirsha, a cabeça como assento; shirshasana, o pouso sobre a cabeça - o rei dos ásanas!

 

Shirshasana não aparece em nenhum texto clássico de hathayoga&tantra, podendo ser uma criação moderna. Mas, shirsha encerra uma palavra importante, pois além de oferecer o pouso para shirshasana, representa a parte mais elevada, o topo de qualquer objeto ou criatura. Além disso, oferece muitos paradoxos importantes, como veremos!

 

Inclusive, pode ser elevada à representação da montanha, onde a cabeça é o pico nevado dos Himalaia. Podemos fazer do topo da montanha a condição de pico nevado que, tradicionalmente, representa o local&lócus de encontro de&dos sábios&santos, os quais são citados como visitando ou mesmo habitando o topo das montanhas. O próprio deus&lorde&senhor Shiva está associado à famosa montanha Kailash (Morada de Shiva), onde tem seu assento eterno&perene. Mas, também se associa aos cabelos grisalhos, pois, na tradição hindu, a idade avançada não é sinônimo de degeneração&decadência, mas de sabedoria&elevação acumuladas durante toda e existência. Dito em outras palavras, a cabeça grisalha é o ponto&momento de encontro com os nossos antepassados.

O fato da inversão de shirsha, em shirshasana, traz os primeiros dos paradoxos, pois a cabeça, na medida em que está sempre para cima, na postura, fica para baixo, como que buscando equilíbrio&força&elevação não só para o corpo, mas também para a mente, para o corpomente, enfim. Podemos visualizar, ainda, uma representação da figueira sagrada indiana, que nasce no ar e busca sua força na terra; assim é shirshasana, que busca na terra a força dos deuses Soma&Savita, para impulsionar nossos pensamentos, com a energia dos vegetais&dosol.

A cabeça pode ser associada à sabedoria, porém não à sua sede. A sede da sabedoria é no coração, onde está o autoconhecimento definitivo&eterno! A cabeça tem outro sentido, igualmente importante, na medida em que tem a porta para a sabedoria, por intermédio do orifício de Brahma (brahmarandha), localizada, fisicamente, na moleira, que se fecha na fase adulta. Por essa porta, um das de nosso corpo, encontramos o guru, exatamente, acima do orifício imaginário. Lá, tem um chakra, onde reside o guru, onde habita Shiva. Como assim? Shiva não reside&habita no nosso coração? Eis, aqui, mais um paradoxo dos significados&significações de shirsha&shirshasana. Ele, Shiva, reside&habita nos dois lugares: no suprafísico, além do material (chakra do guru), e, igualmente, no coração, espiritual (anahata chakra). Esses dois lugares possuem o mesmo chakra, pois ambos têm doze pétalas. Portanto, a cabeça é o portal para acesso ao guru, Shiva!

Querem um outro paradoxo? Então, lá vai! Na cabeça também acontece a morte, que não é um evento muito agradável&simpática para nós ocidentais (se é que ela existe), quanto a busca atraente&arrebatadora da sabedoria, por meio do guru. O Prana, que mantem nosso corpo vivo&emmovimento, abandona os canais sutis e se move para dentro da cabeça no momento da morte em busca dos fenômenos subjetivos&espirituais. Assim, a cabeça é, igualmente, o portal da morte! Faz parte do conjunto de paradoxos complexos dos significados&significações que shirsha, que a cabeça possui na tradição hindu.

E, para completar os paradoxos, a cabeça, shirsha, por estar no topo representa o comandante, embora não seja, de fato, o verdadeiro, que está acima dela na presença de Shiva – que, como já vimos, também está no coração. No entanto, apesar dessa proximidade, nem sempre Shiva é obedecido, pois é a mente que vocaliza&transmite os comandos para o corpo. Ajna, que significa comando, é o chakra equivalente que fica entre as sobrancelhas, fazendo parte do sistema dos centros energéticos (chakras) do Tantra. Essa localização funciona como atrativo para o Prana se alojar no centro da cabeça, para estimular a aceitação da voz do coração como comando da nossa mente, concedendo legitimidade à percepção&intuição.

