Agora é tempo de Yoga III[1]
Grupo
de Posturas Equilíbrio sobre Pé&Mão.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
Para ilustrar essa categoria, trago duas
posturas trabalhadas pelo professor Carlos Eduardo, vishvamitrasana&vasishthasana,
em dois módulos que se complementam como marco mitológico de ambas: a Siddha Sidhdhanta
Paddhati (SSP) e o universo mítico dos Nathas.[4]
Acerca da Siddha Sidhdhanta Paddhati.
Gorakshanath é um dos mais importantes
intelectuais da Índia medieval. E já registramos no grupo anterior que foi o
criador da seita Natha e o autor da SSP. Essa
espiritualidade&intelectualidade introduziu a doutrina do Yoga na linhagem
Natha, ou seja, a grande sacada&pegada foi levar para o pensamento dos
nathas a doutrina do Yoga. Essa perspectiva faz uma congruência do
desenvolvimento histórico do Yoga com o dos nathas.
A partir da SSP os yogins passarão a ser
considerados nathas, embora não sejam iguais. Porém, um abraçou o outro de tal
sorte que a SSP funde os conceitos de nathismo&Yoga. E essa junção parcial,
pois cada doutrina tem seus pressupostos, foi bom para o Yoga que andava meio
em baixa em função da influência de quase um milênio do jainismo&budismo,
conforme dito no grupo anterior. Objetivamente, o Natha refortaleceu o Yoga,
trantificando-o. E o tantrificar não significa se tornar outra doutrina. O
processo de transformação espiritual ióguico, no entanto, sofreu influência com
a inclusão do aspecto&dimensão corporal.
A estrutura da SSP tem uma tese básica: o
corpo é um microcosmo.[5] O
nosso corpo é um conjunto de corpos sutis. Goraksha chama de pindam os
corpos que formam o corpo, os quais devem ser lançados ao fogo como oferenda
aos deuses. Pindam pode ser entendido como de cada um dos corpos, que se
entrelaçam, desde o mais sutil até o mais grosseiro. Essa oferenda ritual é
típica do Tantra. Em outras palavras, cada uma das partes de jivatman é
destinada ao sacrifício. O conjunto todo, através da prática do Yoga, alcança a
perfeição fazendo com que todos os corpos se tornem sutis, até o sutil do mais sutil,
inclusive os mais grosseiros.
Na condição de sutis, eles deixam de ser
consumíveis pelo fogo e à própria morte, passando à condição de imortalidade. Assim,
passamos a existência de forma indestrutível, nos tornando o próprio universo.
Como o universo é identificado como Shiva, então nos tronamos Shiva (shivoham).
A SSP dá a metageografia de liberação
(moksha) e apresenta o Yoga como o caminho de união&integração no espaço
(akasha). No meio da localização&generalização, ela coloca os oito
passos&etapas (angas) do Yoga. Como se deve aprender o caminho da
sutilização do corpomente? Através do guru (sadguru Shiva). Aquele que alcança
Isvara é um avadhuta. O siddha, na seita dos Nathas, atinge a perfeição, cujo
comportamento é considerado superior aos demais sábios. Esse comportamento é
descrito na SSP. A SSP se tornou uma referência dentro da cultura tântrica,
inclusive indo além da seita dos nathas. Portanto, é um texto sagrado
importante!
A obra é expressiva também porque diz algo
sobre o ásana. A frase que trata do ásana diz o seguinte:
“Asanam a condição de quem alcançou a
sua mais autêntica natureza. Svastikasanam, Padmasanam, Siddhasanam, um destes
é desejável para nele permanecer, para fixar a atenção. Assim é a
característica do Asanam”
O ásana é possível apenas para quem
alcançou sua natureza autêntica, isto é, não relacionada à flexibilidade,
etecetera, mas sim à uma condição subjetiva. Portanto, é importante destacar a
dimensão&aspecto subjetiva do ásana, que permite viver com autenticidade,
para se capacitar e viabilizar os assentamentos da mente, realizando o Yoga do
yogin devoto&disciplinado&desapegado. Goraksha comprou a ideia de união
de Patanjali, então, não há contradição entre as escolas
Yoga&Natha&Tantra, ainda que haja benefícios para a saúde&bem-estar,
pois a mente os leva para o corpo, e não ao contrário.
Isto posto, afinando os ponteiros para a
temática, no ásana/postura, quando a mente reflete sobre o
significado&significação enquanto objeto de meditação, há uma
transferência&transmutação no corpo. E cada reflexão&meditação da
mente, algo transformador&transmutador acontece no corpo. Assim, o corpo
não é ignorado no processo, mas aprofunda a prática.
