Agora é tempo de Yoga IV[1]
Grupo
de Posturas Sentadas.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
O professor Carlos Eduardo alberga o
vajrasana, o dandasana e o garbhasana debaixo do escopo dos Nathas no contexto
do Yoga Doutrinário. Adicionalmente, tomei a liberdade de incluir aqui o
parvatanasana, que o professor abordou na mitologia de ásanas associados aos
comentários do Yoga Sutras, como oportunidade&possibilidade de conferir
sphota (insights) diversos&múltiplos. Isto prova que no universo
mítico&místico, quântico&tântrico, interno&subjetivo e
sagrado&divino tudo é possível. Para tanto, admite-se as tendências&tradições
espirituais é convergente&coerente com a doutrina do Yoga, que foi definida
por Patanjali, organizando-o no Yoga Sutras (YS). Mas, voltando ao centro do
marco mitológico deste grupo de posturas em pé, temos que o primeiro texto
sagrado dos Nathas se chama SIDDHA SIDDHANTA PADHHATI (SSP), que traz os mesmos
oito membros do YS; então, não faz diferença, pois no essencial são
equivalentes.
O professor argumenta que a linha do tempo
do Yoga é uma só. Não obstante, no caso dos Nathas, há uma reinterpretação do
YS numa abordagem tântrica. Essa releitura tântrica faz algumas alterações
pontuais, mas, como dito acima, mantendo a essência de Patanjali, considerando
que a estrutura é preservada. Assim, do que se está falando exatamente? O SSP
altera os dois primeiros componentes Yama&Niyama, sem alterar a parte
visível do Yoga, uma vez que está consolidada&percebida na dimensão
comportamental. Desta forma, quais as diferenças, isto é, quais as dimensões
sutis? Para Gorakshanath, autor do SSP, deve haver, doutrinariamente, uma
reeducação em relação ao centro promotor das atitudes, no sentido de que Yama
são as forças que controlam o corpo. Essa é uma leitura diferente; é tântrica.
Portanto, não é puramente comportamental, ainda que incorpore essa dimensão.
Logo, não é só comportamental; trata-se, também, do controle do corpo, que
age&atua. Isto posto, Yama controla as forças objetivas. Já quanto o Niyama,
para Goraksha, deve ser entendido com as forças que controlam a mente; também
deve haver uma reeducação, observando que Niyama controla as forças subjetivas.
Essa é a grande diferença! No resto, as diferenças são, de fato, sutis.
Por que a mudança? Não se sabe a razão.
Uma possível&provável motivo&razão seria o fato de que os Nathas
restauraram o Yoga dentro do movimento tântrico, que transcorreu desde os
séculos VII/VIII, culminando com o ápice nos XI-XVII. Nesse período histórico,
aconteceu a recuperação do hinduísmo frente a predominância do
budismo/jainismo. O revigoramento do hinduísmo pode ter sido o motivo para a
releitura do YS, de Patanjali, pelos Nathas, na expressão do SSP, de
Gorakshanath.
E aí? O que isso traz para o contexto dos
significados&significações para assentamentos de ásanas/posturas no espaço
interno&subjetivo? Quais os impactos? Na realidade, nenhuma, salvo a
emergência do conceito&valor na prática espiritual do fogo serpentino
(Kundalini), que se tornou central no tantra dos nathas&shaivas. Essa
abordagem&perspectiva apenas complementa, mas não nega a doutrina do Yoga. Yoga
é um só! Essencialmente, não há diferença entre Raja&Hatha Yoga. Até porque,
nesse ínterim, surgiu o Shivaismo&Tantra, que estabelecem pontos de
contato&convergência com o Yoga, conforme já vimos em outro grupo de
ásanas/posturas em pé. São novas direções que foram elaboradas ao longo da
história, que se somam! Isto posto, os significados&significações continuam
a fornecer objetos de meditação para assentamentos no espaço
tântrico&quântico, tal qual como antes&agora&depois; como¶ sempre.
Agora vajra, o relâmpago, na forma de
vajrasana.

Vajra significa raio/relâmpago. Vem da
raiz vaj, desdobrando-se em de vraj, viajar/viajante; vj,
forte/poderoso. Ou seja, aquele que é poderoso&viaja pelo céu. Na visão
natha, representa o momento mágico do nosso nascimento: um raio imaginário
desce do céu e entra pelo ajna chakram, sendo conduzido pelo vajra nadi até a
cavidade kundam. Esse é o raio chamado kundali ou kundalini, onde fica enrolado
até o despertamento da nossa natureza original, autêntica, primordial,
essencial. Portanto, é nossa natureza espiritual. Após entrar magicamente, esse
raio fica dentro de nós até o momento da morte, representando a grande
deusa&mãe, enquanto poder&força feminina. Ou seja, vajra é o poder do
relâmpago dentro de nós!
A postura corporal formata o assentamento
da kundalini, recriando o espaço mágico do nascimento, quando recebemos a força
feminina dentro de nós, conforme dito acima. Em outras palavras, kundalini é a
deusa dentro de nós com o formato da nossa identidade pessoal&cósmica,
configurando o Dharma pessoal dentro do nosso corpo. A prática
oportuniza&viabiliza a dinamização&potencialização desse
poder&força pelo Prana. passando a se expressar pela nossa mente, na forma
do Dharma.
E no shivaismo? O que representa essa potencialização&dinamização?
O despertar do fogo serpentino aponta para a integração do jivatman com
paramatman! Mas, o que é Paramatman&jivatman? Devemos, mais uma
vez&sempre, nos reportar ao ensinamento upanixádico dos três eu’s: do
corpo, enquanto consciência; da mente, enquanto sonho; e do coração, enquanto
inconsciência! A combinação corpomente&coração é jivatman! E quando
harmonicamente integrados, se transformam em Atman que é idêntico a Brahman! Então,
esse Quarto (Turiya) é o Paramatman! Portanto, esses três eu`s podem estar
desintegrados, mas quando se unem&fundem, o indivíduo&sujeito se torna
Brahman ou Shiva!
Desta forma, há uma combinação
virtuosa&auspiciosa entre o entrar&sair! Ou seja, o raio de energia que
entra&fica, na forma da nossa natureza espiritual, com o poder&força da
deusa, se transforma num relâmpago de fogo que sai, na forma de liberação
(moksha), com a união Shiva&Shakti. Ou seja, o fogo no coração é que ensina
Brahmavidya (Conhecimento de Brahman), cuja doutrina inicia a mente na
superação&transcendência da dualidade. assim, o fogo também purifica a
mente, purificada pelo fogo do coração. É uma dobradinha paradoxal que aponta
para a transformação espiritual − objetiva&subjetiva,
tântrica&quântica, sagrada&divina, quando nos tornamos puros como o
raio&relâmpago!
Isto posto, esse poder, relacionado ao
vajra, oferece o cenário de empoderamento do Eu, para entronar Isvara dentro de
nós! A ideia é tornar o espaço do nosso corpo como espaço celestial,
materializando-o de forma sagrada, no coração. Esse espaço&corpo sendo
adotado&acolhido como um templo. Este é o sentido do ásana, vale dizer, a
sacralização do corpo com Isvara entronado no coração. E, com isto tudo,
estabelecendo o Dharma na nossa vida, em consagração! É um belíssimo objeto de
meditação frente aos significados&significações que a postura oferece, para
assentamento no nosso espaço interno&subjetivo![4]
Agora, danda, o bastão.[5]

Esse castigo era aplicado às pessoas que
descumprirem as normas®ulamentos éticos&morais aceitos&válidos. A
punição era simbólica, mas ilustrava um ponto de apoio&sustentação
adicional, apontando uma ética social para a sociedade. Portanto, danda
(bastão) era&é uma figura&emblema muito forte&poderoso; os líderes
comunitários um bastão como sinal de autoridade&poder. Hoje, é usado pelos
policiais indianos, pois causam temor aos cidadãos em desordem. Essa
subordinação&obediência decorre das relações míticas&místicas que os
indivíduos&sujeitos estabelecem com os símbolos de poder&autoridade. Funciona,
fundamentalmente, para sociedade estruturada em mitos.
Esse ásana/postura aparece em textos
tântricos medievais e foi difundida na modernidade, onde é amplamente
praticada. A coluna vertebral, como bastão de autoridade existencial do devoto
yogin, aponta para o Monte Meru, fortemente adotadas&abordadas nas
mitologias budistas&hindus&jainistas. O Monte Meru é considerado o
coração do Universo. É, também, aceito&acolhido como o seu eixo, em torno
do qual tudo se move – eixo Danda! O Himalaia, enquanto morada de Shiva, é
visto&vislumbrado como um eixo fixo que aponta para estrela polar, a mais
brilhante estrela que orienta o Norte, a direção mitologicamente associada ao
futuro.
Portanto, ela, a coluna vertebral, o
bastão, sustenta&mantem toda estrutura&esforços existenciais do yogin.
Mas antes disto, instituiu&organizou toda a criação. Assim, durante a
meditação na posição final, pode-se construir este cenário de sustentação,
visualizando o bastão (coluna vertebral) como o caminho&trajeto por onde
passa o Prana, que oferece energia&vitalidade para a nossa existência. Essa
consciência abre um poder de percepção&ação, que viabiliza&oportuniza
viver nossa vida de forma intensa. Além disso, há o peso mítico, pois o Danda
nos coloca no eixo do mundo, destacando&empoderando o si mesmo, o Dharma, o
Eu do coração. No limite libertador&liberador, essa força se expressa na
forma de Kundalini!