Shirsha, finalmente, empresta seu nome ao nono mês do ano calendário lunar hindu e do calendário indiano, que corresponde ao nosso novembro&dezembro, aproximadamente. Ele simboliza a cabeça do antílope, bem como a Constelação de Orion, representando o gigante caçador da mitologia grega. Nela podemos visualizar as três Marias. E daí? No que interessa ao shirshasana? Interessa pela presença de uma mancha negra nesta constelação, entendida como uma nebulosa. Essa configuração corresponde ao mistério, ao abismo onde a mente é lançada, quando se confronta com os paradoxos, tanto na existência dos devotos quanto, sobretudo, nas iniciações dos discípulos. Nesta situação, a mente perde o apoio até reencontrar o equilíbrio, ou seja, o enfrentamento dos significados&significações não traz uma condição confortável, pois, com a perda do apoio, a mente deixa de “ser” para abrir espaço&tempo para um “vir a ser”. Ou dito de outra forma, o insight aponta para um “vir a ser”, perdendo-se a condição estável do “ser”.

Isto é shirshasana, com o corpomente pousada em shirsha! A condição sensorial mergulha no absurdo e começa, a partir daí, a enxergar o mundo mítico dentro no natural, sendo mesmo a base existencial, que abre portas para a sabedoria. Vale dizer, saindo do usual, do trivial para mergulhar na existência pelo Infinito, para além do universo, criando asas para a liberação&libertação, com a voz&comando do coração. E, para finalizar, tomemos o que fundamenta a imagem da poesia na Bhagavadgita, na síntese do verso 69, do segundo capítulo: naquela que é noite de todas as criaturas, os sábios despertam! Ou seja, às vezes, é preciso inverter as coisas&eventos&conteúdos para compreender o mundo de fato com o coração, não com os olhos da mente.

Vamos praticar shirshasana com esses significados&significações assentadas no espaço interno&subjetivo!?



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] No início da brochura, utilizei o termo marco, e agora background mitológico. Em verdade, o desenho mitológico, que dá sustentação aos significados&significações, está nas abordagens de cenários&contextos míticos&históricos das posturas. A correlação entre o introito de cada grupo e a caracterização mitológica dos ásanas nem sempre é clara&direta, pois a conexão não é científica, mas tântrica. Além disso, a soma de todos os textos clássicos de hathayoga&tântrico não possuem todas as posturas trabalhadas no curso do professor Carlos Eduardo, pois algumas delas são modernas, simples assim; e está tudo bem!

[5] O fundamento do ensinamento da Mandukya Upanishad, já foi citado anteriormente duas ou três vezes.

[6] A Yogakundalini Upanishad, sintetizada por esse praticante, em obra já citada aqui, lá atrás, traz o seguinte ensinamento, relativamente ao ásana, expresso pela segunda frase do quarto verso: quanto às posturas, elas são duas: a postura de Lótus e a postura do Raio. Vejam que aqui, o que importa, de fato, é a meditação como ferramenta principal da prática. Já na Dhyanabindu Upanishad encontramos o seguinte ensinamento, contidos nos versos 42/43: as posturas são tão numerosas quanto as espécies de seres vivos; só o Senhor (Shiva) é capaz de discernir os vários tipos de posturas, no entanto, as mais importantes são quatro: a perfeita (siddhasana), a generosa (bhadrasana), a do Leão (simhasana) e a do Lótus (padmasana). Todas os ásanas acima registrados foram abordados nesta brochura, à exceção da generosa (bhadrasana). Na brochura, sintetizei oito delas, com base na tradução, do inglês&francês para o português, do professor Carlos Alberto Tinoco: Hamsa, Mahavakya, Ksurika, Amritabindu, Amritanada, Yogakundalini, Yogatattva e Dhyanabindu.

13/02/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga VIII[1]

Grupo de Outras Quatro Posturas: de Relaxamento (1), Deitada de Bruços (1), sobre as Costas (1) e de Equilíbrio sobre às Mãos (1).[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Neste grupo, vamos trazer: halasana&makara&mayura&shalabhasana. Fica registrado que seus backgrounds já foram sintetizados em outros grupos de posturas, correlata&respectivamente: do Yoga Sutras (vide Grupo 2), do Siddha Siddhanta Paddhati (vide Grupo 3), dos Nathas (vide Grupo 3) e do Shivaismo (vide Grupo 2). Pelo longo título do grupo, já deu para perceber que a de relaxamento é o makarasana, deitada de bruços é o shalabhasana, sobre as costas é o halasana e de equilíbrio sobre às mãos é o mayurasana. Sendo assim, vamos direto aos marcos mitológicos das posturas, começando pelo halasana.