Filosófica&mitologicamente, um dos objetivos do Tantra é fazer o corpo se
expressar por meio da sua natureza autêntica, na medida em que o corpo expressa
o que se passa na mente. Os significados&significações oferecem os
tijolos&argamassas para a construção do cenário&contexto com a mente,
visando aplicação no corpo. Isso é Tantra! Ou seja, viver o cenário como
corpomente! Para tanto, a mente precisa querer conduzir o processo, o que se dá
com o núcleo liberador&libertador; o corpo é passivo e a parte visível do
espírito, e se expressa junto com a mente. No Tantra, por fim, o corpo não é
excluído e se assenta, no espaço interior&subjetivo, junto com o assentamento
da mente, mediante significados&significações.
Em seguida, o segundo marco deste grupo de
ásanas, acerca do universo mítico dos Nathas.
Os mitos são narrativas; boas narrativas,
que falam ao inconsciente. Elas falam&dialogam ao&com o inconsciente.
Logo, têm o poder de conduzir nossas mentes. Elas mobilizam forças do
inconsciente, no universo subjetivo, que conduz o universo objetivo. Podemos
argumentar em cima de dois fenômenos:
Primeiro ponto: a conexão entre a forma
externa e o significado, apontando para o complexo de significações, é a
técnica&método de repassar os ensinamentos dos nathas. Ou seja, quando os
aspectos do significante (subjetivo) se conectam com o significado (objetivo),
isso é Yoga! E isso acontece com o recolhimento das atividades da mente, de
modo que a nossa natureza autêntica se manifeste, se expresse por meio do nosso
corpo. Em outras palavras, quando ganhamos significação(ões) com a
manifestação(ões), com a expressão (ões), isso é Yoga! Objetivamente, o sentido
gramatical, com a força(s) que reside(m) na(s) palavra(s) aponta para o sentido
doutrinário, despertando&iluminando força(s) dentro de nós, dentro do
coração. Os nathas abraçam essa ideia, enquanto técnica&método, como sendo
a mesma coisa; palavras certas, isto é, escolha de palavras certas. Ou seja, os
ensinamentos são repassados&transmitidos nessa perspectiva&direção.
Segundo ponto: no processo, há uma
explosão de significados numa relação subjetiva, todavia convencionada. Na
realidade, no aprendizado há necessidade de insights (sphota), para a conexão
da&com a ideia de forma instantânea, intuitiva. Logo, não necessidade de se
estabelecer relações&raciocínios. Na percepção do vínculo&insight,
ficam disponíveis grandes forças da(s) narrativa(s) mitológica(s). Não sabemos
como funcionam essas forças; a explicação do fenômeno é indecifrável, sem a
sabedoria Absoluta do Absoluto. A palavra remete à memória, à leitura, à
reflexão, enfim, às marcas&tendências&traços. Insights explodem quando
ouvimos o som! O sphota é uma força social&espiritual, inclusive, aponta
para inovações de significados&significações.
A linguagem tântrica trabalha,
continuamente, com essa malha de significados&significações, na forma de
uma linguagem oculta. É uma malha complexa, pois conta com
significados&significações corretas&incorretas. Então, qual a
direção&sentido devemos adotar&tomar? Até que o ensinamento seja
consolidado pode haver insinuações em consonância com a natureza
experimental&comportamental de cada um. Porém, após a conquista da
sabedoria é livre de pressões&condicionamentos, pois o sábio usufruirá a
sua natureza autêntica. Não obstante, a bem da Verdade, não há
certo&errado, mas visões&posições diferentes, pois o universo mítico é
amplo e extrapola o individual. Dito de outra forma, é quando podemos
imaginar&visualizar uma existência&vivência Absoluta além do
dharma&adharma. Completamente pode ser dito, que as particularizações são
recortes do universo mítico de acordo com a nossa capacidade. É sempre bom ter
em mente, entretanto, que as palavras dizem sempre mais do que percebemos, ou
seja, as palavras dizem infinitas mensagens dentro da malha de
significados&significações.
O universo mítico dos nathas sinalizam
para uma profundidade indescritível. Os mitos devem se reforçar mutuamente observados&vistos
a partir de várias perspectivas ainda que pareçam contraditórios. A poesia
consegue conciliar os opostos. O Yoga nega a separatividade, dispensando o
racional. Assim, o sphota é uma explosão de impulsos que dá o insight, a visão.
O objetivo da prática é impulsionar para enxergar, cujo processo nos leva para
mais perto da libertação. Podemos nos tornar siddhas (perfeitos), livres para
viver da forma mais autêntica possível, junto à nossa identidade&natureza
espiritual. Isso é autorrealização! E esse é o objetivo essencial dos nathas.
Portanto, podemos nos conduzir para uma
vida libertadora, para uma vida de Yoga. Podemos usar os
significados&significações para gerar sphota, enquanto impulso para
imprimir uma direção&sentido, objetivando liberação (moksha). Daí surge a
oportunidade&possibilidade de mergulhar no Infinito, no Absoluto. Esse
universo de infinitas posições&posturas foi desenhando pelos
sábios&poetas&pensadores nathas.
Agora, falaremos sobre vishvamitra, o
autor do gayatri.

