20/03/2014

SOBRE MINHA PARTICIPAÇÃO NA GREVE DA SUFRAMA


Minha Primeira Greve: emoções & tensões



Fevereiro de 2014. Historicamente um mês de festas e comemorações para a Suframa e o Projeto ZFM, doravante, simplesmente ZFM. A ZFM, na sua configuração atual, pro e pós 1964, tem sua data de criação em 28.2.1967. Contudo, neste ano, algo inovador ocorreu. A minha primeira greve foi experimentada. Uma experiência que trouxe emoções e tensões. A principal emoção foi cantar o Hino Nacional, no dia do aniversário da ZFM, no QG da greve. As tensões serão relatadas a seguir. E são naturais do processo social, especialmente quando se adota a autoridade, quer seja política, econômica, religiosa ou institucional, como algo nefasto entre os homens. Não é trivial viver em autogestão. Essa é outra história. Vamos à crônica.



A ZFM recrutou, recentemente, uma galerinha corajosa e competente. Essa turma literalmente tomou o poder no Sindicato dos Servidores da Suframa [Sindframa], cujo perfil não era de batalhas, muito menos de guerra. Além do Sindframa, essa galerinha levantou a poeira no chão institucional. Ainda que aqui acolá possamos, e até mesmo devamos questionar alguns entendimentos e métodos, o resultado é sempre positivo, pois contribui para uma nova ordem de valores e poder.



Pronto. Estavam estabelecidas as condições objetivas para a deflagração da primeira greve institucional com efeitos reais junto aos clientes e fornecedores da ZFM. A motivação central está espaldada na melhoria salarial. Mas, adicionada de outras demandas, quais: melhor estruturação das unidades descentralizadas; o descontingenciamento dos recursos orçamentários e uma governança local da gestão do PPB [Processo Produtivo Básico]. Esteve também presente questões mais práticas como a disponibilização de serviços de restaurante.



Segundo depoimento do líder do comando do QG do movimento, em nenhum momento a Administração chamou para a mesa de negociação. Aqui começa uma tática de tergiversações entre a liderança e a base de apoio, segundo a minha percepção. Para tanto, reproduzimos trechos de e-mails do Superintendente onde consta esse chamamento, aberto num canal permanente de negociações:



Do primeiro, no dia da deflagração, 19.2.2014:


“... não abrimos mão do diálogo, tanto com os representantes dos servidores quanto com o Ministério do Planejamento, responsável pela política salarial do Governo Federal. Continuaremos nesse caminho.”

Do segundo, de 26.2.2014:



   “... Desde que assumimos a direção da SUFRAMA       verificamos a realidade da defasagem salarial na       Instituição e incluímos o tema em todas nossas       manifestações públicas e planos de trabalho. A demora      na solução, que não depende diretamente da       Superintendência, levou à greve. Sempre mantivemos o      diálogo, inclusive discutindo a proposta dos servidores      com o Ministério do Planejamento, e continuaremos      nesse caminho.”
Do terceiro, no mesmo dia 26 de fevereiro:

“... Vamos dialogar.”

Portanto, estava aberta a possibilidade de uma relação ganha-ganha, de uma tática para uma saída honrosa frente ao poder de império do Estado, de um recuo estratégico frente ao ano eleitoral. Se fosse necessário. Para tanto, dever-se-ia identificar o momento prévio de uma relação custo/benefício negativa. Mas, e é isso que gostaria de destacar, o egotismo subiu à mente da liderança do movimento, quando se ouvia declarações para a base de apoio: “quem está mandando na ZFM somos nós!”. Ouvi a liderança dizer, numa outra comunicação, que “após duas horas de conversa [com a administração], só blá, blá, blá. A greve continua, companheiros!”. Ora, ora. Essa postura não é aceitável; não é admissível. A liderança não pode decidir sozinha; antes deve discutir com a base de apoio. Deve, para tanto, relatar todos os pontos abordados no diálogo com a administração que tangenciam as reivindicações, no sentido de se identificar eventuais pontos convergentes, passíveis de se realizar a relação ganha-ganha, de se realizar uma relação custo/benefício positiva. Não obstante, nem mesmo houve uma preocupação de formalizar as reivindicações, considerando que tudo no setor público ganha dinâmica com um processo administrativo. Infelizmente, a tática me parece ser aleatória, na marra, com a foice e o martelo.



Desde o primeiro momento, prestei meu apoio ao movimento, estando presente manhã e tarde, todos os dias entre 19.2.2014 e 7.3.2014. Não tirei de férias. Não entrava no chão institucional para trabalhar. É claro que havia constrangimento face a essa necessidade, considerando os 55 anos de idade e os 30 anos de atividades na ZFM. Mas estive presente, até o dia em que me declarei fora da greve, em 7.3.2014 à tarde. Até mesmo no período de carnaval, que estive fora de Manaus, o fiz entre a sexta feira à noite e a madrugada da quarta-feira de cinzas, isto é, estive presente da sexta-feira, dia 28.2, pela manhã e pela tarde, e na quarta-feira, dia 5.3, à tarde.



E mais do que isto, estive presente analisando o discurso e a prática da liderança do movimento. Propondo visões alternativas e pontos a serem observados. Cheguei, inclusive, a fazer sugestões junto a apresentação elaborada para discutir na Audiência Pública da ALEAM. Até mesmo me propus a defender a lógica virtuosa que deveria haver entre o Decreto-lei 288, a Lei da TSA e os sucessivos planos estratégicos aprovados pelo CAS, no quesito do contingenciamento da ZFM, que deveria estar vertida ao autodesenvolvimento. Enfim, estive atento.



Essa atenção identificou um discurso vazio da liderança, quando se argumentou que ficar em casa levava a greve para a ilegalidade. Na verdade, leva ao enfraquecimento da greve. O que leva à ilegalidade é impedir o trabalho a quem deseja trabalhar. Pedi que se alterasse a base falsa desse argumento, mas fui informado, em tomo arrogante, que o movimento endureceria. Dito de forma vaidosa, perdi a motivação de continuar apoiando. Na realidade, não contive a tensão de combater tal autoritarismo. Assim, preferi sair antes dessa tática ser adotada, o que, felizmente, não aconteceu. Até aonde sei. Em contrapartida, a sugestão que dei, condicionante para me manter apoiando a greve, de que declarassem à sociedade que não estavam e que não usariam a tática de impedir o acesso ao trabalho não foi adotada, não foi formulada e publicada. Também até aonde sei.



Ao longo dos meus 30 anos de ZFM não me lembro que algo dessa magnitude tenha sido deflagrado. A liderança informou que nos primeiros dias 100% das unidades administrativas pararam. Nesse quesito, ancorei um dos pontos de meus questionamentos na medida em que se o direito à greve está consagrado, igualmente está consagrado o direito de ir e vir de todo cidadão. Houve sim, impedimentos e constrangimentos, ainda que no discurso se defendia a liberdade de todo associado. Prejuízos foram apurados. E aqui outro ponto de divergência, pois prejuízos econômicos não devem ser comemorados, mas lamentados. Sem falar que ouvia, constrangido, zombarias e gozações à pessoa do Superintendente. Discordei dessas posições, conforme e-mail onde comuniquei a saída do movimento.



Na realidade, até então não havia condições objetivas para um acontecimento grevista de impacto, uma vez que o Sindicato era fraco, frágil. As condições desfavoráveis envolvia elevado índice de terceirização da força de trabalho da ZFM, inclusive de alto nível. Sem falar que a elite de servidores, formadora de opinião e que conduzia a ZFM, estava capturada pela força dos cargos de confiança. Desde 1996, este próprio cronista era um deles, ainda que de nível operacional, não decisório. Houve época em que havia duplo salário, pago por dada Contratada, à boca pequena. Lembro desse boato, que correu no chão institucional. O procedimento foi suspendido quando descoberto e tornado eticamente insustentável. Então, não havia condições objetivas. Hoje há. Há a turma nova; a turma velha está se aposentando e o Contrato foi revisto.



Ademais, talvez, apenas talvez, a própria autoridade discricionária da ZFM, na qualidade de um ex-sindicalista, possa ter induzido e esteja conduzindo, sutil e subliminarmente, o movimento. Claro, a liderança do movimento não admite essa hipótese, essa possibilidade, pois que se enxerga, se vê autônoma, independente. Todavia, se esse surrealismo é factível, poder-se-ia ainda abstrair sobre a possibilidade de uma conspiração contra a instituição Suframa, que cuida da ZFM, face a inépcia e a inércia com que vem sendo administrada. Lembro que uma das teses iniciais da atual administração era passar o Distrito Agropecuário para o Estado do Amazonas; ao longo da gestão deixa cargos vagos importantes para uma saudável administração, além de não elaborar Termo de Referência, visando a substituição de prestador de serviços em área operacional letal para o funcionamento organizacional, estando nos planos administrativos licitação apenas para manipulação e uso de dados, que, todavia, exigirá tempo para assimilação – a Suframa literalmente poderá parar por falta de mecanismos operacionais; agora surge a posição judicial alternativa de passar a administração dos incentivos para outra instituição face à possibilidade do não cumprimento de 30% dos serviços de interesse da CIEAM. Ou seja, em vez de um decreto presidencial de um novo plano de cargos e salários, moderno e competitivo, devemos nos dar conta da possibilidade de um que pode, simplesmente, extinguir a Suframa. Essa me parece uma linha muito tênue definidora da fronteira negativa/positiva da relação custo/benefício da greve, que deveria ser levada em conta. Um paradoxo total considerando os recentes recrutamentos de força de trabalho, a esperada prorrogação e até mesmo da salvaguarda constitucional da ZFM. Mas tudo é possível frente ao poder de império do Estado. Não é razoável e aceitável que a sociedade não se posicione quanto a essa tendência de esvaziamento político-institucional da ZFM, especialmente os poderes executivos estadual e federal, que, em última análise, são os responsáveis pela indicação e manutenção da autoridade discricionária da ZFM. Mas sabem, com maestria, alterar a base doutrinária do STF, para minimizar os rumos penais do maior escândalo de corrupção política envolvendo o planalto, conhecido vulgarmente por mensalão. Ou talvez haja nesse processo algo semelhante a uma destruição criativa, mas que este cronista não consegue enxergar.



Mas, voltando ao mote da crônica em si. Penso que a liderança do SINDFRAMA tomou as providências de legalidade antes de desencadear o movimento, especialmente esgotando negociações preliminares e comunicando a realização da greve em si. Embora não tenha participado, realizou Assembleias de discussão e decisões. Até aquele momento depositava inteira confiança nos líderes e na nova direção do SINDFRAMA. Mas a liderança pecou com a busca, já dentro do movimento, de apoio por meio da força e não como fruto de um processo de sensibilização e conscientização. No primeiro dia, inclusive, houve incidentes de impedimento à entrada do trabalho. Um dos líderes disse que essa tática é normal, para que o movimento se instale, favoravelmente, por meio dos conflitos. Assenti, descordando. Pecou em não se posicionar humilde e de forma transparente. Humildade não significa fraqueza. E transparência não significa fragilidade.



