04/01/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga![1]

Grupo das Cobras&Serpentes.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

As posturas podem nos sugerir várias atitudes&motivações para a meditação durante suas posições finais oferecidas pela Hatha Yoga. Uma delas, talvez a mais nobre dentre outras, é a serpente que nos oferece a oportunidade&possibilidade de “partir” em busca do si mesmo, da nossa própria natureza original.

Para tanto, temos um fundamento disponível que deriva do Samkhya, no contexto da concepção da origem do universo, desde a própria consciência em si mesma. Como sabemos, nesta doutrina que dá base ao Yoga, existem duas faces distintas, mas que representam apenas uma única natureza: Purusha&Prakriti. Por que existe apenas uma realidade última? Porque são idênticos&indiferenciados, existindo de forma imutável&infinita, sem limites!

Num determinado momento, a matéria recebe um desconforto provocado do espírito, que cresce dez dedos, e continua infinito. Como assim? Ele cresceu do avesso, virando-se para dentro. Então, a matéria se desdobra em princípios que vão formar o universo. Esse processo cria dois pares de opostos primordiais: masculino&feminino!

Os dedos são vazios&finitos, cuja essência de vacuidade&finitude é que dá origem, que alberga o universo manifestado. Claro, esses dedos não preenchem plenamente o espaço primordial, representado pelo Infinito&Absoluto. Essa essência limitada&condicionada é preenchida imediatamente pela matéria, que se desdobra&enumera, primeiramente em inteligência cósmica (Mahat) e na consciência individual (Citta), em sequência (vertical). Essa dupla produz a tríade, em bloco (horizontal): o intelecto racional (Buddhi), a mente/pensamento (Manas), cujo conjunto forma&gera o princípio de ego ou da individualidade&separatividade (Ahamkara). Daí, sucessivamente, outros elementos constitutivos da matéria (Prakriti) emergem, de acordo com o Samkhya: órgãos de ação&percepção, além das substâncias estruturantes do universo em si. Está configurada a criação&manifestação do Universo, segundo a enumeração plena do Samkhya.[4]

Há, portanto, uma grande diferença da concepção do universo segundo a ciência. Ela, a ciência, criou o entendimento do Big Bang, que formou átomos&moléculas e, em desdobramentos progressivos, faz surgir a vida, configurando, finalmente, a consciência. Portanto, na mitologia&cosmologia hindu, a consciência vem em primeiríssimo plano. Ou seja, o desdobramento do espírito (Purusha) oportuniza a matéria (Prakriti) consubstanciar o que experimentamos&experenciamos em termos de vida&morte&renascimento. Em outras palavras, somos o final do processo, viemos da consciência universal, da natureza primordial (Purusha&Prakriti) para a matéria manifestada e estamos convidados&condenados a reverter o processo, retornando à consciência infinita&absoluta. Diga-se de passagem, já somos essa Consciência!

Como? Essa é a pergunta fundamental que o Yoga, enquanto união&fusão de toda multipilicidade&diversidade, nos ajuda a responder! Aí, nesse cenário, temos a ferramenta&mecanismo da criação subjetiva, de perceber&intuir, como que surgindo na mente de Purusha (espírito), e acontecendo na matéria (Prakriti), como um aspecto&atributo dele próprio, isto é, do si mesmo. Dentro desse escopo, podem ser evocadas infinitas situações&condições, sendo uma delas a da serpente, que, como elemento mítico&místico, representa esses fenômenos cósmicos da criação, como desdobramento da&na mente.

Bastão (Dandasana).[5]

A postura do bastão pode nos oferecer esse espaço interno&subjetivo de assentamento. É que dentro do Yoga nos interessa uma determinada serpente, que sai do fogo cósmico e entra dentro de nós, caracterizando&formando nossa natureza única&original. É a Kundalini, o fogo serpentino, a serpente cósmica, que é macro, mas que em nós resta micro, ao se instalar dentro de nossa coluna vertebral.

 Ou seja, a coluna vertebral tem vida própria. No Dandasana (postura do bastão), que é, essencialmente, um cajado de poder&autoridade, ela pode se manifestar. A Kundalini constitui nossa natureza espiritual. Mas que poder é esse? É o poder sobre nossa mente. Sabemos que no Yoga, a mente controla o Prana, e o Prana controla a mente. Por que controlar a mente? Para ajustar&alinhar&assentar os três eu’s, isto é, o do corpo, o da mente e o do coração. Ou seja, o coração, por meio de Isvara, comanda; a mente, por meio da inteligência, decide; e o corpo, em equilíbrio, obedece. Ou não! Objetivamente, a mente pode não obedecer, e pode, biologicamente falando, prejudicar o corpo. Por isso, o devido&correto assentamento no espaço interno&subjetivo é importante&necessário. Dito de outra forma: os três eu’s em equilíbrio&equanimidade desvelam&revelam o Atman, o Quarto (Turiya), o Eu (Sat&Chit&Ananda)! Assim, a mente pode servir de ponte entre o corpo e o coração, onde habita o Ser, iluminando o ego com a Luz da consciência!

Kundalini dá&oferece esse poder para assumirmos o controle da mente! Neste sentido, o fogo serpentino pode escancarar as portas da libertação, mas também pode nos trazer problemas&entraves. Objetivamente, com o canal central (Sushumna) obstruído pode-se até entrar em desequilíbrio mental. Para fins do Yoga, é necessário observar o Dharma, atender nossa vocação espiritual, além de observar&atender a ética ióguica. A prática consubstancia o caminho da transformação. Ou seja, para obter benefícios devemos pensar&falar&agir de acordo com a nossa natureza original, caso contrário teremos problemas. O fogo cósmico sem obstruções virá vigor, expressividade e, sobretudo, consciência. Na prática, ela sobe serpenteando pelo canal central em direção&sentido ao espaço mítico&místico do coração, fortalecendo o poder do equilíbrio interno. O espaço do coração está representado pelas oito direções de Shiva, que correspondem às oito pétalas do seu chacra (Anahata).

Ela pode subir firme em equilíbrio imparcial, constante e pleno ao encontro do Eu. Sobe em direção&sentido da consciência infinita&absoluta (Brahman). Desta forma, invertemos o processo de criação do universo, que veio da perturbação do espírito (Purusha) expressa por fenômenos cósmicos na matéria (Prakriti). Portanto, podemos sair do mundo manifesto pelo recolhimento dos sentidos; Yoga, recolhimento dos turbilhões&vórtices de pensamentos&volições da mente (Citta), para mergulhar no Infinito, desde o Universo. Mergulhamos em Purusha (espírito), na plenitude do si mesmo, saindo do avesso e entrando no Infinito, no espaço imperecível&indestrutível. Esse exercício pode ser vivenciado com&no Dandasana. Quando estiver nela, em sua posição final, coloque as mãos em oração e medite nesse significado&significação! Vejam, abaixo, uma imagem ilustrada do bastão.

 

Caixa de Texto: Trata-se de uma variação à versão original, conforme sugerida pelo professor Carlos Eduardo. A imagem em si foi trabalhada por IA, com ajuda do amigo Ivo, como todas as demais.Imagem em preto e branco de mulher sentada no chão

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Bhujanga, a cobra.

Caixa de Texto: A atitude da postura é de controlar nossos desejos. Com a coluna vertebral recurvada, os braços sustentam a posição final.Desenho de uma pessoa

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As mãos&braços representam a força do nosso agir&fazer; nossa capacidade de realização. E isso simula a cobra, pois é similar aos seus movimentos de deslocamento curvilíneos. Os olhos da cobra apontam para a mente, onde nutrimos nossos desejos; seu olhar encanta como a mente enfeitiça. As cobras são forças livres; e com venenos são perigosas. Aí reside a metáfora, que aponta para a atitude de controle dos desejos. Então, é controlar a mente ou fugir do controle, pelo fascínio dos desejos. A mente seduz, encanta e conduz seus próprios caminhos ou descaminhos, pois existem explicações para o certo&errado. Se não controlarmos a mente, ela nos controla. Devemos, então, reforçar a atitude&motivação correta&adequada e aprofundar&realizar o nosso Dharma.

