13/01/2026

AGORA, YOGA!

 Agora é tempo de Yoga III[1]

Grupo de Posturas Equilíbrio sobre Pé&Mão.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Para ilustrar essa categoria, trago duas posturas trabalhadas pelo professor Carlos Eduardo, vishvamitrasana&vasishthasana, em dois módulos que se complementam como marco mitológico de ambas: a Siddha Sidhdhanta Paddhati (SSP) e o universo mítico dos Nathas.[4]

Acerca da Siddha Sidhdhanta Paddhati.

Gorakshanath é um dos mais importantes intelectuais da Índia medieval. E já registramos no grupo anterior que foi o criador da seita Natha e o autor da SSP. Essa espiritualidade&intelectualidade introduziu a doutrina do Yoga na linhagem Natha, ou seja, a grande sacada&pegada foi levar para o pensamento dos nathas a doutrina do Yoga. Essa perspectiva faz uma congruência do desenvolvimento histórico do Yoga com o dos nathas.

A partir da SSP os yogins passarão a ser considerados nathas, embora não sejam iguais. Porém, um abraçou o outro de tal sorte que a SSP funde os conceitos de nathismo&Yoga. E essa junção parcial, pois cada doutrina tem seus pressupostos, foi bom para o Yoga que andava meio em baixa em função da influência de quase um milênio do jainismo&budismo, conforme dito no grupo anterior. Objetivamente, o Natha refortaleceu o Yoga, trantificando-o. E o tantrificar não significa se tornar outra doutrina. O processo de transformação espiritual ióguico, no entanto, sofreu influência com a inclusão do aspecto&dimensão corporal.

A estrutura da SSP tem uma tese básica: o corpo é um microcosmo.[5] O nosso corpo é um conjunto de corpos sutis. Goraksha chama de pindam os corpos que formam o corpo, os quais devem ser lançados ao fogo como oferenda aos deuses. Pindam pode ser entendido como de cada um dos corpos, que se entrelaçam, desde o mais sutil até o mais grosseiro. Essa oferenda ritual é típica do Tantra. Em outras palavras, cada uma das partes de jivatman é destinada ao sacrifício. O conjunto todo, através da prática do Yoga, alcança a perfeição fazendo com que todos os corpos se tornem sutis, até o sutil do mais sutil, inclusive os mais grosseiros.

Na condição de sutis, eles deixam de ser consumíveis pelo fogo e à própria morte, passando à condição de imortalidade. Assim, passamos a existência de forma indestrutível, nos tornando o próprio universo. Como o universo é identificado como Shiva, então nos tronamos Shiva (shivoham).

A SSP dá a metageografia de liberação (moksha) e apresenta o Yoga como o caminho de união&integração no espaço (akasha). No meio da localização&generalização, ela coloca os oito passos&etapas (angas) do Yoga. Como se deve aprender o caminho da sutilização do corpomente? Através do guru (sadguru Shiva). Aquele que alcança Isvara é um avadhuta. O siddha, na seita dos Nathas, atinge a perfeição, cujo comportamento é considerado superior aos demais sábios. Esse comportamento é descrito na SSP. A SSP se tornou uma referência dentro da cultura tântrica, inclusive indo além da seita dos nathas. Portanto, é um texto sagrado importante!

A obra é expressiva também porque diz algo sobre o ásana. A frase que trata do ásana diz o seguinte:

 

“Asanam a condição de quem alcançou a sua mais autêntica natureza. Svastikasanam, Padmasanam, Siddhasanam, um destes é desejável para nele permanecer, para fixar a atenção. Assim é a característica do Asanam”

 

O ásana é possível apenas para quem alcançou sua natureza autêntica, isto é, não relacionada à flexibilidade, etecetera, mas sim à uma condição subjetiva. Portanto, é importante destacar a dimensão&aspecto subjetiva do ásana, que permite viver com autenticidade, para se capacitar e viabilizar os assentamentos da mente, realizando o Yoga do yogin devoto&disciplinado&desapegado. Goraksha comprou a ideia de união de Patanjali, então, não há contradição entre as escolas Yoga&Natha&Tantra, ainda que haja benefícios para a saúde&bem-estar, pois a mente os leva para o corpo, e não ao contrário.

Isto posto, afinando os ponteiros para a temática, no ásana/postura, quando a mente reflete sobre o significado&significação enquanto objeto de meditação, há uma transferência&transmutação no corpo. E cada reflexão&meditação da mente, algo transformador&transmutador acontece no corpo. Assim, o corpo não é ignorado no processo, mas aprofunda a prática. Filosófica&mitologicamente, um dos objetivos do Tantra é fazer o corpo se expressar por meio da sua natureza autêntica, na medida em que o corpo expressa o que se passa na mente. Os significados&significações oferecem os tijolos&argamassas para a construção do cenário&contexto com a mente, visando aplicação no corpo. Isso é Tantra! Ou seja, viver o cenário como corpomente! Para tanto, a mente precisa querer conduzir o processo, o que se dá com o núcleo liberador&libertador; o corpo é passivo e a parte visível do espírito, e se expressa junto com a mente. No Tantra, por fim, o corpo não é excluído e se assenta, no espaço interior&subjetivo, junto com o assentamento da mente, mediante significados&significações.