Minha principal argumentação junto aos líderes e ao movimento em si foi no sentido de manter o movimento dentro da legalidade. E não só isso. Sugeri que se buscasse uma relação custo/benefício sempre positiva no desdobramento do processo de negociação, como disse acima, até aonde sei, não formalizado. Essa formalização foi sugerida por dois colegas durante o período desse relato. E adotada em minha posição, conforme se pode observar no conjunto de e-mails que enviei aos líderes, apenso.



Apesar disso, entendo que a liminar impetrada pela CIEAM, para resguardar os interesses de seus associados, endereçada à Suframa, e não de questionamento da legalidade e da legitimidade do movimento, foi conduzido com responsabilidade e prudência pelos líderes que ajudaram a Administração no atendimento da determinação judicial. A outra liminar, de Brasília, não chegou nem mesmo a ser cientificada, até aonde sei. E seria um tiro no pé, pois determinava a desocupação dos prédios. Ora, não há possibilidade de trabalho presencial sem a ocupação. Vide trecho específico de um e-mail abaixo. Argumentei uma dada situação de imprudência e irresponsabilidade, que deveria ser evitada, por apontar para um momento prévio a uma relação custo/benefício negativa, conforme também se pode perceber num dos e-mails anexados a esta crônica, qual seja a de que as firmas da ZFM começassem a demitir por falta de condições para a produção. Essa ideia não chegou nem mesmo a ser lembrada, quanto mais discutida.1



O movimento, até aonde sei, contou com o apoio do deputado estadual José Ricardo e da senadora Vanessa Graziotin, que se fizeram presente ao QG. A eles, igualmente, comuniquei a decisão de sair do movimento. Alguns dirão que amarelei. Pode ser. Mas, a consciência está tranquila. Evitei, sob o meu ponto de vista, a banalização e, sobretudo, a alienação. Na época da faculdade, os principais integrantes da elite local, que hoje exercem o poder político de Manaus, estiveram todos envolvidos em processos semelhantes. Tais movimentos, embora sirvam ao coletivo, ao fim e ao cabo, trazem oportunidades individuais. O sistema chama os líderes, que se credenciam para novas batalhas, forjando uma trajetória pessoal. Nesse particular, também havia aqueles que, nascidos em “berço de ouro”, já dispunham de um projeto político a ser executado. E o foi com sucesso. Em ambos os casos, mandatos de vereador, deputados estadual e federal, senador da Republica, prefeito e governador foram conquistados. Pois bem, naquela época, idos do início dos anos 1980, a turma das engenharias civil e elétrica eram consideradas de direita, na medida em que desejam se formar e entrar no mercado de trabalho. Mesmo constrangidos, permanecíamos em sala de aula. Como hoje a lógica é estar à frente, sugeri a estratégia do ganha-ganha, não adotada pelos líderes do movimento hodierno na ZFM. Em verdade, desprezada. Registro que sai do movimento sem ter qualquer informação sobre o desdobramento da aproximação de Samuel Hannan, que se disponibilizou em ajudar no diálogo com o governo. O ex-vice-governador e ex-secretário de fazenda teve uma relação amistosa e positiva com a atual autoridade máxima da ZFM, como já dito, um ex-sindicalista. Enfim, a comunicação da liderança da greve com a sua base de apoio, no período em que estive presente, foi frágil e falha, no meu entender.



Março de 2014. Saio da greve na medida em que percebi, claramente, uma postura de arrogância da liderança do movimento. Comuniquei a decisão ao QG da greve na sexta-feira dia 7.3.2014 à tarde, como já dito, e ao chão institucional em seguida, conforme se pode observar no último e-mail apensado a esta crônica. Voltei ao posto de trabalho. Todavia, continuo subaproveitado, apenas cumprindo tabela até a reserva. Mas essa é outra história, que o futuro julgará. No entanto, registro que o movimento era necessário, pois que uma justa remuneração está longe do ideal.



No meu caso particular, considerando a atual plano de cargos e salários, mesmo estando já no último nível, se me aposentasse agora, pois já com tempo de contribuição, ainda que sem idade necessária, quando se perde entre 30% a 40% da remuneração da ativa, recheada de gratificações que não são permanentes, sairia para a reserva com pouco mais do que um salário-mínimo de engenheiro, o que, efetivamente, não é justo após mais de 35 anos de contribuição para o Estado brasileiro, ou 38 anos como a regra exigirá. E justamente quando mais precisamos em função da falência e decadência da forma ordinária, frente a possíveis despesas com médicos e remédios, quando a hora era de viajar, viajar e viajar. Sempre disse aos meus alunos: se desejam muito dinheiro, vão para o mercado empreender e acumular. Mas, minha opção foi servir a sociedade. Então, sou homem de uma casa, um carro, uma conta bancária. Até mesmo um segundo emprego, de professor universitário, exercido por uma década no turno da noite, abri mão em prol de um caminho espiritual por meio do Yoga.



Mas, finalizando junto ao mote central da crônica. Esta crônica foi escrita e socializada ao chão institucional no dia 14.3.2014. Uma semana depois da decisão de sair da greve! Não obstante, uma segunda versão emergiu após novas emoções e tensões lembradas durante o final e início da semana, inclusive com amigos e colegas do chão institucional, a qual será apensada no site e no blog deste cronista em 18.3.2014. Parece que o movimento está firme e que já houve desdobramentos positivos com o apoio político recebido, inclusive de outros parlamentares. Sempre há colegas em postos chaves no chão institucional que contam com apoio de político importantes. É de praxe. Faz parte do jogo. É assim que a coisa funciona... Na realidade, o cenário ora está favorável ora desfavorável. Essa inconstância, assim como a impermanência das coisas, faz parte do jogo. Ainda assim, finalizo não sem antes tirar o chapéu para essa galerinha corajosa e competente, que tomou o poder na ZFM. Ela assumirá a responsabilidade de fazer mais e melhor do que a turma que está saindo fez. Ir além da atração de investimentos, lutar não só para consolidar o PIM, mas para fazer emergir firmas com capital e tecnologia locais, adotando como meta e desafio a inserção delas no jogo do sistema global de inovação.




Anexos

[E-mails enviados por este cronista ao QG da greve, respectivamente, nos dias 26, 27 e 28.2 e 5, 6, 7 e 8.3.2014. Este último, inclusive, ao chão institucional]





Caríssimos

Quero aproveitar o e-mail do João Paulo para dizer que entendo a expressão do Sidney "nunca jamais" forte demais dada que foi durante as explicações do Anderson sobre a liminar Manaus CIEAM

Isto posto lhes asseguro que não contem com o meu apoio caso a greve seja declarada ilegal

Adicionalmente sugiro que comecem a pensar na relação custo/benefício caso ela prolongue por demais mesmo que continue sendo considerada legal. Por exemplo caso as empresas comecem a demitir por falta de insumos para a produção

Caso entendam que esse comentário deva ser dado em alguma assembleia estou disponível para defendê-lo

SempreLuz! Antônio José

Ps. Agradeço o envio da liminar. Muito apreciaria o envio da liminar de Brasília



Caríssimo Anderson
Parabenizo-o por adicionar ao seu discurso a preocupação com a legalidade oferecendo a proteção necessária aos servidores
Por oportuno aproveitando sua sensibilidade sugiro que comece a pensar numa saída honrosa num recuo estratégico caso a relação custo/benefício se torne imprudente e irresponsável
Busque uma relação ganha-ganha mesmo considerando o insucesso e ganhemos tempo para uma segunda rodada lá na frente colhendo compromissos para a resolução dos itens da pauta caso não tenhamos ganhos imediatos
Não saia com uma mão atrás outra na frente
Sobre a possibilidade criada com a ação do Samuel Hannan saiba que o Thomaz é pupilo dele isto é foi o vice governador e ex-secretário da fazenda estadual que trouxe o sindicalista para a administração
Na sua opinião há legalidade há legitimidade na presença do Hannan no processo estando ele sem cargo público ainda que seja um homem influente?
Veja não podemos dispensar qualquer ajuda mas me fiz essa pergunta ainda sem resposta
Sempre Luz! Antônio José



Caríssimos

Realmente a decisão de liminar de Brasília aponta para um contraditório

provavelmente não será entregue para cumprimento e nesse aspecto concordo com o Gaia

Mas se o for deveremos avaliar detidamente pois implicará num conflito

se se esvaziar os prédios ocupados estar-se-á descumprindo a decisão da liminar de manaus

Nessa hipótese poder-se-á estar migrando para uma condição de ilegalidade que devemos afastar

Por outro lado a liminar Brasília encerra uma esfera do poder judiciário superior ainda que trate de assunto diferenciado da de Manaus mas complementares à lógica da greve na medida em que uma trata da manutenção da posse de propriedades da autarquia e a outra de interesses empresariais

A desocupação no entendimento do Gaia poderá se efetivar adotando a interface do próprio movimento isto é o atendimento da liminar Manaus se dá no contexto da greve então seria legal cumprir a liminar Brasília

Não estou convencido se essa hipótese é responsável e prudente no sentido de manter o movimento a greve nos limites da legalidade

Talvez fosse possível uma contra liminar no sentido do interesse geral digo manutenção da legalidade da greve e do atendimento dos interesses econômicos dos associados do Cieam

O que estou convencido mesmo é a adoção de ambos os lados isto é tanto por parte da administração e quanto do QG da realização de um seminário de um workshop ou coisa que o valha para formular uma CARTA MANAUS PARA O PLANALTO sobre as questões da governança do PPB e sobre a aplicação dos recursos da Suframa em projetos de ampliação da competitividade sistêmica de manaus e demais locais da amoc + alcms

Encontrei ressonância positiva à ideia em dois pares mas um deles entende que a administração não aceitaria

tenho minhas dúvidas

bom carnaval

sempreLuz! antôniojose



Galerinha do QG da greve
Levei na brincadeira para não ampliar o estado de tensão menos e de indecisão mais que pintou hoje frente ao que fazer
Dentre as sugestões levada na brincadeira que foi posta me refiro a do guerreiro Sidnei que simplesmente sugeriu fechar a comporta de acesso aos postos de trabalho
Desejo adiantar minha decisão pessoal que se isso acontecer qual seja de que imediatamente declararei meu desapoio ao movimento grevista e retornarei ao posto de trabalho
Hoje fiquei com a sensação de que entramos numa inversão quanto a uma relação custo/benefício positiva apenas ressalvada pelo comentário do guerreiro João Paulo com o qual concordo de que quarta-feira a tarde de cinzas não é parâmetro para uma avaliação
Amanhã estarei presente atento sempre na perspectiva de uma posição prudente e responsável numa relação ganha-ganha
SempreLuz! Antônio José