É uma postura exigente, que exige esforço
médio, além das básicas. Então, como toda postura devemos nos ajustar ao nosso
corpomente, e não ao modelito. O que importa é o sentido da postura. E que ela
diz? Qual o cenário possível? É o que veremos adiante.
A base imaginária&visionária é o
oceano de leite primordial, expressando um oceano de sabedoria ancestral,
percebido&intuito pelos sábios originais. Há um conflito&querela antigo
entre vishvamitra&vasishta, no sentido de disputas&debates
intermináveis. No período védico, ambos eram importantes sábios; foram panditas
(sacerdotes) do rei Sudas. Sábios em desarmonia&desequilíbrio? Como assim?
Calma, mas já no momento do épico Ramayana eles estão reconciliados, comportando-se
como amigos que se tratavam com respeito. Na conversa de Vasishta com Rama, com
quase 30 mil versos, no clássico da não-dualidade Yoga Vasishta, num dado
instante o guru é Vishvamitra. Desta forma, os dois, em paz, compartilharam o
mesmo discípulo, o deus Rama, avatar de Vishnu.
Vishvamitra foi conselheiro de guerra, que
acompanhava Rama. Ele foi instruído por um oficial&guru védico (Brhaspati),
que ensinava a arte do ofício de arqueiro e repassava
instruções&orientações sagradas&divinas, inclusive para Arjuna.
Vashvamitra, então, recebe as condições para exercer as atividades de um
guerreiro militar e de um sábio espiritual. Ele nasceu guerreiro (kshatriya),
versado em filosofia&ciência nas artes da guerra. Mas, também se tornou um
guru&sábio em questões de espiritualidade. Como? É que refeições mágicas,
desejando um filho brâmane e, ao mesmo tempo, guerreiro “misturado”, resultou
Vashvamitra, que é uma kshatriya com espírito bramânico, isto é,
guerreito&sacerdote, inclusive intelectual&sábio. Portanto, ele foi
educado na vocação guerreira, mas com habilidades para compor
hinos&rituais. Desta forma, a vida espiritual foi sua opção existencial,
deixando a atividade militar, quando passou a criar hinos védicos. É dele, como
dito acima, a composição do Gayatri, contido no mandala 3 do Rigveda; já
Vasishtha compôs o sétimo mandala. Gayatri é o verso mais importante do
Rigveda. Possui uma essência de elevação espiritual. É dito que dominar seu
significado&significação confere ao devoto conhecer todo o Veda. Essa
narrativa demonstra a importância de Vashvamitra na cultura hindu. Talvez seja
o objeto de meditação mais sublime para adotar na prática da vashvamitrasana!
Agora, Vasishtha, que traz a combinação
virtuosa&auspiciosa do&da sábio&fortuna!

É um dos sete sábios emanados diretamente
da mente de Brahma. É lembrado junto com sua esposa Arundhati,
virtuosa&atenta ao Dharma, considerada um rishi (sábia) da mesma estatura
de Vasishtha. São identificados como duas estrelas, coexistindo juntas, na
constelação da Grande Ursa, representando uma homenagem
grandiosa&magnânima.
Como dito acima, no texto de Vishvamitra,
Vasishtha é autor do mandala 7 do Rigveda. Portanto, é um sábio dotado de
grande poder e tinha à sua disposição todos os bens necessários, pois tinha
consigo a vaca kamadhenu, realizadora de todos os desejos. Vem saí sua
ilustração de portador de sabedoria&riqueza. A fartura era marca registrada
de Vasishtha, que multiplicava tudo o que fosse necessário, por exemplo,
comida. Vasishtha está sempre acompanhado da vaca kamadhenu. Os poderes da
kamadhenu são os poderes do mantra.
Quanto ao atributo da sabedoria, inerente
à Vasishtha, vem da sua maestria com palavra, cujos ensinamentos instruía os
discípulos, sobretudo, Rama, como já dito acima. Esse poder expressa o poder da
palavra; a força do discurso. Essa perspectiva se complementa com a capacidade
de escolher os desejos corretos&certos; palavras certas&corretas
expressam aquele que deseja acessar o coração, onde habita o comandante Isvara,
a quem devemos nos entregar de forma incondicional. O que é certo&correto é
o que o Universo reserva para nós, nos permitindo alcançar&acessar.
As histórias, as lendas, as narrativas, os
mitos são o que mais nos enriquecem&enriquecem nossas famílias. A
riqueza&sabedoria de Vasishtha nos ampara&proteja e nos encaminha para
o autoconhecimento. Ademais, essa fortaleza repassamos aos nossos descendentes.
Todos podem ser direcionados a uma vida de Yoga, autorrealizados! Na postura
final de vasishthasana meditemos que nos atributos de riqueza&sabedoria do
sábio Vasishtha, na forma de seus significados&significações
nobres&sublimes!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] Nesses
módulos foram abordadas, ainda, kurmasana&makarasana, e
mayurasana&krounchasana, respectivamente.
[5] A visão
de Goraksha é, na realidade, de que cada parte do complexo corpomente é, por si
só, um microcosmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário