Agora é tempo de Yoga VI[1]
Grupo
de Posturas em Solo&Relaxamento.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
Para albergar esse grupo de três posturas,
paschimottanasana, purvottanasana e shavasana, o professor Carlos Eduardo
argumentou&comentou o ásana na Bhagavadgita (BG).
O ásana/postura na BG expressa o modo
antigo de praticar Yoga, exatamente como nas grandes Upanishads e depois no
Yoga Sutras. A ideia é identificar o guru que está presente no próprio coração.
O sexto capítulo, nos versos 11 a 15, traz a orientação dada por Krishna à
Arjuna. O ásana/postura, ou melhor assento&assentamento, deve estar voltado
para o si mesmo a partir do si mesmo. Ou seja, o ponto de chegada e o de
partida do processo meditativo verdadeiro são os mesmos, isto é, um só! Dito
objetivamente, o ásana/postura é construído a partir de conteúdos
internos&subjetivos, dos mais simples aos mais nobres. Idealmente, devem
expressar valores&princípios que dão&oferecem sustentação à existência,
à vida! Essa estrutura viabiliza&oportuniza atitudes&iniciativas
acertadas&corretas. Essa adequação&correção, claro, deve estar de
acordo com a nossa própria natureza. Krishna ensina na BG que é melhor cumprir
nossa Dharma pessoal com imperfeição do que com perfeição o do alheio&terceiro.
Isso é muito importante assimilar, pois a orientação verdadeira não é
externa&objetiva. Neste sentido, o processo meditativo é a chave de ouro
para acessar o divino&sagrado, que consta em nosso inconsciente, melhor
dizendo, em nosso coração.
No Yoga, especificamente, o
assento&assentamento deve proporcionar&propiciar conforto&firmeza,
conforme já anunciado lá atrás. Na Índia, houve um grande yogin que se chamava
Swami Sarveshvara, considerado um avadhuta, título dado ao renunciante natha.
Foi um homem feliz, iluminado, cujo sorriso proporcionava ao devoto uma
experiência mística. O que havia de excepcional? É que era um mestre cotoco;
sem braços&pernas, que perdeu para a lepra. Não obstante, era um grande
mestre, apesar de um homem aleijado. Era, na verdade, um iluminado. Essa
situação&condição prova que é possível libertar o espírito por meio de uma
prática coerente, com coerência interna&subjetiva. Portanto, o Yoga é para
todos! Apesar de todos os ásanas/posturas facilitarem esse processo de
autorrealização, o alcance da Yoga é, realmente, interno.
Em todo ásana/postura,
adequada&corretamente praticado&executado, o objetivo supremo é
encontrar o verdadeiro tesouro verdadeiro (a dobradinha é
possível&necessária; não há redundância), que está oculto nas profundezas
do coração. Sua manifestação é expressa na forma de alegria&felicidade. O
segredo é assentar no espaço interno&subjetivo, fazendo do assentamento uma
plataforma de liberação&libertação! Isso é possível&viável para todos,
qualquer que seja a conjuntura&conjunção de forças
favoráveis&desfavoráveis. O esforço, contudo, deve ser
contínuo&diligente! Todavia, sempre podemos contar com a
graça&benção&glória! Na realidade, só acontece com as mãos Dele!
Agora, paschimottanasana!
Paschima significa está atrás e/ou vem
depois, desde uttan e/ou tana, de paschimottana e/ou paschimatana.
Ou seja, estender parte para trás, atrás, promovendo um alongamento. Mas, é só
isto? Não! Este ásana/postura tem um sentido (significado&significação)
mítico&místico muito forte&poderoso! Pode-se visualizar&imaginando
ou imaginar&visualizando o espaço circular, abrindo os braços, sentado,
definindo as quatro direções básicas: mão direita aponta para o Sul; a mão
esquerda para o Norte; a frente para o Leste; e as costas para o Oeste. Pronto,
estamos no espaço interno&subjetivo, sobretudo, sagrado&divino! Como
assim? É que o salto desde a vigília é quântico&tântrico!
Em seguida, uma ilustração da sua posição
final.