Caríssimos
Sugiro adicionar o item PPB nas razões da greve já o tema aparece na apresentação
Coloco-me a disposição para dar uma palavrinha na palestra à altura do tema TSA para discursar sobre as atividades FINS que sugiro esteja em destaque VERDE em contraponto ao destaque vermelho das atividades meios
Se for autorizada a minha fala prometo não tomar o espaço da galerinha gente boa do QG da greve
Luz! Antônio José

Caríssimos
Adoto dois pontos que entendo fundamentais da fala do caríssimo Renato a quem parabenizo pelo contraditório quais sejam a questão do estabelecimento de um marco como ponto de partida da negociação e a da ilegalidade vis a vis presença dos servidores no movimento
Entendo superválida a colocação de se abrir um canal de comunicação formal e se a administração e por conseguinte o governo não se manifestam o movimento deve se manifestar
Mesmo que a tática jurídica não seja a mais adequada algo deverá ser estabelecido como um ponto de partida pois dentro do direito administrativo tudo se move tudo ganha dinâmica a partir de uma formalização
Coloquei o caríssimo William nesse e-mail porque nisso sei que ele concorda fruto de conversa paralela no espaço da mobilização
O segundo ponto que concordo com o Renato é no sentido de não usarmos elementos falsos no discurso da Galerinha do QG da greve isto é colocar apenas os pontos reais que podem juridicamente nos afastar da legalidade
Neste sentido já sabemos que a administração tem pelo menos dois fatos que poderiam ser utilizados numa liminar contrária aos interesses do movimento e o fato de não utilizá-los foi o motivo que perguntei ao caríssimo Anderson se o poderoso Thomaz estaria do nosso lado
Penso que a aliança e o apoio da Vanessa é importante mas não esqueçam que ela é chapa branca e por favor não permitam a politização partidária do movimento
Guardei até pouco tempo um trabalho que fiz de análise de discurso numa pós de ciência política onde analisei a presença na mídia da então vereadora e é curioso constatar a mudança do conteúdo programático quando se fez governo
Já pedi ao caríssimo Gaia que não utilize pelo menos comigo os chavões da foice & martelo que embalam o palanque pcdobquiano
Com a legalidade mantida vamos em frente e por oportuno peço que não façam constrangimento a quem se manifesta em contradição ao posicionamento e ao discurso do QG pois esse embate é importante não só como canal de comunicação entre o comando e a base de apoio mas para filtrarmos os argumentos que são colocados de ambos os lados da administração e do QG na mesa de negociação
Estou alerta ainda que como um ex anarquista covarde e estarei presente enquanto o movimento for legal pois de nada adiantará a legitimidade sem o aval da sociedade
SempreLuz! Antônio José

Caríssimos
Apoiei o movimento grevista desde seu início
Durante seu desdobramento procurei estabelecer com seus líderes um diálogo no sentido
1. Da manutenção da sua legalidade
2. De uma relação custo / benefício positiva
3. De uma racionalizada vertida a uma formalização (essa sugerida pelo William e pelo Renato e adotada como complementar ao item 2)
Porém hoje o diálogo com seus líderes se fechou quando ao pedir que ajustasse o discurso fui informado de forma arrogante que a greve endureceria o jogo
Como já havia sinalizado que sairia da greve a qualquer sinal de ilegalidade tomo a decisão que socializo
Entendo que a tática do endurecimento converge para a ilegalidade na medida em que agirão para impedir que haja trabalho fora do contexto liminar isto é dentro do direito de cada um trabalhar segundo sua vontade e consciência
Não há abertura para um diálogo transparente e fraterno entre a cúpula do movimento e sua base de apoio
Suspeito que haja desinformação quanto às formas e conteúdos das negociações entre a administração e os líderes
Há constrangimento quando colegas se manifestam contrariamente ao entendimento dos líderes
Entendo que os prejuízos econômicos não devem ser festejados mas lamentados
Entendo que a pessoa do Thomaz não deva ser ofendida mas respeitada
Minha posição é pessoal e libertária
Não desejo apoio de ninguém nem que me sigam
Não tomo a decisão em prol da administração muito menos pelo governo
Infelizmente considero a atual administração estrategicamente frágil operacionalmente indiferente e administrativamente indecisa sendo seus fatos e eventos concernentes facilmente observáveis no chão institucional
Quanto ao governo entendo que deveria ser alvo de alternância de poder
Só há uma alternativa de voltar a apoiar o movimento a greve que seria uma declaração de seus líderes publicada ao público à sociedade de que respeitarão a vontade livre de trabalhar de qualquer colega que seja em qualquer coordenação que seja
Como entendem que dominam a verdade absoluta essa atitude não faz parte da tática pelo que decido que segunda-feira retornarei ao meu atual posto de trabalho
Adianto que esta decisão não almeja cargos até porque ainda espero um pedido de desculpas do superintendente por ter deixado este servidor exilado por 45 dias na biblioteca em desrespeito moral à sua experiência e conhecimento acumulados ao longo de 30 a serviço do projeto ZFM
Sempre Luz! Antônio José
Ps. Peço que essa manifestação seja socializada ao grupo Suframa SEM CENSURA



1 Mal baratando, seria como se a greve recente dos garis, no Rio de Janeiro, sem acordo, provocasse mais e maiores doenças aos seus munícipes, piorando a já não sadia qualidade vida da periferia.

02/01/2014

CRÔNICA DE UMA VIAGEM

À sombra do Tio Sam: impressões sobre o passado, evidências do presente e perspectivas para o futuro

Falo especificamente da visita que fiz, sozinho, à Havana e Varadero, em Cuba, e à capital panamenha, agora em dezembro. Basicamente, foram dois úteis em cada cidade: 6 e 7, na capital cubana; 9 e 10, na cidade veraneio cubana; e 12 e 13, na Cidade del Panamá. Corre o ano de 2014 da era cristã.

De plano, registro que, para escrever essa crônica, além das impressões, evidências e perspectivas colhidas in loco, não só decorrente da observação direta, mas resultante de diálogos com motoristas de táxi, condutores de charretes, balconistas de hotéis, vendedores de lojas e livreiros, li e revisitei a publicação CUBA, da Folha de São Paulo, de 2009, a CONSTITUCIÓN DE LA REPÚBLICA DE CUBA, da Editora Política / La Havana, de 2013, e uma revista de turismo oficial do Governo do Panamá. Claro, impressões, evidências e perspectivas albergadas pelo filtro da história acumulada nos 54 anos desta forma ordinária, aqui com destaque para o atributo anarco-burguês sob o manto ióguico, a partir da consciência de que a verdadeira liberdade secular é impossível sob o exercício de toda e qualquer autoridade política e da possibilidade de uma consciência associada a uma Solução Última autocontida e ao mesmo tempo vertida numa Realidade Absoluta transcendente e ao mesmo tempo imanente à dualidade representada pelas manifestações cósmicas caracterizadas pela impermanência das coisas e dos fatos, os quais, consignados nos espaços-tempos históricos, tornam-se vazios e pequenos juntos ao poder e à potência do aqui e do agora.

Havana é um mundo apartado do mundo que conhecemos. Em linhas gerais, o povo até que é alegre, mas sente-se nele o desejo da ambição, o desejo de consumir. O que é da natureza do homem, considerando seu atual estágio de evolução espiritual. Dois motoristas reclamaram comigo que não recebem pelo que trabalhavam. Ou seja, o mundo liberal não tardará, na minha opinião, a tomar conta desse território, como já o fez com a ex-URSS e está fazendo com China, por exemplo. Estou convencido que o Ser articula permanentemente a lógica da competição e da acumulação como ferramenta do jogo cósmico, lastreado pela lei de causa e efeito, convergente com a atual evolução espiritual da humanidade.

Ao passear a pé, observamos que os prédios e carros caindo anos pedaços convivem na ordem de 80% contra 20% de modernidade. No centro histórico, quase fui devorado pelos prestadores de serviços turísticos. Parede a postura dos vendedores ambulantes de Fortaleza, assediando os turistas nas praias e passeios públicos, oferecendo redes e rendas cearenses. Em ambos, predomina a necessidade por uma melhor qualidade de vida. O carro que me levou do aeroporto para o hotel, também caindo aos pedaços, desligava toda vez que parava num sinal. Mas o motorista foi supergentil ao me abordar logo na saída da sala de desembarque, me levando para fazer câmbio de dólares em CUC, moeda cubana para turista, numa relação vantajosa para a economia, portanto, sem lastro econômico para valer mais do que a moeda global. No caminho para o hotel ofereceu várias vezes uma chica para animar o passeio, artimanha adotada por quase todos que operam na área turística. Houve um gaiato que, frente a minha resistência, ofereceu um chico. Relevei.

O hotel sugere um palácio transformado, até que de primeira, mas tudo velho, com pisos descascados, dutos do ar-condicionado seguramente contaminados de bactérias e as paredes rendendo homenagens aos comandantes do processo revolucionário que instalou a família Castro no poder. Tirei algumas fotos do hotel que é grande com quarto espaçoso, mas que precisaria de uma boa manutenção. Tem piscina grande com vários ambientes, bem como sala de ginástica e quadra de tênis. Dispõe também de espaços para eventos externos. À noite, pausava para tomar uma cervejinha cristal, a melhor de Cuba para os cubanos, no lobby bar do hotel, ouvindo piano, antes de subir, cedo, para dormir. Na manhã do último dia em Havana, optei por nadar na bela piscina do Hotel. No início da tarde do último dia, fiz o traslado hotel-hotel para Varadero de ônibus. Lá esperava o mar caribenho. Mas houve novidade.

Não tirei muitas fotos, para dar atenção ao passeio. Todos com quem tive contato querem conhecer o Brasil. Um cubano disse que gostaria muito de ir para a copa, mas creio que não podem e/ou não tem dinheiro. Bem, nem tudo é ruim em Cuba. Destaco que não há analfabetos. Já em 1962, apenas 3 anos após a revolução, o analfabetismo havia sido erradicado. E o SUS deles talvez seja um dos melhores do mundo e certamente melhor do que o brasileiro. Destaco essas duas variáveis por constituírem, na minha opinião, as duas principais dimensões de uma nação no longo prazo. Num horizonte de 100 anos, por exemplo.