Em seguida, o segundo marco deste grupo de ásanas, acerca do universo mítico dos Nathas.

Os mitos são narrativas; boas narrativas, que falam ao inconsciente. Elas falam&dialogam ao&com o inconsciente. Logo, têm o poder de conduzir nossas mentes. Elas mobilizam forças do inconsciente, no universo subjetivo, que conduz o universo objetivo. Podemos argumentar em cima de dois fenômenos:

Primeiro ponto: a conexão entre a forma externa e o significado, apontando para o complexo de significações, é a técnica&método de repassar os ensinamentos dos nathas. Ou seja, quando os aspectos do significante (subjetivo) se conectam com o significado (objetivo), isso é Yoga! E isso acontece com o recolhimento das atividades da mente, de modo que a nossa natureza autêntica se manifeste, se expresse por meio do nosso corpo. Em outras palavras, quando ganhamos significação(ões) com a manifestação(ões), com a expressão (ões), isso é Yoga! Objetivamente, o sentido gramatical, com a força(s) que reside(m) na(s) palavra(s) aponta para o sentido doutrinário, despertando&iluminando força(s) dentro de nós, dentro do coração. Os nathas abraçam essa ideia, enquanto técnica&método, como sendo a mesma coisa; palavras certas, isto é, escolha de palavras certas. Ou seja, os ensinamentos são repassados&transmitidos nessa perspectiva&direção.

Segundo ponto: no processo, há uma explosão de significados numa relação subjetiva, todavia convencionada. Na realidade, no aprendizado há necessidade de insights (sphota), para a conexão da&com a ideia de forma instantânea, intuitiva. Logo, não necessidade de se estabelecer relações&raciocínios. Na percepção do vínculo&insight, ficam disponíveis grandes forças da(s) narrativa(s) mitológica(s). Não sabemos como funcionam essas forças; a explicação do fenômeno é indecifrável, sem a sabedoria Absoluta do Absoluto. A palavra remete à memória, à leitura, à reflexão, enfim, às marcas&tendências&traços. Insights explodem quando ouvimos o som! O sphota é uma força social&espiritual, inclusive, aponta para inovações de significados&significações.

A linguagem tântrica trabalha, continuamente, com essa malha de significados&significações, na forma de uma linguagem oculta. É uma malha complexa, pois conta com significados&significações corretas&incorretas. Então, qual a direção&sentido devemos adotar&tomar? Até que o ensinamento seja consolidado pode haver insinuações em consonância com a natureza experimental&comportamental de cada um. Porém, após a conquista da sabedoria é livre de pressões&condicionamentos, pois o sábio usufruirá a sua natureza autêntica. Não obstante, a bem da Verdade, não há certo&errado, mas visões&posições diferentes, pois o universo mítico é amplo e extrapola o individual. Dito de outra forma, é quando podemos imaginar&visualizar uma existência&vivência Absoluta além do dharma&adharma. Completamente pode ser dito, que as particularizações são recortes do universo mítico de acordo com a nossa capacidade. É sempre bom ter em mente, entretanto, que as palavras dizem sempre mais do que percebemos, ou seja, as palavras dizem infinitas mensagens dentro da malha de significados&significações.

O universo mítico dos nathas sinalizam para uma profundidade indescritível. Os mitos devem se reforçar mutuamente observados&vistos a partir de várias perspectivas ainda que pareçam contraditórios. A poesia consegue conciliar os opostos. O Yoga nega a separatividade, dispensando o racional. Assim, o sphota é uma explosão de impulsos que dá o insight, a visão. O objetivo da prática é impulsionar para enxergar, cujo processo nos leva para mais perto da libertação. Podemos nos tornar siddhas (perfeitos), livres para viver da forma mais autêntica possível, junto à nossa identidade&natureza espiritual. Isso é autorrealização! E esse é o objetivo essencial dos nathas.

Portanto, podemos nos conduzir para uma vida libertadora, para uma vida de Yoga. Podemos usar os significados&significações para gerar sphota, enquanto impulso para imprimir uma direção&sentido, objetivando liberação (moksha). Daí surge a oportunidade&possibilidade de mergulhar no Infinito, no Absoluto. Esse universo de infinitas posições&posturas foi desenhando pelos sábios&poetas&pensadores nathas.

Agora, falaremos sobre vishvamitra, o autor do gayatri.

Caixa de Texto: Visha significa tudo; mitra, amigo. Portanto, o ásana/postura representa amigos de todos! Assim, é um personagem amistoso; e um nome importante na mitologia hindu.

É uma postura exigente, que exige esforço médio, além das básicas. Então, como toda postura devemos nos ajustar ao nosso corpomente, e não ao modelito. O que importa é o sentido da postura. E que ela diz? Qual o cenário possível? É o que veremos adiante.