Hala, o arado! Halasana, a postura!

Olhemos, adiante, uma ilustração do halasana, em sua posição final.

 

Caixa de Texto: O halasana oferece a possibilidade de termos foco na proteção, para dar comando à voz do ‘eu’ do coração!Foto preta e branca de homem deitado no chão

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O arado é uma das ferramentas mais antigas da humanidade. Era usado para preparar a terra para a agricultura. E, talvez ainda seja utilizada nas propriedades rurais de pequeno porte, apesar do maquinário agrícola moderno, utilizado pela grande empresa. Com a abertura de valas, abertas pelos arados, as sementes são acolhidas&acomodadas pela terra, e se tornam produtivas, gerando frutos, na forma de comida. É possível que a semente jogada direta na terra não prospere com a produtividade necessária. Mas, e aí? E a mitologia? Pois é, vamos avançar para ela agora.

A base do marco mitológico é que o campo de cultivo, segundo a Bhagavadgita, é o nosso corpo. E, é, exatamente, o que os significados&significações se propõem, ou seja, servir como semente para serem acolhidas&acomodadas no espaço interno&subjetivo. O coração, pela unidirecionalidade da mente, aberto pelo halasana, se prepara para receber as sementes, vale dizer, os significados&significações. Claro, aqui estamos apontando o que vale para todos os ásanas/posturas com seus valores&conceitos mitológicos específicos; um gênero, um caráter geral. Mitologicamente, falando de forma específica, hala&halasana defende&protege o campo do corpo&mente. Mas, é só isso? Não!

Sita, a esposa de Rama, por exemplo, é filha da terra, nasceu do sulco da terra. E, no Ramayana, a personagem Sita aponta para o coração; a luta de Rama pelo resgate de Sita, em posse dos demônios&asuras, é o objetivo supremo de todo&toda yogin&yogini, para acessar o si mesmo no coração, obtendo a autorrealização; assim como a Bhagavdgita, é uma guerra que acontece dentro de nós mesmos, com a mente dialogando com a escravidão&libertação, buscando&lutando para superar as marcas&traços&tendências&memórias, para se assentar no espaço interno&subjetivo do coração e obter a união&fusão&integração com o Absoluto Brahman. Embora, halasana seja uma concepção moderna, o sentido dele aponta para a defesa do espaço mítico, que se arranja&acomodado no coração, espiritual, enquanto produto&resultado de ekagrata mental. Balarama, irmão de Krishna, usa arma igual a um arado. Hala, portanto, também é uma arma de defensa&ataque, além de cultivo. Há, ainda, na mitologia, os halas, que são guerreiros fortes, como que justificando a perspectiva adicional à do cultivo do corpo, albergando&acolhendo significados&significações.

Halasana&hala, desta forma, podem ser consideradas, em seu conjunto, como forças de proteção&defesa, para dar comando à voz do ‘eu’ do coração, como dito no quadrinho acima, de forma a nutrir a semente ideal para o samadhi, quer com ou sem semente (não há paradoxo!). A pergunta sobre qual semente ideal devemos lançar no coração resta apontada, isto é, devemos cultivar a semente de moksha, para que a nossa autorrealização possa prosperar em campo fértil!

Agora, makara, um animal misterioso!

Observem, abaixo, ilustração de uma variação do makarasana.

Caixa de Texto: É dito que makarasana produz fogo no corpo. Makara possui uma série de trocadilhos, como veremos adiante.Foto preta e branca de mulher sentada

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Makara é um animal mítico; aquático. Ele está relacionado com kamadeva; o cupido! Possui uma iconografia estranha, pois é reproduzido como crocodilo esquisito. Como está associado às águas, representa a montaria dos deuses Varuna&Ganga. O makara nas profundezas das águas, seu habitat, é correlato ao inconsciente; semelhante do capricórnio da astrologia ocidental. Enquanto metade mais escura do ano, fica conectado à Varuna, pois esse deus é o céu noturno, guardião das forças do inconsciente. Seu terceiro olho de Shiva nos conduz para o abismo, para o Infinito do coração onde está Ele, o próprio Shiva. O makarasana, portanto, é um ásana/postura que nos põe em contato com as grandes forças do inconsciente.

Makara tem uma série de trocadilhos, conforme dito no quadrinho ilustrativo. Ma-kara é o nome da sílaba ‘ma’, e ‘ma’ representa o deus Shiva. Na Mandukya Upanishad está associado ao ‘eu’ do coração, enquanto emblema de OM, de Brahman. Um outro trocadilho seria a representação quarta nota da escala musical indiana, que aponta para o meio, para o equilíbrio. Tem, também, associação com o preta, que é a cor o céu noturno e do inconsciente, apontando para as trevas&escuridão. Possui a presença a memória da ancestralidade, nos tornando mais humanos, na medida da associação com os antepassados&antecessores. Um outro seria frente à sua iconografia; é que seu rabo com três voltas aponta para a Kundalini, que também é escura. Percebe-se, claramente, que escuridão&trevas não representa, necessariamente, ignorância, tampouco sabedoria, até porque o liberto em vida está além do Dharma&adharma. É um paradoxo como outros, diversos&múltiplos, do Advaita Vedanta. Até porque, a voz do coração também está no escuro&negrume, mas que pode se tornar clara&reluzente, se tiver a oportunidade conferida pela autorrealização.

Makara brilha no svadhisthana, o chakra da água, habitat dos genitais. Esse chakra traz, em sua iconografia, o desenho do makara, que representa as forças lá sediadas. Suas seis pétalas estão no entrelaçamento de dois triângulos, que aponta, mais uma vez, para o equilíbrio.

Assim, makara&makarasana conduz as forças dentro de nós. As forças do inconsciente bem trabalhadas nos conduzem ao nosso Dharma, com uma visão certa&correta. Essa perspectiva de makarasana&makara, viabiliza&oportuniza ocupar nosso espaço no mundo secular, travando&jogando uma vida útil, cheia de significados, cheia de Yoga. Desta forma, vamos assentar os significados&significações do makarasana no espaço interno&subjetivo, do nosso coração, espiritual.

Agora, mayura, o pavão!

Olhem, abaixo, uma ilustração de uma variação de mayurasana.

Caixa de Texto: É um pássaro, uma ave nativa; representa um símbolo, na Índia. O pavão, um indivíduo altivo, foi adotado, correlatamente, como ícone de culto ao corpo belo, no sentido de vaidade.

 

A base verbal de mayurasana significa berrar. Embora, tenha penas&crista bonitas, seus pés&berro é feio. Muito além da estética, mayura é um instrumento de medição do tempo por meio das palavras, ou seja, mayura são as palavras como medida de tempo; referente ao discurso. Portanto, tem uma associação direta&indireta com as palavras. É, também, um veículo mitológico. Kartikeya (Skanta) e a deusa Saraswati usam o pavão como veículo ou como o utilizam como um companheiro. Skanta, filho de Shiva, deus da guerra, luta com a mentira; a luta cristiana do bem versus o mal, no hinduísmo, é a verdade contra o falso. Ou seja, o que é mentira é falso; o que é falso é mentira! Simples assim! A presença do pavão junto a Sarasvati configura o poder da palavra verdadeira; a fluição das palavras&discurso expressa a verdade. Temos, aqui, o poder das palavras como impulso do processo de libertação!

A configuração do pavão, ainda, sinaliza para instrumentos&ferramentas de meditação. Ou seja, a calda cheia de olhos&olhares é a platéia. E a cabeça, o artista. Sabemos que o artista transmite ensinamentos através da arte, especialmente na forma de teatro. Sem falar que o pavão é um emblema de Shiva; emblema do processo de concentração, isto é, meditar como corpo inteiro, ficando atento à cabeça. No cristianismo, a meditação se faz com diálogo; no hinduísmo, com o fazer, e não com o pensar. Há uma diferença entre fazer&falar! Viver para falar é um equívoco; a ideia da existência é fazer mais e tagarelar menos. Portanto, mayura ensina transformar palavras em ações. Ele representa esse poder relativo à nossa natureza, isto é, fazer ao invés de descrever. Neste sentido, a ideia é colocar para fora a nossa autorrealização, tornando nossa subjetividade objetiva; sem apego, sem aversão. Assim, mayurasana&mayura constituem ferramentas de realização&autorrealização, com menos teorias&quimeras.