As pessoas em Havana tem uma postura ativa em relação a vida pois sabem o que lhes afligem, a falta de liberdade. Já nos países desenvolvidos e emergentes do mundo capitalista o povo nem imagina a alienação que lhes acomete. O  americano, por exemplo, não tinha noção do poder negativo que sua nação determina ao mundo, percebido, segundo alguns especialistas, quando se deu os atos de terrorismo intenso e ao mesmo tempo horrendo liderados por Osama bin Laden. As pessoas simples de Manaus, da Amazônia e do nordeste brasileiro, e mesmo nas  regiões mais dinâmicas do Brasil, de uma forma geral mal sabem ler e escrever e fazer as operações mais simples de matemática. Cuba é uma potência nos esportes, considerando seu porte como nação e seus recursos, e faz parte da fronteira da biotecnologia, por exemplo, mesmo considerando o tamanho de sua economia e a opção política do país.

Não encontrei o Fidel, mas se o tivesse encontrado teria dado um cascudo, no sentido de que oriente o Raul a abrir Cuba para o mundo, atraindo investimentos, sem perder de vista, sem deixar de perseguir o autodesenvolvimento com capital e tecnologia próprias. Teria argumentado, sobretudo, sobre a necessidade da alternância de poder político para oxigenar o tecido social. Cuba ainda vive a revolução em todos os cantos da cidade, com cartazes, fotos e slogans expostos, embora nada comentem sobre Fidel ou Raul. Os dois recebem uma espécie de silêncio honroso. Che sim, é reverenciado.

Logo no primeiro dia em que cheguei à tarde passeei de charrete pontuando os principais prédios da  Habana Vieja e Centro de Habana e Prado, quais a Catedral de San Cristóbal e o Capitolio. Ao longo dos dois dias seguintes visitei todas as Plazas, de la Catedral, de Armas, de San Francisco e Vieja, seus prédios e ruas ao redor delas. As praças são típicos arranjos urbanos inerentes à colonização espanhola. Nesse passeio, feito de charrete, fui convocado pelo condutor a comprar charutos de cooperativas, com a promessa que seriam tão bons quanto os vendidos em casas oficiais, além de mais baratos, pois vendidos pela metade do preço. Aceitei. Perguntei ao condutor da charrete se Fidel teria abandonado Che na Bolívia, para não lhe fazer frente, pelo que simplesmente disse: "sobre isso nada sei!". E ponto final, assenti.

Ao passear pela Praza das Armas, depois de conhecer o centro de artesanato cubano, comprei um exemplar, da primeira edição de 1968, do diário do Che, que relata sua experiência fracassada na Bolívia, o qual presenteei a um amigo estudioso da temática e admirador desse personagem histórico. Na realidade, nessa praça, conheci, de minha parte, a maior feira livre de livros usados a céu aberto, sebo a céu aberto. Esse cenário reflete a autorização dada pelo governo cubano, no início dos anos 1900, para o florescimento de pequenos negócios. A propósito, sugiro o filme Habana Eva, que relata a história de uma jovem mulher, que conhece um novo amor e as oportunidades dos negócios, rompendo com o velho e tateando o novo.

No entorno dessa praça tem prédios da época da colonização espanhola, com destaque para o Palacio de los Capitanes Generales e para o Castillo de la Real Fuerza. Belíssimo local aonde almocei comendo uma lagosta debaixo de uma tenda olhando a praça cheia de árvores. Depois do almoço, comprei 3 CDs de jazz cubano, sendo aquele embalado pelo saxofone de Carlos Miyares o melhor deles. Em sequência, claro, fui passear pela Malecón, orla marítima ou beira mar de Havana, uma espécie de Vieira Souto cubana. Sua imagem, realmente, não é bonita. A visão do horizonte é o mesmo de todo litoral. Na realidade, é uma pena, pois segue a mesma lógica dos carros, com prédios velhos e fachadas feias para os padrões arquitetônicos ocidentais. No máximo 20% delas estão conservadas, como já disse.

Acho que o processo social instalado com a revolução cubana de 1959, ano e mês do nascimento deste turista, não dá muita trela para essa estória de colonização com a mesma característica, por exemplo, dos chilenos e, especialmente, dos peruanos. Os chilenos são orgulhosos em relação a sua superação, os peruanos amargurados em relação aos desatinos proporcionados pela ela, mas os cubanos simplesmente a ignoram. Talvez enquadrem a ação dos espanhóis históricos na mesma lógica anti-imperialista com que tratam seus atuais algozes. Mesmo que os autóctones tenham sido exterminados pelos espanhóis, como informou o guia turístico do traslado Havana-Varadero.

Visitei os Museus da Revolução, de Belas Artes e de História Natural de Cuba. No primeiro, tirei uma foto de uma imagem em tamanho natural feita de cera do Comandante Camilo, importante personagem da Revolução Cubana, ao lado do seu ícone, o Comandante “Che” Guevara. No de História, me chamou a atenção a referência de autores, pesquisadores e cientistas, do extinto bloco comunista. Crianças, com seus pais, visitavam esses Museus; no de Belas Artes, eram incentivadas a desenhar com a orientação de um professor, simplesmente sentadas ou deitadas de bruços no chão. Muito legal, perceber que as crianças em Cuba precisam da companhia e da orientação de seus e professores como em qualquer outro lugar deste Planeta. Ainda no de Belas Artes, contemplei por longos minutos um belíssimo quadro de cegos caminhando um apoiado no outro em rede de mãos e ombros. Essa seria a lógica da solidariedade enquanto substrato de organização social em contraponto ao imperativo da competição. Uma utopia!

O Museu de História Natural, claro, não chega nem aos pés do de Ottawa, localizado na capital canadense, que conheci no início dos anos 2000. Mas os cubanos fazem o que podem mesmo com muito pouco. Individual e coletivamente muito pouco é acumulado para gerar reinvestimentos contínuos, pois a lógica de mercado não prepondera, sendo outra estrutura de velores. Nesse dia, revisitei alguns pontos dos passeios anteriores, como a elegante e aconchegante feira de livro na Plaza das Armas. Almocei num restaurante típico na Plaza Vieja.

Registro que vi poucos chineses e japoneses, especialmente os primeiros, que tomavam conta do aeroporto de Paris, em conexão, quando visitei Praga, Budapeste e Viena no primeiro semestre deste ano. Eles apareceram mais em Varadero. Insta registrar um grande atributo de Havana: não tem engarrafamento e o heroico esforço de manter carros americanos e russos velhos rodando, a partir de motores e pneus desenvolvidos em Cuba. Deveria constituir um estudo de caso de uma tese de doutorado em engenharia mecânica pois os caras são bons. Já deve haver. Contudo, na segunda quinzena de dezembro, ficamos sabendo, aqui no Brasil, da autorização do governo cubano para importação de carros. Talvez isso possa contribuir para no futuro, Cuba ter sua própria indústria automobilística, se não seguir o exemplo chinelo. Imagino que dispõem de capacitação tecnológica mínima, pois os carros americanos e russos rodam há mais de 40 anos, na medida em que os cubanos desenvolveram seus próprios motores e pneumáticos.

No segundo dia andei, andei e andei. Inclusive no Paseo del Prado, contemplando as fachadas de suas ruas paralelas e os leões que o pontuam. Fiquei exausto, mas contente. Finalizei toda Havana dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, expressões dos sítios Viejo, Centro e Prado, e ainda vi a urbanidade do século XX, Vedado e Plaza, este de ônibus de turismo. Nesse passeio de ônibus, contemplei o Memorial José Martí, perdendo a oportunidade de subir até o mirador no alto da torre, considerado o ponto mais alto de Havana, que oferece uma vista da cidade inteira. Na realidade, perdi muitas outras visitas como, por exemplo, a casa onde viveu Hemingway, chamada de Finca La Vigía, e o Parque Lenin, que ficam fora do Centro de Cuba. Não visitei também o Museo del Ron, apesar de ter comprado uma pequena garrafa de rum envelhecido 7 anos para presentear um amigo. Mas conheci a Real Fábrica de Tabacos Partagás. Charuto e rum são dois atributos cubanos. Visitei apenas duas Igrejas: a Catedral e a Basílica Menor de San Francisco. Esta última, oferece uma bela vista, a partir do seu campanário, da Plaza de mesmo nome que tem como destaque a sua Fuente de los Leones. Registro que, na minha opinião, o Estado cubano, na sua atual configuração, não dá muita bola, não dá muita trela para a Igreja enquanto instituição, pois seus prédios, na minha percepção, são abertos apenas “para turista ver”, expressão derivada da histórica “para inglês ver”.

De novo, Havana é belíssima! Mesmo pobre, não perde o ar aristocrata da primeira metade do século passado. Pena que seus bangalôs, habitados pelos trabalhadores revolucionários e seus descendentes com pouco recursos, não sejam mantidos e reformados. Constatei em Florença e, especialmente, em Veneza, que os prédios velhos são mantidos e reformados com suas fachadas originais para fins turísticos, porém, internamente dispõem de toda infraestrutura moderna. Todavia, sua atual elite política e seu povo é digna de todo reconhecimento histórico, pois se demandam por liberdade, portanto, sabem o que desejam, os cidadãos simples de Manaus, volto a dizer, não imaginam o quando são alienados pelo mercado no sistema de uma democracia de segunda categoria. Tenho forte convicção na solidariedade econômica e consciência humana correlata como sistema social mais elevado. Mas, a humanidade terá que desbastar ainda muito a pedra bruta que é seu coração, reprodutor de uma mente competitiva, suprida pela ambição de ter e acumular.

A viagem de Havana para Varadero durou mais de 4 horas de tanto parar em hotel para pegar e deixar passageiros. E eu fui a primeiro a entrar e o último a sair do ônibus. Nesse trajeto, fiquei bastante impressionado com o guia turístico cubano, que além de falar as línguas básicas de sua profissão, falava fluentemente russo, inclusive cantando músicas populares com turistas ucranianos. Fiquei emocionado com sua devoção ao cantar um hino que homenageia Che, que reverencia a presença permanente do Comandante nos corações e mentes dos cubanos. Após a chegada, jantei com um casal canadense e acho que os convenci, ainda que com meu fraco inglês, a conhecer o Amazonas na sua qualidade de última grande fronteira natural ao lado dos fundos oceânicos e da Antártica. Apesar desses aspectos positivos, considerei esse dia meia-sola, pela longa viagem de ônibus. Foi o dia 8.12.13. Tanto que não está listado como dia útil, ainda que tenha obtido mais alguma informação e algum conhecimento.

O hotel Meliá Marina Varadero é coisa de louco. Capital espanhol realizando a abertura da economia promovida pelo governo cubano por meio da expansão do turismo. Novíssimo em folha. Grande a beça. Acho que nunca estive num hotel em férias tão luxuoso. Fiquei deslocado do prédio central num condomínio que faz parte do complexo com carrinho e motorista disponível a qualquer hora, tanto para ir para o hall do hotel quanto para a praia, a partir do pátio das piscinas. Refeições café almoço e jantar; e drinks, como parte do pacote. Mas o hotel tem opções VIP.