Continuando... Varuna é o deus do reino
das sombras, presidindo o Oeste. O brilho das estrelas acontece na escuridão,
nas trevas, que ocultam&protegem. Ou seja, esse cenário não é,
necessariamente, ruim. O aspecto negativo se manifesta só se estivermos em
desarmonia. Neste caso, aprisionam&assustam a mente! Por outro lado, se
estivermos animado&motivado pela nossa natureza, o escopo
mítico&místico das estrelas brilhando&iluminando se torna nosso
inconsciente, donde brota nossa intuição vertida ao Dharma, ao nosso Dharma.
Num sentido amplo, paschimottanasana
aponta para uma dualidade a ser superada, pois se, por um lado, aponta para as
águas cósmicas de Varuna, enquanto forças de proteção do inconsciente, por
outro lado, podem representar prisão&opressão pelas trevas&escuridão.
Pictoriamente, o passado pode ser um passado que nos acossa&persegue, cheio
de mentiras&falsidades. Esse alicerce do presente&futuro deve ser
questionado&superado, ou seja, é necessário remover&estirpar o
falso&mal do passado. Quando lidamos&operarmos adequadamente com o
passado – observe-se que ele já não existe − processamos uma purificação,
abrindo as portas para a proteção que o inconsciente pode nos dar&oferecer.
Mirando o Leste, em forma ritual, na
posição final de paschimottanasana, podemos apontar para a
libertação&liberação com&via moksha. Este ásana, assentado no espaço
interno&subjetivo, apresenta um significado&significação de purificação
do nosso passado, reativando&autolembrando nossa natureza verdadeira.
Podemos&devemos mirar&focar nas transformações de coisas ruins em
coisas boas, com a ajuda&apoio de Varuna, o guardião da Verdade!
Agora, purvottanasana, que faz um par
perfeito com paschimottanasana!
Vejam, adiante, a visão da sua posição
final.

Podemos, ainda, atribuir dois sentidos: um
espacial, para frente; outro temporal, para trás. Nossa, como assim? É o que
veremos, com calma&tranquilidade; sem correria&pressa.
Purvottanasana aponta para a direção
Leste, assim como paschimottanasana. No Leste, estão Surya&Indra.[4] O
ásana/postura traz a possibilidade&oportunidade de despertar uma
consciência máxima, por meio dos órgãos da chamados de indriyani, literalmente,
subalternos a Indra. Portanto, o alongamento em direção ao nascer do Sol
desperta a consciência, trazendo clareza ao estado de vigília.
Há, ainda, a percepção mitológica da
internacionalização do ritual védico por meio da prática de hathayoga, na
medida em que podemos transcender, no sentido Oeste → Leste, do inconsciente
para consciente; da mortalidade para a imortalidade. Ou seja,
podemos&devemos atingir moksha no momento&instante presente, num
aqui&agora.
Aqui, Savita, o Sol noturno, está mais uma
vez presente como um agente ritual importante.[5] É
que Ele é o patrono do ritual do Soma, cuja extração representa&aponta a
força de ascensão latente nos vegetais. Nessa beberagem, para Indra se elevar,
junto ao sacrifício do bode, a mente está representada, pois é ela que,
objetivamente, deve se iluminar. De novo, igualmente, kundalini pode se
manifestar, na forma tântrica. O Soma arrasta os três componentes importantes da
nossa existência: cit (consciência); ojas (vigor); e vach (voz; expressividade),
conformando-os. Ou seja, o Prana ascendente viabiliza&disponibiliza as
forças internas, exatamente, numa leitura tântrica. A ascensão atinge o
anahata, cujas oito pétalas, apontam para os 8 poderes de Shiva, fechando o
assento&assentamento, como uma árvore que atende aos desejos mais
puros&verdadeiros.[6]
Esse é o que purvottanasana oferece&doa para o yogin assentado, com seus
significados&significações, no espaço interno&subjetivo,
mítico&místico, sagrado&divino do coração!
Agora, shavasana, um diálogo com a morte,
na forma de um relaxamento!
Abaixo, ilustro uma visão da sua posição
final.

Como assim? É que uma leitura sinaliza
para o crescimento; outra para o murchamento. Ou seja, o indivíduo&sujeito
pode enxergar sua existência de forma positivo ou negativa. Podemos, sobretudo,
devemos lutar para crescer, para evoluir! Vamos destrinchar essa ideia.
A única certeza que temos é a morte;
então, que possamos mentalizar&visualizar um futuro otimista. Ou seja,
devemos buscar&intentar um amanhã melhor, com saúde&sabedoria! Ou
podemos murchar&desanimar, o que obstaculiza&dificulta até a
autolembrança&autorrealização. Não podemos permitir que o tumor da
malignidade&lesividade prospere, o que, certamente, seria péssimo&ruim.
