Agora é tempo de Yoga VII[1]
Grupo
de Posturas Nobres, de Meditação.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
Para albergar esse grupo de ásanas, vou
sintetizar a preleção do professor Carlos Eduardo intitulada “o que é um
mito?”. Já que estamos registrando marcos mitológicos, para acolher os
significados&significações para assentamentos no espaço
interno&subjetivo, acredito que seja uma boa ideia essa elucidação. Além
disso, nada mais coerente selecionar posturas de meditação, entendidas aqui
como nobres, na medida em constituem as excelentes plataformas para a revelação
do si mesmo, já disponível em tudo e em todos. Exploremos três, embora haja
outras: padmasana, a mais antiga delas, svastikasana, a postura que aponta para
Surya, e siddhasana em combinação com muktasana, que sinaliza a perfeição para
o espírito livre.[4]
Então, o que é o mito? O mito, no
hinduísmo, não é uma mentira, como é visto&entendido no ocidente. Estudar
mitos aponta para uma perspectiva de relatos históricos, numa outra dimensão.
Podemos, e aqui devemos entender que mitos são narrativas adotadas como
verdade. Eles conduzem a mente, que gosta de ser conduzida, quando se
perde&isola do peso da responsabilidade. Mas, espera aí? Como é essa
dimensão da verdade sem responsabilidade? É que o mito arrasta&assopra uma
ancestralidade, uma herança ancestral. Por que não podemos acreditar que o
organizador do Yoga, Patanjali, nasceu de um raio emanado de ananta, a serpente
infinita, manifestado já com 8 anos, filho de uma mãe de oitenta anos?[5] O
fato de não vermos&enxergarmos o mundo invisível não significa que ele não
exista.
As narrativas especiais dos épicos dão
estatura identitária a uma nação, que oferece substrato existencial a um povo. As
narrativas derivam&fluem com linguagem do coração, habitat do Absoluto,
enquanto Atman, que é idêntico a Brahman. Elas são contadas&comentadas por
sábios poetas hindus; e a poesia é a expressão da sabedoria, que lastreia o
autoconhecimento. Num sentido contrário, num outro sentido, os relatos de
jornalistas&cientistas não constituem a base dos mitos, não é verdadeiro,
pois estão estruturados numa perspectiva impermanente&temporária, de
finitude. A concepção hindu do mito é verdadeira, na medida em que superam a
dualidade irreal versus real; transcendem, até mesmo, o Dharma&adharma.
Esses relatos poéticos ultrapassam as barreiras do tempo&espaço,
configurando lastro para a Realidade. Simplesmente, mergulham na imensidão do
Infinito, do Eterno, do Absoluto, enfim. O relato fiel do coração é a matéria
prima dos mitos! Representam o peso&força da natureza mítica&mística.
A Mandukya Upanishad ensina sobre o OM,
apontando para os três “eu’s” que residem dentro de nós. Esse ensinamento já
foi abordado lá atrás, inclusive, mais de uma vez; e nunca é demais repeti-lo. Há
um “eu” no corpo, presente no estado de vigília; há outro na mente, no estado
de sonhos; e há o terceiro no coração, configurando a inconsciente e apontando
para o sono sem sonhos. Sabemos que o Quarto é Atman! E que o alinhamento dos
três “eu’s” oportuniza&viabiliza o desvelamento&revelação do Atman.
Então, para tanto, a inconsciência não é ignorância, mas, alberga, sobretudo, a
intuição mergulhada na sabedoria e lastreada na Verdade. As trevas da
dicotomia&dualidade escuridão&luz não é ignorância. É o espaço
Infinito, Absoluto. De lá brota o instantâneo&espontâneo, fluindo pelo
inconsciente na forma de mitos. É a linguagem da intuição, do inconsciente para
o instantâneo. É que no inconsciente estão guardadas as grandes forças da
natureza, os arquétipos, as experiências do viver, as existências.
Portanto, é preciso dar voz aos mitos,
pois é a voz do coração! Devemos permitir que a sabedoria se manifeste, se
expresse. Essa é a essência que buscamos quando analisamos os
significados&significações presentes nos ásanas/posturas. Ou seja, devemos
aprofundar nos significados&significados durante a prática. O espaço
interno&subjetivo do coração é o assentamento perfeito para a mente servir
de ponte o alinhamento com o corpo, quando os três “eu’s” se ajustam.
Agora, padmasana, o mais antigo dos
ásanas!
Na realidade, além do mais antigo,
padmasana é o ásana/postura comum aos grandes clássicos do Hatha Yoga: Gheranda
Samhita, Goraksha Shataka, Hatha Yoga Pradipika e Siva Samhita. Fiz esse
levantamento na reflexão intitulada Posturas do Hatha Yoga que Curam Doenças e
Enfermidades! Ela está inserida na brochura Sínteses de Oito Upanishads: uma
visão do que elas ensinam sobre o Yoga, na forma de Apêndice, publicada em
2016, na plataforma www.clubedeautores.com.br
. O padmasana, portanto, cura todas as doenças&enfermidades!
Vamos a ela!
Ela, a posição final dela mais clássica,
representa o lótus, que é uma flor se abre com a luz do sol e se fecha com a
escuridão. Possui várias mitologias que, iconograficamente, simbolizam o
assento para a divindade. O lótus possui outras denominações, como kamalasana.
Mas, por que padmasana? Qual a razão? É que a raiz sânscrita pad
significa cair, estando associada a água, que é o inverso do fogo, que eleva. A
interpolação moderna, ocidental, que o lótus nasce do lodo e procura a luz não
corresponde à cultura hindu. A visão mítica correta é que ela, a flor de lótus,
nasce da água, estabelecendo uma conexão com o mundo do ar, que
aparta&conduz o Prana. Assim, em complemento, há o mundo submerso, que é
correlato, simbolicamente, ao inconsciente, onde jaz o
secreto&oculto&espiritual. O lótus transmite bençãos! A água, na forma
dos rios, que são sagrados, representam deusas e são veículos da manifestação
da espiritualidade; por isso trazem a graça!
Já padma/padam representa passos da
caminhada, e palavras, como passos do discurso. Brahma, que possui o poder da
palavra&discurso, é assentado no padma/lótus, porque representa,
exatamente, a palavra.
Há um mantra tibetano, já citado
anteriormente, que estabelece conexão com essa flor, na forma de joia do lótus:
OM MANI PADME HUM! Padme é, exatamente, a joia do lótus! É a joia da
preciosidade da palavra, que aponta para a poesia, na expressão dos ensinamentos
dos sábios. É a manifestação divina do bem. O mantra expressa a
compaixão&sabedoria de Buda por¶ todos os seres.
Podemos, ainda, correlacionar o lótus como
o assento do Guru, de Shiva no coração, fluindo com perfeição&plenitude.
Sabemos que Isvara, o comandante do Universo habita nosso coração. Isvara
acolhe&abraça Shiva&Shakti, assentados no coração. Guru, na realidade,
é uma palavra criadora, que vem da raiz ga de Ganesha. Seguem à ga,
ainda, três sílabas sânscritas: ma − pa – da, que formam
padma, de forma aleatória, mas que tem a ver com a expressão do mantra em
sânscrito. É a expressão primordial dos mantras, versos&hinos do Rigveda,
apontando para a integração dos três universos: terra + atmosfera + céu.
Portanto, a flor de lótus está eivada de
magia tântrica, representando a força da expressão, na forma do ekagrata, a
atenção num ponto só. Devemos nos fechar no Eu, assentado no coração, sobre o
lótus, com esses significados&significações em mente. Esse processo, esse
assentamento se sustentam com a palavra, com a Verdade!
Vejam, abaixo a sua variação mais
clássica.

Agora, siddhasana&muktasana, a postura
perfeita e a do espírito liberto, que se somam, sinergicamente!
Vejam, abaixo a ilustração de uma variação
da postura perfeita, ardhasiddhasana; e uma de muktasana,[6]
respectivamente.
Dissemos, no introito deste capítulo, que
siddhasana faz um par perfeito, mitologicamente falando, com muktasana. Por
quê? Porque o yogin perfeito é um yogin livre; e a liberdade é a perfeição! Mas
calma, vamos acompanhar o destrinchar dos marcos mitológicos, daí você faz as
aproximações sinérgicas dos dois ásanas, por sua própria conta, apesar dos
apontamentos.
Sobre siddhasana começamos por definir sadh,
que significa completo, perfeito. Siddhasana é também um mudrá, que representa
uma espécie da assinatura. Trata-se de uma manifestação autêntica que permite
estabelecer a identidade espiritual. E daí? É um tipo de personagem, num
assento de alguém humano, mas, também, não-humano. Um siddha! Nascemos adhara,
um papel em branco onde escrevemos a nossa história. Um siddha escreve! Nossa
história se faz perfeita quando resta associada ao Dharma. Os siddhas são
pessoas perfeitas, sendo elas mesmas. Ou seja, nosso svrupa precisa se
manifestar na forma do svadharma. Ao mesmo tempo, os siddhas, originalmente,
são pessoas simples, que adotam uma obsessão especial: criar um foco, para
atrair um guru, visando alcançar a perfeição. Desta forma, são seres humanos
que alcançam a perfeição, que aponta para um estado de integração, de união,
onde nenhum elemento da natureza os fere, não os machuca. São pessoas
coerentes, protegidos pela intocabilidade; não são contraditados pelas forças
da natureza, mas, ao contrário, são ajudadas por elas. Enfim, são pessoas de
alcance incomensurável, no contexto espiritual.
Sobre muktasana começamos afirmando que
representa o objetivo supremo do yogin, vale dizer alcançar a liberdade plena
do espírito. Mas, espera aí! Se libertar de quê, do quê? Se libertar do
samsara, entendido&definido como o ciclo interminável de renascimento, por
meio de moksha. O liberto em vida se torna uma pessoa importante, pois arrasta
seus discípulos para a libertação&liberação, fazendo-os revelarem o
autoconhecimento já presente&disponível em cada jivatma. A libertação está
ao alcance de todos! Isto é muito importante afirmar&reafirmar
contínua&permanentemente.
