Agora é tempo de Yoga![1]
Grupo
das Cobras&Serpentes.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
As posturas podem nos sugerir várias
atitudes&motivações para a meditação durante suas posições finais
oferecidas pela Hatha Yoga. Uma delas, talvez a mais nobre dentre
outras, é a serpente que nos oferece a oportunidade&possibilidade de “partir”
em busca do si mesmo, da nossa própria natureza original.
Para tanto, temos um fundamento disponível
que deriva do Samkhya, no contexto da concepção da origem do universo, desde a
própria consciência em si mesma. Como sabemos, nesta doutrina que dá base ao
Yoga, existem duas faces distintas, mas que representam apenas uma única
natureza: Purusha&Prakriti. Por que existe apenas uma realidade última?
Porque são idênticos&indiferenciados, existindo de forma
imutável&infinita, sem limites!
Num determinado momento, a matéria recebe
um desconforto provocado do espírito, que cresce dez dedos, e continua
infinito. Como assim? Ele cresceu do avesso, virando-se para dentro. Então, a
matéria se desdobra em princípios que vão formar o universo. Esse processo cria
dois pares de opostos primordiais: masculino&feminino!
Os dedos são vazios&finitos, cuja
essência de vacuidade&finitude é que dá origem, que alberga o universo
manifestado. Claro, esses dedos não preenchem plenamente o espaço primordial,
representado pelo Infinito&Absoluto. Essa essência limitada&condicionada
é preenchida imediatamente pela matéria, que se desdobra&enumera,
primeiramente em inteligência cósmica (Mahat) e na consciência individual
(Citta), em sequência (vertical). Essa dupla produz a tríade, em bloco
(horizontal): o intelecto racional (Buddhi), a mente/pensamento (Manas), cujo
conjunto forma&gera o princípio de ego ou da
individualidade&separatividade (Ahamkara). Daí, sucessivamente, outros
elementos constitutivos da matéria (Prakriti) emergem, de acordo com o Samkhya:
órgãos de ação&percepção, além das substâncias estruturantes do universo em
si. Está configurada a criação&manifestação do Universo, segundo a
enumeração plena do Samkhya.[4]
Há, portanto, uma grande diferença da
concepção do universo segundo a ciência. Ela, a ciência, criou o entendimento
do Big Bang, que formou átomos&moléculas e, em desdobramentos
progressivos, faz surgir a vida, configurando, finalmente, a consciência. Portanto,
na mitologia&cosmologia hindu, a consciência vem em primeiríssimo plano. Ou
seja, o desdobramento do espírito (Purusha) oportuniza a matéria (Prakriti)
consubstanciar o que experimentamos&experenciamos em termos de
vida&morte&renascimento. Em outras palavras, somos o final do processo,
viemos da consciência universal, da natureza primordial (Purusha&Prakriti)
para a matéria manifestada e estamos convidados&condenados a reverter o
processo, retornando à consciência infinita&absoluta. Diga-se de passagem,
já somos essa Consciência!
Como? Essa é a pergunta fundamental que o
Yoga, enquanto união&fusão de toda multipilicidade&diversidade, nos
ajuda a responder! Aí, nesse cenário, temos a ferramenta&mecanismo da
criação subjetiva, de perceber&intuir, como que surgindo na mente de
Purusha (espírito), e acontecendo na matéria (Prakriti), como um aspecto&atributo
dele próprio, isto é, do si mesmo. Dentro desse escopo, podem ser evocadas
infinitas situações&condições, sendo uma delas a da serpente, que, como
elemento mítico&místico, representa esses fenômenos cósmicos da criação,
como desdobramento da&na mente.
Bastão (Dandasana).[5]
A postura do bastão pode nos oferecer esse
espaço interno&subjetivo de assentamento. É que dentro do Yoga nos
interessa uma determinada serpente, que sai do fogo cósmico e entra dentro de
nós, caracterizando&formando nossa natureza única&original. É a
Kundalini, o fogo serpentino, a serpente cósmica, que é macro, mas que em nós
resta micro, ao se instalar dentro de nossa coluna vertebral.
Ou
seja, a coluna vertebral tem vida própria. No Dandasana (postura do bastão),
que é, essencialmente, um cajado de poder&autoridade, ela pode se
manifestar. A Kundalini constitui nossa natureza espiritual. Mas que poder é
esse? É o poder sobre nossa mente. Sabemos que no Yoga, a mente controla o Prana,
e o Prana controla a mente. Por que controlar a mente? Para
ajustar&alinhar&assentar os três eu’s, isto é, o do corpo, o da mente e
o do coração. Ou seja, o coração, por meio de Isvara, comanda; a mente, por
meio da inteligência, decide; e o corpo, em equilíbrio, obedece. Ou não! Objetivamente,
a mente pode não obedecer, e pode, biologicamente falando, prejudicar o corpo. Por
isso, o devido&correto assentamento no espaço interno&subjetivo é
importante&necessário. Dito de outra forma: os três eu’s em
equilíbrio&equanimidade desvelam&revelam o Atman, o Quarto (Turiya), o
Eu (Sat&Chit&Ananda)! Assim, a mente pode servir de ponte entre o corpo
e o coração, onde habita o Ser, iluminando o ego com a Luz da consciência!
Kundalini dá&oferece esse poder para
assumirmos o controle da mente! Neste sentido, o fogo serpentino pode
escancarar as portas da libertação, mas também pode nos trazer
problemas&entraves. Objetivamente, com o canal central (Sushumna) obstruído
pode-se até entrar em desequilíbrio mental. Para fins do Yoga, é necessário
observar o Dharma, atender nossa vocação espiritual, além de
observar&atender a ética ióguica. A prática consubstancia o caminho da
transformação. Ou seja, para obter benefícios devemos pensar&falar&agir
de acordo com a nossa natureza original, caso contrário teremos problemas. O
fogo cósmico sem obstruções virá vigor, expressividade e, sobretudo,
consciência. Na prática, ela sobe serpenteando pelo canal central em direção&sentido
ao espaço mítico&místico do coração, fortalecendo o poder do equilíbrio
interno. O espaço do coração está representado pelas oito direções de Shiva,
que correspondem às oito pétalas do seu chacra (Anahata).
Ela pode subir firme em equilíbrio
imparcial, constante e pleno ao encontro do Eu. Sobe em direção&sentido da
consciência infinita&absoluta (Brahman). Desta forma, invertemos o processo
de criação do universo, que veio da perturbação do espírito (Purusha) expressa
por fenômenos cósmicos na matéria (Prakriti). Portanto, podemos sair do mundo
manifesto pelo recolhimento dos sentidos; Yoga, recolhimento dos
turbilhões&vórtices de pensamentos&volições da mente (Citta), para
mergulhar no Infinito, desde o Universo. Mergulhamos em Purusha (espírito), na
plenitude do si mesmo, saindo do avesso e entrando no Infinito, no espaço
imperecível&indestrutível. Esse exercício pode ser vivenciado com&no Dandasana.
Quando estiver nela, em sua posição final, coloque as mãos em oração e medite
nesse significado&significação! Vejam, abaixo, uma imagem ilustrada do
bastão.

Bhujanga, a cobra.

As mãos&braços representam a força do
nosso agir&fazer; nossa capacidade de realização. E isso simula a cobra,
pois é similar aos seus movimentos de deslocamento curvilíneos. Os olhos da
cobra apontam para a mente, onde nutrimos nossos desejos; seu olhar encanta
como a mente enfeitiça. As cobras são forças livres; e com venenos são
perigosas. Aí reside a metáfora, que aponta para a atitude de controle dos
desejos. Então, é controlar a mente ou fugir do controle, pelo fascínio dos
desejos. A mente seduz, encanta e conduz seus próprios caminhos ou descaminhos,
pois existem explicações para o certo&errado. Se não controlarmos a mente,
ela nos controla. Devemos, então, reforçar a atitude&motivação
correta&adequada e aprofundar&realizar o nosso Dharma.
Para tanto, e por outro lado, o estufar do
peito na posição final pode empoderar nosso coração, onde reside o comandante
Isvara. Devemos buscar forças para nos estabelecermos na nossa identidade
interna, assumindo o comando da nossa vida. Assim, evitar sermos levados pelos
comandos alheios, externos.
O poder da cobra está representado pelo
seu assento no pescoço de Shiva. Com esse poder devemos assumir nosso Dharma,
lançando mão do controle da mente, enquanto objeto de meditação durante a
posição final da cobra. A vida de Yoga é ganha quando controlamos nossa
capacidade de realizá-la!
Sarpa, a serpente.[6]
Sarpa significa rastejar em conexão com o
solo, simbolizando um movimento tortuoso. Pensamentos&palavras&ações
sem espontaneidade, que apontam para coisas não naturais, podem sinalizar um
simbolismo que fundamenta o falso. Ou seja, Sarpa simboliza um discurso
divergente. O que o yogin tem que praticar é um pensamento simples, correto e
sem devaneios. É o que a meditação em Sarpasana pode nos ajudar. Senão vejamos.
O objetivo de Sarpasana é converter uma
mente oscilante numa firme, qual a postura linear de um bastão. Esse movimento
retilíneo serve como uma ponte entre o ponto de partida e de chegada. Aqui,
novamente a simbologia da Kundalini deve ser aplicada. Ou seja, o fundamento da
postura é o sorver o Prana para dentro de todo o corpo, reconhecendo-o, para,
sem oscilações, conduzi-lo para cima. Esse preenchimento traz benefícios, assim
como em Bhujangasana, como o despertar de percepções clara e intuições puras.
Em nível fisiológico, o Prana, absorvido durante a prática, se expande&preenchendo,
não só nossa estrutura de órgãos&tecidos, mas, igualmente, toda rede de
canais sutis, ampliando a disposição&inteligência do corpomente. É como se
tomássemos um banho no oceano de Prana primordial&essencial. Objetivamente,
o Prana carrega&conduz o ar para dentro do corpo, fluindo no ir&vir
existencial, vale dizer, dando sustentação aos movimentos das mãos&braços
etecetera, inclusive sangue. Esta é a visão filosófica do Yoga; isto é sorver o
Prana.