Para tanto, e por outro lado, o estufar do peito na posição final pode empoderar nosso coração, onde reside o comandante Isvara. Devemos buscar forças para nos estabelecermos na nossa identidade interna, assumindo o comando da nossa vida. Assim, evitar sermos levados pelos comandos alheios, externos.

O poder da cobra está representado pelo seu assento no pescoço de Shiva. Com esse poder devemos assumir nosso Dharma, lançando mão do controle da mente, enquanto objeto de meditação durante a posição final da cobra. A vida de Yoga é ganha quando controlamos nossa capacidade de realizá-la!

Sarpa, a serpente.[6]

Sarpa significa rastejar em conexão com o solo, simbolizando um movimento tortuoso. Pensamentos&palavras&ações sem espontaneidade, que apontam para coisas não naturais, podem sinalizar um simbolismo que fundamenta o falso. Ou seja, Sarpa simboliza um discurso divergente. O que o yogin tem que praticar é um pensamento simples, correto e sem devaneios. É o que a meditação em Sarpasana pode nos ajudar. Senão vejamos.

O objetivo de Sarpasana é converter uma mente oscilante numa firme, qual a postura linear de um bastão. Esse movimento retilíneo serve como uma ponte entre o ponto de partida e de chegada. Aqui, novamente a simbologia da Kundalini deve ser aplicada. Ou seja, o fundamento da postura é o sorver o Prana para dentro de todo o corpo, reconhecendo-o, para, sem oscilações, conduzi-lo para cima. Esse preenchimento traz benefícios, assim como em Bhujangasana, como o despertar de percepções clara e intuições puras. Em nível fisiológico, o Prana, absorvido durante a prática, se expande&preenchendo, não só nossa estrutura de órgãos&tecidos, mas, igualmente, toda rede de canais sutis, ampliando a disposição&inteligência do corpomente. É como se tomássemos um banho no oceano de Prana primordial&essencial. Objetivamente, o Prana carrega&conduz o ar para dentro do corpo, fluindo no ir&vir existencial, vale dizer, dando sustentação aos movimentos das mãos&braços etecetera, inclusive sangue. Esta é a visão filosófica do Yoga; isto é sorver o Prana.

Então, sorvendo&invertendo o Prana temos a oportunidade de direcioná-lo para o coração e, desde aí, obter uma experiência extática de quase morte. Ou seja, transformando-o de descendente em ascendente, pelo canal central (Sushumna), é possível experenciar&experimentar nossa natureza espiritual.

Neste processo, tanto na conquista da autorrealização quanto na obtenção dos benefícios, há de se conversar com o Prana, pedindo que promova a atuação do fogo de Kundalini. O calor carrega mais do que calor; carrega sinais de origem bons&ruins. E o yogin deve estar preparado, como tem sido dito, obediente&fiel ao Dharma. A base desse calor é a nossa identidade espiritual, que se manifesta com o Prana ascendente.

Portanto, Sarpasana é uma postura de purificação! A meditação na postura final, semelhante ao bastão em prece (uma variação do Dandasana como vimos acima), faz-nos evitar mentiras&falsidades, viabilizando nosso ajustamento&alinhamento&assentamento à Verdade. O fogo serpentino queima impurezas e coze a pureza, despertando uma vida benigna, em sintonia com o Dharma. É o que deve interessar ao yogin: ter uma mente obediente aos comandos do coração, sob a liderança de Isvara.