O rio Ganges é uma energia libertadora, na
medida em que as águas purificam o espírito. Liberta-se das impurezas! Já a
Hatha Yoga Pradipika ensina que é o Prana que purifica. Muktasana busca nossa
natureza original&genuína; nossa vocação. O mukta olha apenas para a
frente, sem expectativas&esperanças, e se liberta do passado, tanto das
coisas quanto das pessoas.
A proposta&pergunta final&definitiva
é: vamos nos libertar!? Aqui&agora! Neste instante; neste momento!
Siddhasana&muktasana estão aguardando para nos ajudar a conduzir&levar
seus significados&significações para assentamento no espaço
interno&subjetivo, para a autorrealização com perfeição&liberdade!
Agora, svastikasana, o ásana da swastika!
Swastika é um símbolo hindu muito antigo,
desde antes de era moderna. Na realidade, antiguíssimo, presente no planeta há
5000 ou mesmo 6000 anos atrás. E ele aponta para a divindade que há por detrás
de Surya (Sol)![7]
É um símbolo auspicioso; de felicidade, de bem-estar, de prosperidade e aponta,
sobretudo, para a elevação espiritual. Seu ásana, por sua vez, representa
benignidade. É utilizado, basicamente, para meditação (dharana&dhyana), e,
eventualmente, para respiratórios (pranayama),
Há muitas teses envolvendo este símbolo
poderoso&sagrado. Contudo, certamente, é muito importante para a prática de
Yoga. Porém, o significado original não é sabido&conhecido. Pensa-se sobre
o representar o emblema da órbita solar, da reprodução do movimento solar, ou
mesmo, de um mito solar. Há quem discorde, em torno de outras leituras. No
entanto, o fato é que, na tradição hindu. Representa o equilíbrio dinâmico, em
função de que, talvez, porque o Universo está, permanentemente, em movimento
equilibrado, quer de expansão quer de contração, considerando as fim&início
das yugas: satya, treta, dwapara e kali. Nos encontramos em kaliyuga, predominando
o mal, apesar da existência do bem.
Nesta abordagem, a swastika representa
quatro grandes elementos: água, fogo, terra e ar; girando em torno do quinto,
que é o espaço, espaço mítico de onde surge o Universo. Neste sentido, a
swastika representa, também, as 4 direções naturais&básicas desse espaço
mítico. A iconografia da swastika para a direita ou esquerda é uma grande
bobagem, na medida que pouco importa o sentido, isto é, tanto faz como tanto
fez. Ou seja, é um símbolo auspicioso em qualquer direção; em qualquer uma há
formação&integração das forças&poderes naturais; da natureza.
Quando o praticamos svatikasana, podemos
criar, na mente, o espaço mítico, para dar voz&foro ao coração. Aí é que
está o mágico&tântrico da hathayoga! E devemos conferir atributos de
significados&significações benignos&auspiciosos, ocultos&protegidos
às forças alheias&contrárias à nossa natureza, que tanto
interferem&obstaculizam as nossas existências. Para tanto, devemos
ratificar&reforçar, permanentemente, a essência do Yoga, que é
descobrir&revelar a nossa verdadeira natureza e colocá-la em&na
jogo&dança de forma mais autêntica&original possível.
Vejam, abaixo, uma ilustração da posição
final da svastikasana.

[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] Outros
ásanas de meditação seriam a sukhasana (postura fácil), além da vajrasana, já
abordada anteriormente. Na realidade, observe-se que todo ásana/postura é,
preferencialmente, de meditação, por meio de seus
significados&significações, enquanto objetos de concentração, conforme
estamos registrando.
[5] Vejam o
nascimento de Jesus, filho de Maria, imaculada, que oferece base ao
cristianismo; ou mesmo de Padmasambava, que nasceu com 8 anos numa flor de
lotus, que sustenta o budismo tibetano!
[6]
Acredito que as posturas nobres de meditação se diferenciam, fundamentalmente,
quanto a posição dos pés&pernas. Observe que em padmasana os dorsos dos pés
repousam nas coxas; que em siddhasana os pés restam entre as panturrilhas e
coxas; que em muktasana os tornozelos de aproximam da região pélvica; e que em
svastikasana os dorsos dos pés se assentam na panturrilha. Todos exigem o
máximo de flexibilidade; quando não é possível ajustar as duas pernas&pés,
chamam-se de meia (ardha) postura. Em geral, uso nas práticas pessoais
ardhapadmasana, e, ainda, com ajuda de duas almofadas, já desgastadas pelo
tempo de uso, e um tijolinho de cortiça, para evitar que o joelho, afastado do
tapetinho, fique em balanço.
[7] OM SUM
SURAYA MANAH! OM JAYA SURYA MANAH! OM SUM SURAYA MANAH!