O pavão, também, remete à garuda, que é primo da serpente, pois mayura foi criado a partir das penas de garuda. Mayura possui o olhar do coração, e não da mente. O coração observa as coisas&eventos&mundo, numa perspectiva de inimigo do olhar da mente, que é frio&distante. Esse olhar que de escrutinador é o olhar espiritual, subjetivo&interno, comprometido com a nossa natureza autêntica&original. O poder das palavras conduz do objetivo para o subjetivo, do esterno para o interno, espiritual, fazendo uma ponte, para, em seguida, se manifestar nos manifestarmos subjetivamente de forma objetivo, em prol da autorrealização, como dito acima. Na iconografia de Valmike, a pena de pavão, escreve ensinamentos espiritualmente inspirados, que apontam para o ‘eu’ mais profundo, para Isvara, que guarda a natureza de nosso coração, junto com Shiva. Mayura, então, como ponte, tem duas pontas: faz o vínculo entre o mundo externo&objetivo com o mundo interno&subjetivo, se prevalecer o mundo secular está apontando para a vaidade. Por outro lado, se aponta no sentido inverso, sinaliza para a autorrealização, representado na força de presença do espírito sobre a matéria.

Observe-se que as imagens dos deuses nos templos hindus são feitas com as penas do pavão. Desta forma, os significados&significações de mayurasana&mayura pagam as coisas&eventos do mundo, para preservar o essencial&primordial. A dupla, mayurasana&mayura, homenageia o yogin&yogini perfeito&perfeita, os quais que, em geral, vivem só, isolados, para descobrir a natureza autêntica&original de cada um, que tem base no espírito.

Agora, shalabha, o gafanhoto!

Percebam, adiante, uma ilustração da variação do shalabhasana.

Imagem em preto e branco de pessoa com a mão

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Denominar shalabha de lagosta, como eventualmente acontece, é incorreto. Designa, exatamente, gafanhoto. Temos duas ou três variações além da ilustração acima: uma com as mãos no solo à altura do estômago&instestino, com os braços&antebraços em 90° graus; outra com as mãos&braços&antebraços simplesmente levantados na altura dos ombros, ou mesmo à frente; e uma terceira com os braços ao longo do tronco com as pernas levantadas e cabeça rente ao chão, eventualmente, apoiada no queijo. Enfim, shalabhasana!

O principal aspecto mítico de shalabha é que é uma forma assumida por virabhadra. Um herói maluco? Não. Trata-se de nome&forma associado à fúria de Shiva, junto à mitologia da vingança pela morte de Sati, sua primeira esposa, que se lançou ao fogo com vergonha pelas atitudes de pai, Daksha.

Há, em complemento, também uma outra simbologia, vertida à Verdade. É que Visnhu assume a postura&atitude de narashimha, o quarto avatar do deus da manutenção cósmica. No entanto, perde o controle dessa personagem e se transforma, novamente, num grande pássaro, com duas cabeças, lembrando a figura de garuda, ou num outro animal com corpo de leão e cabeça de elefante. Nessa mitologia, Vishnu, então, assume a forma de gandabherunda, narashimba transformado, um ser tipo águia com duas cabeças, para subjugar sharabha, apontando a afirmação: eu sustento apenas a Verdade. Shiva, então, liberta o espírito de Vishnu desses condicionamentos; numa história shaiva, claro.[4] No brasão indiano, talvez apenas talvez e não à toa, há um dizer que afirma que somente a Verdade vence&trinufa, sozinha.

Com base nessas histórias mitológicas, o que shalabha representa na meditação, em shalabhasana? Representa, figurativamente, duas grandes forças poderosas, que convivem dentro de nós, ao mesmo tempo, na forma de conflito e de equilíbrio. Essas forças nos mantêm dentro dos limites, ou seja, sinalizando&alertando para não ultrapassarmos nossos limites. Entretanto, a sabedoria nos permite ultrapassar os limites, sem ferir o próximo. Assim, o Dharma é o foco dos significados&significações do shalabha&shalabhasana, quando devida&corretamente assentados no espaço interno&subjetivo do&da yogin&yogini. Portanto, o Dharma é o tema da meditação em shalabhasana!



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] O vaishnavismo também deve acolher&acomodar muitas histórias que liberta Shiva de seus condicionametos. Não obstante, acredito que a perspectiva de Shiva, que, ao destruir, recria&mantem, até nova transformação, atuando de forma contínua&ininterrupta, está mais próxima do não dualismo, tradição hindu que adota&acolho; na realidade, Shiva encerra a não-dualidade, desde sempre e para sempre, aqui&agora!