Portanto, na postura do cadáver podemos nascer novamente para a vida; assim
como devemos transcender da mortalidade para a imortalidade. A ideia é
construir uma boa morte, acumulando bons méritos; desfrutar de um bom futuro,
vivendo&morrendo bem. Podemos contar com Shiva nesse processo de dialogar
com a morte em shavasana. Especialmente com Shiva, em sua
benignidade&magnificência, despertando as forças&poderes Dele dentro de
nós, que podem ser controladas em nosso benefício&proveito. As forças fora
de nós não podem ser controladas, e podem nos destruir.
Há, ainda, para explorar esta temática&tema,
o famoso diálogo da Katha Upanishad, na conversa de Nachiketas com Yama, o deus
da morte. Nele é revelado o segredo da morte, que também se apresenta com dois
caminhos: um é o supremo, o caminho da felicidade, da sabedoria, da
imortalidade, etecetera; outro é o da escravidão aos desejos, via desfrute dos
prazeres finitos&temporários, com presença da ignorância, que leva às
mortes sucessivas&intermináveis. Há uma passagem
esclarecedora&iluminadora: aquele que pensa que mata, se engana; aquele que
pensa que morre, se engana; porque&pois o Atman é imortal; é Luz Eterna! É
o Eu dentro do coração, maior do que o maior e menor do que o menor! Portanto,
a opção deve ser clara pela liberação&libertação, por moksha! Assentado, o
yogin vai a todos os lugares; deitado, em shavasana, o yogin percorre o mundo
inteiro! Isso é autorrealização&autolembrança com Atman, que é OM, que
vibra em&por todo o universo, com a dança de Shiva!
Já que citamos OM, podemos afiançar, que
em shavasana, superamos dualidades: ignorância versus sabedoria, leveza versus
peso; crescimento versus recolhimento, etecetera. Visualizando um yantra
expressando dualidades, podemos perceber que quanto mais miramos o centro mais
de amplia as coisas&eventos contrários&opostos, e, ao contrário, quanto
mais nos afastamos mais nos aproximamos do bindu. Shavasana, desta forma, é um
ásana importante, na medida em que podemos transcender a morte, em processo de
autotransformação, viabilizando&alcançando o melhor, como morrer para
nascer livre das limitações dos pares de opostos. E isso acontece no espaço
interno&subjetivo, quando optamos sermos eternos&imortais que já somos,
ao invés de nos impor limites.
Shavasana, assim, é uma trilha de
libertação! Para se obter liberdade é preciso, simbolicamente, morrer, para
soltar as amarras e viver a Verdade, com sabedoria&autoconhecimento,
superando a ignorância lastreada pela mentira&falsidade, mas para além do
Dharma&adharma. É o encontro com a autenticidade, a marca registrada da
nossa natureza autêntica&original. Objetivamente, viver com
coerência&sinceridade.
Assentados na posição final de shavasana,
absolutamente relaxados, podemos visitar todos esses
significados&significações no espaço mítico&místico&mágico do
coração!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] No
segundo projeto editorial que produzi com base nos cursos do professor Carlos
Eduardo, de louvores&oferendas&petições, na forma de meditação em hinos
do Rigveda, aloquei Indra no Norte, junto com Kali. E deixei, no Leste Surya&Durga,
que tem me trazido conforto&estabilidade. Esse arranjo&disposição
surgiu da incapacidade&incompetência deste autor de
caracterizar&descrever os atributos&hinos em homenagem ao deus Kubera,
que, por pressuposto, não criou aversão, muito menos me incriminou. Kubera é o
deus da riqueza. Então, adotei moksha como o maior tesouro, sob a proteção de
Indra, rumo ao Norte, num futuro próximo, ainda nesta existência, se assim o
Universo&Infinito permitirem!
[5] Tat Savitur
varenyam, bhargo devasya dhimahi, dhiyo yo nah prachodayat!
[6] Os oito
poderes de Shiva são: de redução do tamanho do corpo; de expandir o corpo; de
se tornar pesado; de se tornar leve; de acessar&obter qualquer lugar&objeto;
de realizar qualquer desejo; sobre a criação&destruição; e, controlar&submeter
seres&coisas.