Ananta, o infinito.

Ananta significa sem limites! Na mitologia vaishnava, trata-se de uma cobra incomensuravelmente gigante com várias cabeças, flutuando no oceano cósmico e sustentando, em seu dorso, Narayana. Portanto, é uma perspectiva que aponta para dois universos: abaixo, representado pela água; e acima, pelo ar. Esta simbologia é aplicada ao Anantasana. Vejam abaixo, uma imagem que ilustra a postura.[7]

Caixa de Texto: Esta postura não aparece nos textos originais de Hatha Yoga e se inspira na iconografia vaishnava.Imagem em preto e branco deitado ao lado de uma mulher

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Portanto, a postura remete à ideia de fusão&integração dos dois universos, pois a cobra está ligada tanto ao mar quanto à terra. É a possibilidade de unir&fundir o subjetivo&objetivo. Ananta está no pescoço de Shiva, oferecendo significado aos seus poderes sobre o tempo. Ananta também tem conexão com Patanjali, o organizador do Yoga. Shiva é patrono do Yoga; o yogin primevo. Diz a mitologia do Yoga que Patanjali nasceu de uma fagulha de fogo do infinito (Ananta), que foi despejado&depositada nas mãos de sua mãe. O Yoga nos confere a possibilidade&oportunidade de irmos para além do tempo, mergulhando no Infinito&Absoluto.

Não podemos nos esquecer que a mitologia torna verdadeira as lendas. O Infinito é a natureza do Eu que reside no nosso coração. Ele, o Infinito, não está no passado nem no futuro, mas eternamente no presente. Ou seja, o presente é infinito. É o ponto (Bindu) sem direções. Não há tempo; é zero. E esse momento dura por toda a nossa existência. Dura, na realidade, todas as eras da manifestação, pois o Absoluto é consciência eterna, inefável, sem segundo, não nascida.

O Eu do coração pode experimentar&experienciar o Infinito desse momento, praticando a Anantasana com esse objeto de meditação. Essa experimentação&experiência aponta para a inexistência da morte&nascimento, cujos eventos são ilusórios&relativos. Portanto, não há passado&futuro, mas apenas o eterno presente. Ou seja, a nossa existência&vida transcorre de forma infinita, nunca começando&terminando. Essa percepção&intuição é uma dádiva do Anatasana. Assente-o no coração, com esse significado&significação em mente, no seu espaço interno&subjetivo!

 

 

 

 

 

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Aqui, usei, adicionalmente aos comentários das preleções do professor Carlos Eduardo, a parte central do sétimo diagrama, à p. 352/353, do livro de B.K.S. Iyengar, intitulado Luz sobre os Yoga Sutras de Patanjali, publicado pela Mantra, em São Paulo, em 2021.

[5] É apenas aparente a contradição da serpente com o bastão, como poderá ser observado adiante, na medida em que nela, em Dandasana, podemos despertar a mais nobre das serpentes, a da nossa natureza espiritual.

[6] Aqui, não vamos apresentar uma imagem do Sarpasana já que o professor Carlos Eduardo o remete novamente para o bastão como fez para expressar a Kundalini. Portanto, cobra é diferente, tanto física quanto mitologicamente falando. Assim, é contrário ao entendimento à postura moderna, conforme pode ser vista em Iyengar no seu livro Luz sobre o Yoga, publicado pela Pensamento, em São Paulo, em 2016, às pgs. 408-410. No entanto, reconheço a legitimidade da plasticidade moderna, que Iyengar denomina de Bhujangasana II. A opção de convergir para uma imagem similar&próxima ao Dandasana, sugerida pelo professor Carlos Eduardo, está em sintonia com os textos mais antigos. Dandasana propriamente dito, estará presente em outro grupo de significados&significações.

[7] Pode ser vista em Iyengar (2016; p. 256), que traz a foto final da postura, de número 290. Obra citada na nota de roda pé acima.

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