Então, sorvendo&invertendo o Prana
temos a oportunidade de direcioná-lo para o coração e, desde aí, obter uma
experiência extática de quase morte. Ou seja, transformando-o de descendente em
ascendente, pelo canal central (Sushumna), é possível experenciar&experimentar
nossa natureza espiritual.
Neste processo, tanto na conquista da
autorrealização quanto na obtenção dos benefícios, há de se conversar com o
Prana, pedindo que promova a atuação do fogo de Kundalini. O calor carrega mais
do que calor; carrega sinais de origem bons&ruins. E o yogin deve estar
preparado, como tem sido dito, obediente&fiel ao Dharma. A base desse calor
é a nossa identidade espiritual, que se manifesta com o Prana ascendente.
Portanto, Sarpasana é uma postura de
purificação! A meditação na postura final, semelhante ao bastão em prece (uma
variação do Dandasana como vimos acima), faz-nos evitar mentiras&falsidades,
viabilizando nosso ajustamento&alinhamento&assentamento à Verdade. O
fogo serpentino queima impurezas e coze a pureza, despertando uma vida benigna,
em sintonia com o Dharma. É o que deve interessar ao yogin: ter uma mente
obediente aos comandos do coração, sob a liderança de Isvara.
Ananta, o infinito.
Ananta significa sem limites! Na mitologia
vaishnava, trata-se de uma cobra incomensuravelmente gigante com várias
cabeças, flutuando no oceano cósmico e sustentando, em seu dorso, Narayana.
Portanto, é uma perspectiva que aponta para dois universos: abaixo,
representado pela água; e acima, pelo ar. Esta simbologia é aplicada ao Anantasana.
Vejam abaixo, uma imagem que ilustra a postura.[7]

Portanto, a postura remete à ideia de fusão&integração
dos dois universos, pois a cobra está ligada tanto ao mar quanto à terra. É a
possibilidade de unir&fundir o subjetivo&objetivo. Ananta está no
pescoço de Shiva, oferecendo significado aos seus poderes sobre o tempo. Ananta
também tem conexão com Patanjali, o organizador do Yoga. Shiva é patrono do
Yoga; o yogin primevo. Diz a mitologia do Yoga que Patanjali nasceu de uma
fagulha de fogo do infinito (Ananta), que foi despejado&depositada nas mãos
de sua mãe. O Yoga nos confere a possibilidade&oportunidade de irmos para
além do tempo, mergulhando no Infinito&Absoluto.
Não podemos nos esquecer que a mitologia
torna verdadeira as lendas. O Infinito é a natureza do Eu que reside no nosso
coração. Ele, o Infinito, não está no passado nem no futuro, mas eternamente no
presente. Ou seja, o presente é infinito. É o ponto (Bindu) sem direções. Não há
tempo; é zero. E esse momento dura por toda a nossa existência. Dura, na
realidade, todas as eras da manifestação, pois o Absoluto é consciência eterna,
inefável, sem segundo, não nascida.
O Eu do coração pode
experimentar&experienciar o Infinito desse momento, praticando a Anantasana
com esse objeto de meditação. Essa experimentação&experiência aponta para a
inexistência da morte&nascimento, cujos eventos são ilusórios&relativos.
Portanto, não há passado&futuro, mas apenas o eterno presente. Ou seja, a
nossa existência&vida transcorre de forma infinita, nunca
começando&terminando. Essa percepção&intuição é uma dádiva do
Anatasana. Assente-o no coração, com esse significado&significação em mente,
no seu espaço interno&subjetivo!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2] Sínteses
ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia
dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos
Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] Aqui,
usei, adicionalmente aos comentários das preleções do professor Carlos Eduardo,
a parte central do sétimo diagrama, à p. 352/353, do livro de B.K.S. Iyengar,
intitulado Luz sobre os Yoga Sutras de Patanjali, publicado pela Mantra, em São
Paulo, em 2021.
[5] É
apenas aparente a contradição da serpente com o bastão, como poderá ser
observado adiante, na medida em que nela, em Dandasana, podemos despertar a
mais nobre das serpentes, a da nossa natureza espiritual.
[6] Aqui,
não vamos apresentar uma imagem do Sarpasana já que o professor Carlos Eduardo
o remete novamente para o bastão como fez para expressar a Kundalini. Portanto,
cobra é diferente, tanto física quanto mitologicamente falando. Assim, é contrário
ao entendimento à postura moderna, conforme pode ser vista em Iyengar no seu
livro Luz sobre o Yoga, publicado pela Pensamento, em São Paulo, em 2016, às pgs.
408-410. No entanto, reconheço a legitimidade da plasticidade moderna, que
Iyengar denomina de Bhujangasana II. A opção de convergir para uma imagem similar&próxima
ao Dandasana, sugerida pelo professor Carlos Eduardo, está em sintonia com os
textos mais antigos. Dandasana propriamente dito, estará presente em outro
grupo de significados&significações.
[7] Pode ser
vista em Iyengar (2016; p. 256), que traz a foto final da postura, de número
290. Obra citada na nota de roda pé acima.
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