O complexo do hotel na realidade é monstruoso, especialmente para os padrões cubanos.
Tem quatro prédios no condomínio aonde fiquei hospedado, além do núcleo central. É visível obras de expansão, que talvez seja até mesmo do próprio projeto original, pois como disse acima o hotel é novíssimo em folha. Turistas do mundo inteiro podem aproveitar os espaços VIP tipo jantar reservado para brindes&brindes com champanhe, além da possibilidade de navegar pelo mar cubano do oceano Atlântico, via hobe cat ou mesmo num veleiro. Porém, em Varadero, o bom é simplesmente caminhar pela praia e depois nadar na piscina. Passear pelas lojas do hotel ou tomar um aperitivo, aguardando o almoço ou jantar.

Pode-se simplesmente decidir, como o fiz, não ir no centro, pois o hotel é longe. Precisei fazer caixa pois o custo do taxi para o aeroporto é caro. Para os menos abastados, então, só o hotel é uma atração em si. Atenção, Varadero não é considerado mar caribenho, embora a água seja cristalina. É mar do oceano Atlântico. Existem outras ilhas do lado sul que, sim, é considerado mar caribenho. Essa foi a novidade. Ignorância geográfica deste turista. Dos passeios pela praia de Varadero, trouxe conchinhas para a ricaneta.

Atenção aqueles que pensam em Havana como um vírus que deve ser evitado: Varadero tem aeroporto internacional. Então, quem quiser apenas a praia, num luxuoso hotel de primeiro mundo, evitando uma urbanidade “velha” e “decadente”, basta ir direto, tipo aeroporto de Manaus, direto para o hotel Tropical, para sair em busca de tucunarés pelos rios do chão amazônico.

Observei que no hotel Meliá, o capital investido mediante atração mantém um exército de cubanos empregados gerando renda; igualzinho em Manaus com o Projeto ZFM. Sem tirar nem por, guardadas as devidas proporções. Parece-me que Cuba ainda não abriu as portas para o capital industrial e comercial, mas apenas para o capital de turismo. Após o esvaziamento da presença soviética na economia cubana, a solução encontrada para sair do semi-isolamento foi o turismo, que se expande como gente grande. Já no final da década de 1990, o turismo havia se tornado o setor mais forte da economia de Cuba. Em 2000, 1.774.000 turistas de todo o mundo, e não só da Europa Oriental como nos tempos ao alinhamento soviético, visitaram Cuba.

Em Havana, vi apenas um supermercado, e longe de ser algo ao menos parecido com os de Manaus. Não vi nenhum shopping. Mas vi Galerias de Passeo. Talvez algo equivalente. Em Varadero, como disse acima, não estive no centro, pois o hotel, para este turista, foi uma atração em si mesmo, mas não deve ser diferente. Na estrada indo para Varadero desde Havana comprei um dentifrício cubano liquefeito. Nesse mercado não vi as velhas marcas dominantes, tipo Kolynos e Colgate. O esforço de sobrevivência é próprio, nacional, endógeno. É o que parece!

Penso que os cubanos não tem acesso às mercadorias globais de marca, não só por falta de disponibilidade de renda, mas, sobretudo, porque não é permitido. Portanto, a abertura comercial e a atração de investimentos são limitados. Mas, ainda assim, a minha impressão, é que vivem alegres, cantantes e dançantes, como desejo reforçar. Ainda que reclamantes por melhores condições para uma melhor qualidade de vida, pois o salário que o governo paga não é suficiente para se viver. Já se vê aí uma motivação liberal, pois profissionais com profissão definida são obrigados a labutar em outra área. Por exemplo, um engenheiro atuando também como motorista de táxi. Aliás, isso já foi exemplo no Brasil em tempos de maiores níveis de desemprego.

Encontrei duas pessoas, uma mulher, balconista do hotel em Havana, cujo marido em janeiro virá para o Brasil como médico; e um homem, condutor de carrinhos que levam e trazem turistas dentro do hotel de Varadero, que o irmão médico também virá.

Quando falava que era brasileiro diziam: Brasil, país-irmão! Penso que acham a atual orientação diplomática brasileira Sul-Sul favorável a uma maior aproximação entre os dois países, especialmente se se perceber que a presidente Dilma se sentou ao lado Raul Castro, na homenagem ao Nelson Mandela, cujo exemplo de desapego ao poder poderia inflamar os ânimos governistas cubanos.

Varadero é um mundo a parte de Havana. Aberto que está aos investimentos globais na área do turismo. Fiquei hospedado no Meliá, como disse, empresa de capital espanhol. Fazia paradas no Fiesta, nome dado ao lobby bar, aberto 24 horas, em homenagem à primeira novela do Hemingway, que conta a estória de americanos e ingleses perdidos na França e na Espanha. Sabia da resistência francesa ao modo american life de viver, mas a da espanhola é novidade.

Na realidade, existem muitas resistências e é isso que faz a potência da democracia burguesa e do sistema capitalista, e, por conseguinte, do Estado moderno, pois eles se reproduzem constantemente para sobreviver a partir dos questionamentos e críticas. Escrevi, a tempos, um artigo que intitulei “Nem a democracia burguesa, nem a ditadura do proletariado”. Apenas para dar o tom dessa crônica, hoje intitularia “Nem a democracia burguesa, muito menos a ditadura do proletariado”. Mas o conteúdo, com recortes anarquistas, permaneceria intocável. Se não fosse Karl Marx, o sistema capitalista não seria tão robusto hoje quanto o que é. Aliás, o marxismo, ao vencer a luta histórica com o anarquismo, tornou-se corresponsável pelo sucesso do capitalismo, na medida em que a doutrina da autoridade política, substrato do instituto Estado, foi mantida intacta. Isso é que facilita a vida de populistas e dos ditadores, e, claro, da família Castro. Peças e figuras caricatas desde sempre nas plagas sul-americanas.

Talvez caiba aqui uma palhinha sobre o ex-ante e o ex-post do movimento de 1959, muito sucintamente. Vou tentar. Primeiro, a revolução em si está contida numa série de outras manifestações históricas, inclusive, de sindicatos de produtores e uniões de estudantes, que perceberam a perversidade e a tirania dos governos cubanos para com a população desde os primeiros momentos da República até a ditadura de Fulgência Batista, passando pelo regime de Gerardo Machado, que matou o intelectual marxista Julio Antonio Mella, exilado na Cidade do México. Esse período evidencia, portanto, Cuba como um quintal estadunidense onde predominava o prazer glamoroso da música, dos drinks, do sexo, do jogo, das drogas. Cuba era conhecida como a “ilha dos prazeres”, o que, em absoluto, significa que hoje os cubanos estejam esterilizados. Batista enriquecia os amigos e empobrecia a população. O país mantinha-se estagnado. Se continua estagnado após mais de cinco décadas de socialismo, pelo menos a lógica dos prazeres foi superada, sem falar que o povo hoje é alfabetizado e tem boa saúde. Esses fatos evidenciam que o motor da revolução foi a consciência construída ao longo das seis primeiras décadas do século XX quanto às miseráveis condições de vida do povo e a repressão social crescente, abertamente violenta.

Fiz uma pergunta básica a um motorista de táxi, no sentido de sentir sua opinião. Perguntei se Che estaria contente, se aprovaria a administração da Família Castro, se estivesse vivo. Assegurou que sim. Claro que isso não aponta para uma opinião geral. Existem dissidentes que até afirmam ao contrário, que em Cuba a saúde e a educação não são como estamos dizendo aqui, para sustentar o discurso da falta da liberdade e, portanto, da necessária mudança política. Para superar a dúvida, seria necessário uma investigação comparada. Comparar não só com países centrais e emergentes, mas com experiências surreais como a do Haiti. Uma viagem de turismo não é suficiente para alimentar essa discussão. Nesse sentido, registro que tenho minhas dúvidas frente a posição do motorista, considerando o próprio compromisso do Che com a lógica libertária, pois preferiu viver o combate vivo, o processo revolucionário permanente, para livrar o jugo do trabalho da potência do capital. Che seguramente abriu mão de se manter instalado no poder implantado em Cuba, após 1959, depois de ter exercido alguns cargos de importância, qual presidente do Banco Central. Numa outra perspectiva, Fidel teria abandonado Che na Bolívia? Poder-se-ia ter dois comandantes do mesmo nível, do mesmo porte, do mesmo peso, num mesmo e único processo revolucionário? Talvez, no mínimo, estivesse fazendo restrição à negação do princípio da alternância do poder no comando maior do país. Tais interrogações foram colocadas pelo amigo estudioso da temática, a quem presenteei o livro do diário de Che na Bolívia.

Por um lado, o esforço cubano, de enfrentamento da lógica do mercado, é heroico e, no futuro, poderá ser avaliado historicamente da forma imparcial. Idealmente, essa avaliação deverá estar igualmente isenta da mentalidade inerente ao jogo do poder político. Por outro lado, o modelo político-econômico cubano fere a natureza humana, no atual estágio de sua evolução espiritual, que é baixa, restritiva, face aos venenos do egoísmo, do orgulho, da ambição, do individualismo, que povoam o coração do homem, os quais alimentam e reproduzem a lógica capitalista. Será que esses venenos em algum tempo atrás ou à frente desta modernidade foram ou serão superados? Nunca saberemos, verdadeiramente. De qualquer sorte, poderíamos nos perguntar, mediando as duas perspectivas: será que se todo o mundo, a partir da década de sessenta do século passado, portanto, se a meio século atrás, tivesse adotado o padrão de consumo cubano as ameaças correlatas às mudanças climáticas estariam tão presentes quanto hoje? Talvez não, mesmo considerando que o processo da queima de combustível fóssil começou lá atrás com a Revolução Industrial, na medida em que o alto padrão de consumo se intensificou exatamente na última metade do século XX. O princípio da inovação tecnológica acelera as taxas de crescimento do padrão de consumo no mundo: modelos de carros novos a cada ano; modelos de celulares novos a cada semestre; inovações gerais a cada trimestre. Uma loucura! No mercado, a maioria alienada, comprando, comprando e comprando. Inclusive, este turista. A ética sustentável é a nova utopia da humanidade. Já tenho dito isto em minhas reflexões. A propósito, superado a Guerra Fria, bem que o Tio Sam poderia devolver o território que ocupa na região de Guantánamo ao povo cubano.

Mas, voltemos ao mote fulcral da crônica. Antes do almoço, no lobby em homenagem ao Hamingway, tomava dois copos de cerveja como aperitivo, quando percebia casais jovens mais alegre do que o normal. Após o jantar, tomava um licor, ouvindo um piano, oportunidade em que me dava conta da quantidade de casais in making love. Aqui acolá, um ou outro, degustando um cubano.