A base imaginária&visionária é o oceano de leite primordial, expressando um oceano de sabedoria ancestral, percebido&intuito pelos sábios originais. Há um conflito&querela antigo entre vishvamitra&vasishta, no sentido de disputas&debates intermináveis. No período védico, ambos eram importantes sábios; foram panditas (sacerdotes) do rei Sudas. Sábios em desarmonia&desequilíbrio? Como assim? Calma, mas já no momento do épico Ramayana eles estão reconciliados, comportando-se como amigos que se tratavam com respeito. Na conversa de Vasishta com Rama, com quase 30 mil versos, no clássico da não-dualidade Yoga Vasishta, num dado instante o guru é Vishvamitra. Desta forma, os dois, em paz, compartilharam o mesmo discípulo, o deus Rama, avatar de Vishnu.

Vishvamitra foi conselheiro de guerra, que acompanhava Rama. Ele foi instruído por um oficial&guru védico (Brhaspati), que ensinava a arte do ofício de arqueiro e repassava instruções&orientações sagradas&divinas, inclusive para Arjuna. Vashvamitra, então, recebe as condições para exercer as atividades de um guerreiro militar e de um sábio espiritual. Ele nasceu guerreiro (kshatriya), versado em filosofia&ciência nas artes da guerra. Mas, também se tornou um guru&sábio em questões de espiritualidade. Como? É que refeições mágicas, desejando um filho brâmane e, ao mesmo tempo, guerreiro “misturado”, resultou Vashvamitra, que é uma kshatriya com espírito bramânico, isto é, guerreito&sacerdote, inclusive intelectual&sábio. Portanto, ele foi educado na vocação guerreira, mas com habilidades para compor hinos&rituais. Desta forma, a vida espiritual foi sua opção existencial, deixando a atividade militar, quando passou a criar hinos védicos. É dele, como dito acima, a composição do Gayatri, contido no mandala 3 do Rigveda; já Vasishtha compôs o sétimo mandala. Gayatri é o verso mais importante do Rigveda. Possui uma essência de elevação espiritual. É dito que dominar seu significado&significação confere ao devoto conhecer todo o Veda. Essa narrativa demonstra a importância de Vashvamitra na cultura hindu. Talvez seja o objeto de meditação mais sublime para adotar na prática da vashvamitrasana!

Agora, Vasishtha, que traz a combinação virtuosa&auspiciosa do&da sábio&fortuna!

Caixa de Texto: Vasishtha significa riquíssimo, o mais rico de todos.
É uma postura moderna, não sendo encontrada nos textos místicos antigos.
Mulher com os braços para cima

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

É um dos sete sábios emanados diretamente da mente de Brahma. É lembrado junto com sua esposa Arundhati, virtuosa&atenta ao Dharma, considerada um rishi (sábia) da mesma estatura de Vasishtha. São identificados como duas estrelas, coexistindo juntas, na constelação da Grande Ursa, representando uma homenagem grandiosa&magnânima.

Como dito acima, no texto de Vishvamitra, Vasishtha é autor do mandala 7 do Rigveda. Portanto, é um sábio dotado de grande poder e tinha à sua disposição todos os bens necessários, pois tinha consigo a vaca kamadhenu, realizadora de todos os desejos. Vem saí sua ilustração de portador de sabedoria&riqueza. A fartura era marca registrada de Vasishtha, que multiplicava tudo o que fosse necessário, por exemplo, comida. Vasishtha está sempre acompanhado da vaca kamadhenu. Os poderes da kamadhenu são os poderes do mantra.

Quanto ao atributo da sabedoria, inerente à Vasishtha, vem da sua maestria com palavra, cujos ensinamentos instruía os discípulos, sobretudo, Rama, como já dito acima. Esse poder expressa o poder da palavra; a força do discurso. Essa perspectiva se complementa com a capacidade de escolher os desejos corretos&certos; palavras certas&corretas expressam aquele que deseja acessar o coração, onde habita o comandante Isvara, a quem devemos nos entregar de forma incondicional. O que é certo&correto é o que o Universo reserva para nós, nos permitindo alcançar&acessar.

As histórias, as lendas, as narrativas, os mitos são o que mais nos enriquecem&enriquecem nossas famílias. A riqueza&sabedoria de Vasishtha nos ampara&proteja e nos encaminha para o autoconhecimento. Ademais, essa fortaleza repassamos aos nossos descendentes. Todos podem ser direcionados a uma vida de Yoga, autorrealizados! Na postura final de vasishthasana meditemos que nos atributos de riqueza&sabedoria do sábio Vasishtha, na forma de seus significados&significações nobres&sublimes!

 

 

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Nesses módulos foram abordadas, ainda, kurmasana&makarasana, e mayurasana&krounchasana, respectivamente.

[5] A visão de Goraksha é, na realidade, de que cada parte do complexo corpomente é, por si só, um microcosmo.

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