Declinei do baile dançante ao som da música cubana programado pelo hotel, pois apesar de não ter trazido o tapetinho de Yoga, a meditação foi intensificada com prática pela manhã às 6h e à tarde às 18h. Pelo menos, sempre que podia, considerando os horários e o cansaço dos passeios. Portanto, continuei, no período da viagem, me recolhendo cedo.

Numa oportunidade, contudo, antes de dormir, assisti ao filme Amor, que comprei no sistema iPad, ganhador, ano passado, do prêmio Palma de Ouro, associado ao Festival de Cannes. O filme é um espetáculo. Sobressalta a dignidade com que se pode tratar a vida na terceira idade mais avançada quando nós tornamos dependentes quais crianças. As atitudes chocam um pouco para nossos valores judaico-cristãos, mas é isso. Ter consciência que viemos, mesmo não sabendo de onde viemos; ter consciência que vamos, mesmo não sabendo para onde vamos, já é um grande avanço frente ao mistério da vida! Visões como a do filme, demonstra esse desapego ao mundo do presente, ainda que em geral as crenças religiosas privilegiem a vida e abominem o tirar a vida, qualquer que seja a condição terminal, ressalvados alguns casos previstos em Lei específicos para este ou aquele país. Todas as perguntas fundamentais, acredito, só e somente podem ser esclarecidas além do tempo, cujo portal é o aqui&agora. Nada mais!

Isso nos leva às perguntas que alimentam o autoconhecimento continuamente: "Quem sou?"; "Da onde vim?"; “Por que estou aqui?”; e "Para onde vou?". Sei que vim, embora não saiba de onde exatamente; e sei que vou, todavia sem imaginar para onde exatamente. Isso por si só, creio, já é um avanço, especialmente se aceitar que estou aqui para aprender. Mas, para saber quem sou realmente tenho que romper a barreira do tempo, aqui&agora. E isso é nada trivial. Dificílimo! Especialmente para uma forma ordinária, que continua subordinada aos sentidos. Para terem uma ideia, já no aeroporto do Panamá, comprei um chapéu panamá marca Monte Cristi, um dos melhores do mundo, segundo o vendedor. Acho que estou retomando, agora com 7 novos modelos, a pequena coleção que mantive nos anos 2000, de quase vinte exemplares. Por pressuposto, no maior e melhor shopping da Cidade do Panamá, o Albrook, fiz compras de presentes, no caso, de marcas globais, por exemplo, do famoso jacarezinho francês made in Peru. Nele também restaurei um dente que se quebrou em Havana. Sim, serviço odontológico num shopping; rápido, fácil e eficiente. Além de cortar o cabelo. Tudo a preços bastante competitivos frente aos brasileiros. Custo Brasil? Até quando? Carga tributária alta? Para aonde vai o dinheiro público? Ainda se poderia realizar duas vezes a mesma obra, como se dizia tempos atrás? Apenas abstrações!

Aproveito a oportunidade para ilustrar a crônica com um trecho da Chandoya Upanishad, texto vedantino, que me serviu de alento no passeio: “Assim como um pássaro amarrado numa corda voa desesperadamente em todas as direções buscando um lugar tranquilo e depois descansa no paleiro, da mesma forma, a mente, cansada de vaguear aleatoriamente sem encontrar repouso em lugar algum, se estabelece e se acalma no alento vital. É assim porque a mente inquieta está vinculada no alento vital” [VI.8.2]. Esse verso mereceu o seguinte comentário de Swami Dayananda: “Este é um lindo exemplo, que compara a mente a um pássaro que está amarrado numa corda e quer se libertar dela. O pássaro quer liberdade. Assim, ele puxa a corda e se rebate sem parar mas, vendo que não consegue, acaba por se acomodar e aceitar o fato de que está amarrado. A mente, da mesma maneira vagueia incessantemente pelos objetos de desejos, até, cansada, se estabelecer no alento vital. O alento vital, durante o sono, permanece, assim como permanece nos outros estados de consciência. Assim sendo, o alento vital é uma espécie de referência para o sujeito, já que, assim como tudo o mais, deriva a sua existência do Ser. Tendo essa referência, é natural que a mente se acalme ao se fixar no alento vital” [Chandogyopanisad; tradução comentada, baseada nos ensinamentos de Swami Dayananda, compilada por Pedro Kupfer; 2013; p. 33].

O ensinamento oferece um ponto de convergência tanto para os cubanos que, ao viverem contrariamente ao ideário do atual momento histórico da humanidade, buscam por maior liberdade, quanto para nós que, ao vivermos sob o signo do mercado, precisamos dominar ou, no mínimo, mitigar a alienação. Então, para ambos, o repouso no alento vital é uma boa solução!

Em Varadero, portanto, o programa pode ser sempre o mesmo! Ou seja: Meditação + praia + piscina + praia + Meditação! Mais uma boa leitura e/ou um bom filme! Ratifico que Varadero é a expressão de sucesso da abertura cubana. Lá comprei para mim uma camisa e uma bermuda de design espanhol, de Ibiza, e produção indiana. Portanto, o globalismo está presente nos hotéis de Varadero.

Para finalizar sobre Cuba, repito que o povo cubano é alegre cantante e dançante. Em Cuba, não tem analfabetos. A educação e a saúde são gratuitas. O SUS deles deve ser melhor do que o brasileiro, pois exportam médicos para melhorar o nosso, e não estou afirmando que essa é uma boa solução para a política pública da saúde para o Brasil. Na universidade, o Estado paga o cidadão para que estude, segundo depoimento do motorista que me levou de Varadero ao aeroporto de Havana. Estão na fronteira da biotecnologia, é que o dizem, contra tudo e contra todos. Na Constituição cubana, está consignado, no seu artigo 14, o princípio de distribuição socialista: "de cada cual según su capacidad, a cada cual según su trabajo". Na realidade, esse ideário é uma variação do princípio anarquista que diz: “a cada um de acordo com suas necessidades, de cada qual segundo suas capacidades”. A sutileza ainda representa uma grandeza abissal de valores. Ainda assim, Cuba tenta uma outra estrutura de valor, que, na minha opinião, tem tanta luz quanto tem a democracia burguesa; ou, por outro lado, falta tanta luz quanto falta à democracia burguesa. Se temos alienação, em Cuba falta liberdade. E esses dois valores andam juntos na democracia burguesa. Acredito que o fetiche inerente ao consumo seja menor em Cuba, ainda que por decorrência de um condicionamento alternativo. Ao fim e ao cabo, tudo é condicionamento.

As amarras para uma educação e uma saúde gratuita ao povo cubano estão assim alocadas na sua Constituição. No artigo 50, observamos a natureza da saúde gratuita: “Todos tienen derecho a que se atienda y proteja su salud. El Estado garantiza este derecho: con la prestación de la asistencia médica y hospitalaria gratuita, mediante la red de instalaciones de servicio médico rural, de los policlínicos, hospitalares, centros profilácticos y de tratamiento especializado; con la prestación de asistencia estomatológica gratuita; con el desarrollo de los planes de divulgación sanitaria y de educación para la salud, exámenes médicos periódicos, vacunación general y otras medidas preventivas de las enfermedades. En estos planes y actividades coopera toda la población a través de las organizaciones de masas y sociales”.

Já no artigo 51, observamos a natureza da educação gratuita: “Todos tienen derecho a la educación. Este derecho está garantizado por el amplio y gratuito sistema de escuelas, seminternados, internados y becas, en  becas, en todos los tipos y niveles de enseñanza, y por la gratuidad del material escolar, lo que proporciona a cada ñino y joven, cualquiera que sea la situación económica de su família, la oportunidad de cursar estudios de acuerdo con sus aptitudes, las exigencias sociales y las necesidades del desarrollo económico-social. Los hombres y mujeres adultos tienen asegurado este derecho, em las mismas condiciones de gratuidad y com facilidades específicas que la ley regula, mediante la educación de adultos, la enseñanza técnica y profesional, la capacitación laboral em empresas y organismos del Estado y los cursos de educación superior para los trabajadores”.

O que peca, então? Peca que a liberdade política é subordinada ao partido único com conteúdo unilateral apoiado no marxismo-leninismo, que alberga o ideário do Estado socialista cubano. Diferentemente, portanto, da liberdade religiosa que é ampla e irrestrita, e separado do Estado. A economia é planicentralizada, o que constitui uma contradição hodierna à hegemonia do mercado capitalista. Não estou defendo aqui o mercado. Mas apenas reconhecendo sua dominância, o que é compatível com os valores que predominam no coração do homem, considerando seu atual estágio de evolução espiritual. Tudo, ou quase tudo, é propriedade do Estado a serviço do povo. Essa correlação de forças não prospera nesta modernidade. Vide exemplo da Rússia e suas ex-repúblicas, antes da queda do Muro de Berlim, que simbolicamente representa a adesão ao mercado. Hoje a Ucrânia busca, na voz do povo, aderência à UE, em detrimento do alinhamento governamental ao ordenamento russo.

Todavia, podemos estabelecer uma associação comparativa entre o sistema marxista-leninista com o sistema liberal que regula todos os contratos sociais que albergam as democracias moderno-burguesas do mundo capitalista. Os pecados quanto à liberdade política são os mesmos, ainda que em graus e dimensões diferentes, ou seja, aqui, até podemos ter um governo dito socialista, mas subordinado às amarras da propriedade privada, cultuada como um deus. Do ponto de vista objetivo, toda liberdade é limitada. E, segundo o anarquismo, somente a liberdade libertária, livre de qualquer manto de autoridade, poderia oportunizar e organizar um modo de viver e pensar verdadeiramente livre. Mas, essa é uma utopia superada, oxalá adiada, no caso das mudanças climáticas permitirem. Conforme já disse, a ética sustentável é a nova utopia da humanidade. Já tenho dito isto em minhas reflexões a algum tempo. Observar que a liberdade e a imortalidade definitivas, últimas, estão além do tempo, conformei ponderei no início desta crônica.
Assim, apesar dos pesares, Havana é belíssima! Seu povo é alegre, cantante e dançante, reafirmo como um mantra. Sabem do que precisam, de maior liberdade, diferentemente de nós, que pouco sabemos do processo de alienação a que somos acometidos com a lógica do mercado. Mas o Ser sabe o que faz não é mesmo? Quem somos nós para julgar!

Não creio que o povo cubano sofra mais do que qualquer outro povo. Afinal, tudo é dor e sofrimento, segundo Buddha, quando não entendemos como podemos superá-las, identificando sua origem e definindo um Caminho. Ainda acredito no socialismo. Todavia, entendo que só será possível após extirparmos os venenos dos nossos corações. E isso vale para todos os povos! Então, não tem sistema bom, um melhor do que o outro. Tem sistemas diferentes. Existe apenas dualidade, tanto lá, quanto aqui. E só!
Vamos agora relatar a visita à capital do Panamá, onde conhecemos seu canal, uma obra fantástica, como diria meu velho pai, o Botelhão. A viagem de Havana para a Cidade de Panamá foi no dia 11.12, e também não considerei um dia útil, ainda que também tenha obtido mais informação e mais conhecimento. Já havia esquecido o que é uma cidade barulhenta com trânsito infernal, pois andei esses dias em Havana e Varadero de charrete, coco-táxi e muito a pé. No primeiro dia, 12.12, contratei um táxi para me levou para ver as eclusas, do lado do Pacífico, e fazer um passeio pelo centro histórico que tem uma arquitetura espanhola e francesa, chamada de Casco Viejo. Deveria ter descido para caminhar e almoçar em Casco Viejo. Perdi a oportunidade. Aliás, todas as oportunidades perdidas, nos três locais visitados, ficam para uma outra visita. Mas, de quebra, passeei pelas por três ilhas conectadas entre si e ao continente, com entulhos de pedra e terra resultante das explosões da construção do Canal.

No dia seguinte, 13.12, passeei por toda a cidade nas duas rotas do ônibus de turismo. Um dia meia-sola, considerando o trânsito infernal, um dos predicados mais expressivos de Manaus dos dias atuais. Mas, deu para parar no Museu de Panamá Viejo, onde observei que a aldeia original sofreu um terremoto e um incêndio na segunda metade do século XVIII, o que deslocou sua urbanidade inicial para o atual centro histórico. Talvez, não a toa o slogan do atual governo seja: de uma pequena aldeia para uma metrópole mundial.
A internet, na Cidade do Panamá, além de grátis é poderosíssima. Diferentemente de Varadero, e, especialmente de Havana, onde seu sinal é frágil e irregular. Em Havana, custava $ 8 CUC a hora, quase US$ 10.00. Acho que nunca naveguei num acesso tão rico de velocidade. Em Manaus, o acesso também é limitado! Ademais, o Panamá oferece aos turistas seguro de saúde grátis até certo limite, mas já é um agrado aos seus visitantes.

Realmente, pelos informes oficiais trata-se de um país, talvez especialmente sua capital, que cresce a índices chineses; cresceu 10% em 2012. Na realidade, existem propagandas de construções residenciais e turísticas por todos as regiões e locais do território panamenho. Dizem que querem atrair os aposentados endinheirados americanos, na medida em que a região lembra a Califórnia.

O canal construído pelos americanos a cem anos, que em 2012 movimentou 335 milhões de toneladas de carga bi oceânica está sendo duplicado e estará pronto em 2014. O Panamá durante a administração do Tio Sam recebia, anualmente, US$ 10 milhões. Hoje, fatura isso em dois ou três dias. Façam as contas. Portanto, não faltarão recursos para transformar o Panamá num dos países mais prósperos da Amárica Latina.

A capital do Panamá é considerada uma das mais seguras da região para turistas. Foi considerada a quarta cidade do mundo para serviços financeiros e a segunda globalmente mais competitiva, segundo o Fórum Econômico Mundial 2012-2013. Pelo seu aeroporto passaram 6,9 milhões de pessoas em 2012. A Zona Franca de Cólon, situada no lado caribenho do Panamá, é a segunda maior em território do mundo.

Em 2000, a capital panamenha retomou a soberania da área adjacente ao canal construído pelo Tio Sam, de 8 milhas para cada lado, onde o panamenho comum não tinha acesso, além de passar a administrá-lo, o que está proporcionando uma transformação naquele país, na medida em que estão em curso grandes obras de infraestrutura, quais novo aeroporto e anel viária contornando o centro histórico pelo mar, bem como a própria duplicação do sistema de eclusas, para receber os cargueiros modernos e continuar servindo a dezenas e centenas de rotas e portos ao redor do mundo, sem falar que já é um dos principais centros financeiros do mundo. No Panamá, o jogo é liberado. Do lado do hotel onde me hospedei havia um casino convidativo. Declinei desse atrativo.

Por tudo relatado nesta crônica, oferecemos como título à sombra do Tio Sam, pois Cuba continua embargada, glosada com barreiras ao mercado global, com as sanções econômicas, imposta pelo país mais poderoso do mundo. Sem falar que parte do seu território continua sob soberania estadunidenses. Mesmo que talvez resulte de uma acordo perpétuo, feito lá atrás, no momento histórico da independência de Cuba, parte da ponta leste do seu território, Guantánamo, deveria retornar para a soberania do povo cubano, considerando que a humanidade superou a Guerra Fria, embora continuemos permanentemente sob ameaça velada de uma terceira guerra mundial. Ou já a vivemos sabe-se lá, inclusive, sob o signo das mudanças climáticas. Deve-se aplicar o mesmo raciocínio do Canal do Panamá, que retornou à soberania do povo panamenho, que caminha a passos largos para o mito do desenvolvimento, o qual esteve limitado por quase 100 anos.


À sombra do Tio Sam revela, ainda, convergência com a tese do eminente cientista e ilustre pensador Milton Santos de que a solução ao esgotamento do sistema colonial se deu com a promoção das independências das possessões em Estados nacionais tardios, na medida em que a manutenção de tais processos sociais teriam ficado financeiramente antieconômicos. Todavia, essa estratégia não suprimiu a continuidade da pilhagem histórica, mas foram substituídas por novas relações de hegemonia e dominação. A natureza intrínseca do Projeto ZFM, regido apenas pelo signo da atração de investimentos, não é diferente e converge para a lógica da hegemonia e dominação via dependência tecnológica. A tese de Milton Santos, na minha opinião, vale inclusive para o Tio Sam, mesmo que a nação estadunidense não tenha sido um grande império como aquele aonde o sol nunca se punha. Os EUA praticamente bancou a independência de Cuba e do Panamá no início do século XX. Os personagens dos acordos históricos em torno de Guantánamo e do Canal do Panamá que o digam. E fez valer, óbvio, essa supremacia na forma de bônus. Em relação a Cuba, o quanto pode, até 1959; em relação ao Panamá, cujo poço de petróleo, seco e exterritorial, que simboliza o Canal, funcionou a seu favor até 2000, desde 1914!

19/10/2013

DA FRAGILIZAÇÃO DO PROJETO ZFM E DA SUFRAMA

Da fragilização do Projeto ZFM e da Suframa
Antônio José Botelho[1]
A competência original da instituição organizadora da ZFM é a de administrar incentivos fiscais, alocando capital intelectual na aprovação, acompanhamento e avaliação de projetos industriais e agropecuários. Esgotada a vertente comercial da ZFM, a Suframa buscou ampliar seu espectro e escopo de atuação, transbordando funções e ações na esteira da interiorização do desenvolvimento e, mais recentemente, na da gestão tecnológica. Na realidade, a ampliação da competência inicial perpassa pela promoção comercial, pelo comércio exterior, dentre outras de menor vulto. Mas desejo, nesta reflexão de alerta à sociedade, focar as duas funções destacadas pela importância que têm no espraiamento de externalidades do Projeto ZFM por todo o chão amazônico, limitado pela área de atuação da Suframa.
É que as duas vertentes correm risco de sobrevida, no apoio ao desenvolvimento industrial e tecnológico de todo local amazônico, aonde está presente a institucionalidade do Projeto ZFM e a competência da Suframa. É visível, a “olho nu”, que se tornaram grandes estorvos administrativos, que combinados com fatos correlacionados, apontam para o esvaziamento dos respectivos programas de desenvolvimento.
Os links que poderão promover esta desvirtuosidade estão representados, de plano, pelo recorrente questionamento da TSA por parte das firmas incentivadas, gerando demandas judiciais que bloqueiam ainda mais a arrecadação da Suframa via Projeto ZFM. Em verdade, esse bloqueio está posto e não resolvido com o histórico contingenciamento vinculado à lógica da Conta Única da União, combinado com a prática de refúgio centrada nas emendas parlamentares. Esse link tem impacto tanto no programa de interiorização do desenvolvimento, quanto no da gestão tecnológica, como veremos adiante no rol das indicações de resoluções.
O link complementar está relacionado com a notícia de que o laboratório de P+D da Nokia foi ou será fechado, por força, possivelmente, de sua compra pela Microsoft. Sabe-se da importância relevante da presença nos investimentos da Nokia no contexto dos investimentos da Lei de Informática. Li essa notícia numa mídia local. Somente será verdadeira, do ponto de vista da compulsoriedade das aplicações em P+D, se a Nokia deixar de produzir bens de informática. Todavia, parece que poderá ser o caso, na hipótese de centrar atenção em sinergia com os negócios da sua nova proprietária. No mínimo demonstrará nossa dependência correlata ao fortalecimento da emergência do Sistema Manaus de Inovação.
O desenvolvimento não se dá sem recursos financeiros, assim como não se dá sem energia, por exemplo. E o cenário pintado aponta para uma maior escassez deles, frente a histórica responsabilidade do Projeto ZFM, enquanto meio, e da Suframa, enquanto ente organizador, de contribuir para o desenvolvimento sustentável do chão amazônico. Algo precisa ser pensado e feito para reverter essa tendência, que, ao fim e ao cabo, deverá ferir de morte o “Modelo ZFM”.
Então, a Lei que estabelece a TSA deve ser revisada! Então, devemos aprofundar a briga para que os recursos arrecadados com a operação do Projeto ZFM estejam a serviços do desenvolvimento sustentável do chão amazônico! Então, mecanismos adicionais para induzir as firmas incentivadas a realizarem investimentos em P+D devem ser idealizados, estendo-os para todos os setores instalados na ZFM!
Quantos processos judiciais de questionamento da TSA estão em curso? O que representam junto à arrecadação da Suframa? Para quais entraves sinalizam no sentido de uma revisão da Lei, visando superar e evitar conflitos?
Quais os empecilhos do programa de interiorização do desenvolvimento? Qual a carga do passivo relativamente aos projetos com prestação de contas em aberto e sem efetividade quanto aos benefícios socioeconômicos a que se predispuseram? Como podemos contorná-los? Os critérios que consubstanciam suas linhas de financiamento foram atualizados à Lei da Inovação, por exemplo? O grupo interdisciplinar de enquadramento dos projetos junto às linhas de financiamento está operando, no sentido de ir além do próprio enquadramento, propondo alternativas estratégicas e a substituição de projetos em carteira por projetos proativos?
Qual o passivo dos relatórios demonstrativos dos investimentos em P+D decorrentes da Lei de Informática? Quando seremos capazes de induzir e cobrar efetividade relacionada aos resultados derivados de um sistema de inovação, quais sejam: aumento de faturamento, redução de custos, melhorias e inovações junto a produtos e processos novos ou aprimorados, patentes&royalties? Quantas firmas estão tendo seus incentivos suspensos por conta da não apresentação dos relatórios demonstrativos das aplicações em P+D? Quando vamos entender que os proprietários dos pacotes tecnológicos aprovados na forma de projetos industriais não estão dispostos a fazer investimentos em P+D em espaços periféricos como Manaus, relativamente à fronteira tecnológica que representam?
A disponibilidade de recursos financeiros é indispensável para viabilizar não só a consolidação das diretrizes estratégicas da Suframa vertidas a interiorização do desenvolvimento e a gestão da tecnologia, mas, sobretudo, para o estabelecimento de novos avanços e novos desdobramentos via novas ideias e ideais. A Suframa não pode abrir mão de sua responsabilidade histórica conquistada a “duras penas” de contribuir para o desenvolvimento sustentável do chão amazônico. Houve momentos que a presença da Suframa no chão amazônico era uníssona frente a histórica hegemonia institucional da Sudam.
Admitamos que seja possível a reconfiguração, de fato, além de direito, de um fundo sob a administração da Suframa para fins do desenvolvimento: por que não poderíamos criar duas vertentes? Uma associada a projetos não-reembolsáveis; outra destinada a projetos reembolsáveis? Aquela para infraestrutura de econômica e de capital humano, intelectual e social no sentido industrial e tecnológico, de provimento de competitividade sistêmica; a segunda para financiamento de amazonidades em nível de negócios realizados no mercado, de contributo à formação da cultura de capital de risco. Por que não podemos admitir essa possibilidade?
Poderíamos, ainda, elaborar outra hipótese de financiamento! Por que não poderíamos combinar o financiar a P+D com o financiamento do empreendedorismo científico-tecnológico na forma de realizações no mercado de amazonidades? Essa temática, inclusive, já entrou no discurso, quiçá entre na agenda, do Sistema Manaus de Inovação.
A ideia do alerta da reflexão é realmente na forma do apontamento de problemas, de problematizações, a partir de uma visão parcial e limitada do próprio chão institucional. Investigações complementares e extensivas às sugestões aqui apenas superficialmente delineadas devem ser levadas a termo por formadores de opinião, por pesquisadores do chão acadêmico, por gestores e técnicos da coisa pública e por políticos e seus assessores que formulam políticas públicas, visando abrir veredas na forma de trilhas para as resoluções pertinentes. Nesse diapasão, deve-se ter em mente sempre a busca da combinação efetiva e sinérgica do empreendedorismo, do crédito e da inovação, plasmadas e amalgamadas com capital e tecnologia endógenas, em prol da construção de capitalismo amazônico.
Penso e acredito que a Suframa, a partir do Projeto ZFM, tem ainda muito a contribuir para o desenvolvimento autossustentável, na medida em que superar gargalos que travam o presente e abrir janelas de oportunidades portadoras de um futuro desejado. Não podemos admitir que estamos fadados a administrar passivos, sem questioná-los objetivando sua superação. Não podemos reduzir a função planejamento a uma postura de controle e de auditagem, certamente necessária, ainda que em parceria, em atendimento e/ou reativamente aos órgãos de controle, mas insuficientes no longo prazo. Algo estratégico precisa ser assumido, ousado, na forma de risco institucional no contexto da competência vertida ao desenvolvimento sustentável. Por outro lado, este esforço deve estar em paralelo às ADINs elaboradas para enfrentamento das PECs, que minimizam as vantagens comparativas da ZFM, quiçá adotado em caráter prioritário, negociando com o poder central na forma de “cartas na manga” em busca de espaços, energizados por mecanismos e ferramentas de políticas industrial e tecnológica, em prol do autodesenvolvimento minimamente autônomo e interdependente.
De uma breve estimativa dos valores envolvidos na encrenca
Nessa conta, os valores são significativos. Vejamos uma estimativa bruta, não refinada, “por baixo”, ao longo de duas décadas. Se entre 1997 e 2000 aplicamos R$ 250 milhões junto ao programa de interiorização,[2] entre 1997 e 2016, poderíamos estar aplicando algo em torno de R$ 1,3 bilhão. Certamente, esse valor poderia ser ultrapassado, pois o orçamento da Suframa é crescente na medida da pujança da ZFM. Por outro lado, se entre 1996 e 2006 aplicou-se no contexto dos investimentos em P+D relativos à Lei de Informática R$ 1,3 bilhão,[3] até 2015 poder-se-ia aplicar mais R$ 0,8 bilhão. R$ 3,4 bilhões não é um valor desprezível, considerando a possibilidade de investimentos e aplicações eficazes, eficientes e, sobretudo, efetivas. Talvez até seja pouco frente à dinâmica de outros locais mais desenvolvidos, mas é muito para um local que precisa construir seu próprio caminho, fazer sua “tarefa de casa”.
Mas ambos os valores estão comprometidos e/ou bloqueados até 2015/2016, considerando a tendência atual de esvaziamento dos programas de interiorização do desenvolvimento e de gestão tecnológica da Suframa. Isto sem falar que a vertente reembolsável, contributo à cultura de capital de risco, poderia estar retroalimentando o sistema de geração de crédito, constituindo fonte complementar à própria ZFM. Poderíamos ter melhor contribuição do Projeto ZFM em prol do autodesenvolvimento via construção de um capitalismo amazônico? Além da problemática da fragilização, ainda precisaríamos estar organizados e atentos com os vícios e desvios da cadeia burocrática inerente ao mercado que o setor público cria em torno de si mesmo. Neste particular, os olhos dos políticos, gestores e empresários de baixo escalão brilham em torno desses valores em detrimento do propósito do progresso social e técnico do chão amazônico a partir do Projeto ZFM. Mas essa é outra estória...

Nota: Uma versão mais atual pode ser visitada em www.argo.com.br/antoniojosebotelho 






[1] Servidor ativo do Estado brasileiro, lotado na Suframa, a serviço do Projeto ZFM, desde 1984.
[2] Botelho, Antônio José. Projeto ZFM: vetor de interiorização ampliado!. Manaus: s/Ed., 2001.
[3] Botelho, Antônio José. Pequeno Ensaio em prol da Construção de um Capitalismo Amazônico a partir de Manaus. Manaus: Editora Caminha Consultoria, 2011.

30/07/2013

KO HAM = SO HAM / HAMSAH + NETI NETI [2ª Versão]

KO HAM = SO HAM / HAMSAH + NETI NETI [2ª Versão]

O que quero sugerir?

Sugiro uma combinação sinérgico-virtuosa de SO HAM e/ou HAMSAH com NETI NETI como objeto de concentração, em busca de estados meditativos alterados para responder a pergunta KO-HAM.

SO HAM está numa perspectiva introspectiva de um mergulho no oceano para realizar o diamante em seu leito, visando depurar sensações e intenções de foro íntimo. Seria a pacificação do coração.

HAMSAH está numa perspectiva extrovertida de um navegar na superfície oceânica para realizar a conquistar a outra margem, visando depurar relações em vigília, sonhos e sono. Seria a quietude da mente.

Ambas as perspectivas exigem desapego e não aversão aos fatos e relações fenomênicas submetidas à dualidade.

Essas duas perspectivas, estabelecidas em NETI NETI, pode nos conduzir, de desidentificação em desidentificação, à apreensão do Ser = Realidade + Consciência + Plenitude. Claro, superadas a ignorância, e por tabela, a paixão e a individualidade. Conquistado o Conhecimento! No Dharma!

Assim, com o coração pacificado, mergulhando para o fundo do oceano samsárico, e com a mente quieta, navegando na superfície até a outra margem desse mesmo oceano samsárico, poderemos realizar BRAHMAN = ATMAN. Conquistar Moksha, realizando a liberdade absoluta e a imortalidade definitiva, além do tempo e do espaço, portanto, além dos fenômenos duais. Além dos gunas, além do karma, além da lei de causa e efeito, além do próprio Dharma. Sempre na Luz!

É importante registrar que essa possibilidade de realização se dá nos infinitos dx’s, momentos infinitesimais, de aqui&agora, e não no passado e no futuro, aonde reinam, respectivamente, as possibilidades da depressão e da ansiedade. Portanto, o portal da transcendência se dá na paz do silêncio do presente ou na paz da presença silenciosa aquém, entre e além dos pensamentos, palavras e ações corretas e positivas.

Trata-se, na opinião desta forma ordinária, de um refinado objeto de concentração zen [ióguico-sankhyo-vedântico-budista-tântrico]. Concentremo-nos!

SigamosenquantoLuzquejáSomos embuscadaLuz semprenaLuz paraalémdaLuz aondesempreexistiuesempreexistiráLuz! antôniojosé/sarvanandadeva


KO HAM = SO HAM / HAMSAH + NETI NETI

KO HAM = SO HAM / HAMSAH + NETI NETI

O que quero sugerir?

Quero sugerir uma combinação sinérgico-virtuosa de SO HAM e/ou HAMSAH com NETI NETI como objeto de concentração, em busca de estados meditativos para responder a pergunta KO-HAM.

SO HAM está numa perspectiva introspectiva de um mergulho no oceano para realizar o diamante em seu leito - ou visando depurar sensações e intenções. Seria a pacificação do coração. HAMSAH está numa perspectiva extrovertida de um navegar na superfície oceânica para realizar relações em vigília, sonhos e sono- ou realizar a outra margem - com desapego e sem aversão. Seria a quietude da mente.

Essas duas perspectivas, estabelecidas em NETI NETI, pode nos conduzir, de desidentificação em desidentificação, à apreensão do Ser = Realidade + Consciência + Plenitude. Claro, superadas a ignorância, e por tabela, a paixão e a individualidade. No Dharma!

Assim, com o coração pacificado [mergulhando para o fundo do oceano samsárico] e com a mente quieta [navegando na superfície até a outra margem desse mesmo oceano samsárico] poderemos realizar BRAHMAN = ATMAN, conquistar Moksha, realizando a liberdade absoluta e a imortalidade definitiva, além do tempo e do espaço, portanto, além dos fenômenos duais. Além dos gunas, além do karma, além da lei de causa e efeito. Na Luz!

É importante registrar que essa possibilidade de realização se dá nos infinitos dx’s infinitesimais de aqui&agora, e não no passado e no futuro. Portanto, o portal da transcendência se dá no silêncio do presente ou na presença silenciosa entre os pensamentos, palavras e ações corretas e positivas.

Trata-se, na opinião desta forma ordinária, de um refinado objeto de concentração zen [ióguico-sankhyo-vedântico-budista-tântrico].


Sigamos enquanto Luz que já Somos em busca da Luz sempre na Luz para além da Luz aonde sempre existiu e sempre existirá Luz! antôniojosé/sarvanandadeva