Agora vem garbha, o poder de nascer!
Garbhasana não está presente nos textos
clássicos, mas fica bem nesse conjunto de ásanas/posturas, oportunizando uma
ótima reflexão, como veremos. É bem praticado nos tempos atuais. Vejam, abaixo,
uma ilustração da posição final.

A configuração estética da postura/ásana
aponta para um feto num útero! Na cultura sânscrita, no entanto, o conceito é
mais utilizado como espaço interno&subjetivo destinado à gestação.
Extrapolando miticamente podemos associar&correlacionar com Hiranyagarbha,
o útero dourado, o ovo cósmico a partir do qual o Universo de originou. O ouro
representando a imortalidade, isto é, o espaço imorredouro onde o universo foi
criado. É um nome dedicado ao deus Brahma, o criador.
Assim, podemos correlacionar o ovo do
cosmos, útero do universo como o espaço subjetivo, no qual vai nascer um
micro¯ocosmo, e por corolário, um espaço mítico onde a mente organiza
as forças que circulam no universo produzindo o macroµ. Traz a noção
geral de um espaço compacto, que vai produzir expansão; num sentido específico,
faz a criação acontecer para gerar&produzir vida. Desta forma, pode ser
aceita&admitida como a morada do deus Brahma, o criador, exatamente no
muladhara chakra, que fica na raiz da nossa coluna vertebral. Essa morada
específica dá sustentação à raiz que eleva o fogo serpentino ao longo da coluna
vertebral.
Na posição final de garbhasana, podemos
adotar como objeto de meditação as significações&significados
disponibilizados por essa mitologia, associada ao garbha, visualizando o
Dharma, como que residindo dentro de uma semente, que nasce, cujo nascimento
vem da imobilidade. Esse poder é extremamente importante pois permite
nascermos&renascermos a cada momento&instante, a cada aqui&agora,
abandonando o que já foi, reformulando&recomeçando novas
atitudes&comportamentos. Assim, temos a oportunidade&possibilidade de
corrigir os rumos e ajustar nosso Dharma. Ou seja, podemos sempre abandonar
hábitos&decisões ruins&equivocadas. Ou seja, assentar a vida é
morrer&nascer para uma vida correta&justa, uma vida de Yoga!
Finalmente, vejamos uma combinação
auspiciosa das três posturas acima. É que essa combinação dá&oferece
expressão ao poder da vida, que reside dentro de nós, sob o ordenamento da mãe
verdadeira, a Kundalini! Visualize o vajra no coração, o danda
como coluna vertebral e o garbha na raiz, na base da
coluna. Além de auspiciosa, é também uma combinação&visualização
compassiva, unindo o conjunto dos significados&significações assentadas
numa só meditação, no espaço interno&subjetivo!
Agora,
finalmente, parvatanasana, conforme anunciamos no início de grupo, um
ásana/postura extraclasse aos Nathas no contexto do Yoga doutrinário, que
serviu de marco mitológico para vajra&danda&garbha, para apontar
perfeita&rigorosa adaptabilidade&resiliência das mitologias que
oferecem significados&significações para assentamento no espaço
interno&subjetivo.
Sabemos que mitologicamente Kailasha, no
Himalaia, é a montanha de Shiva. Ela também para os budistas&jainistas. Sua
(meta)geografia aponta para o norte (uttara), isto é para cima e para o alto. A
montanha, claro, define a sentido para cima. Além disso, representa, também,
imobilidade. Em paralelo, é bom registrar que Parvati é filha do Himalaia e
esposa&consorte de Shiva, que seguem em União, em Yoga.

Há um texto tântrico, o Rudrayamala Uttara
Tantra (RUT), que traz uma frase enigmática. Trata-se do
apontamento&ensinamento de uma grande felicidade pela destruição dos seis
chakras (ou 6 yantras). Espera aí, como assim? É que embora os chakras sirvam
para dinamizar o Prana e despertar a Kundalini, que aquecida flui para o alto
da cabeça, oferecendo o Samadhi (êxtase, enquanto experiência de quase morte),
sinaliza, também para uma autoiniciação. Não obstante, para imobilizar a mente,
tem-se que destruir os chakras. Ou seja, os seis yantras
associados&correlatos constroem&destroem. O parvatanasana tem,
portanto, o objetivo da imobilidade&elevação, como dito acima.
Um outro texto tântrico, o Siddha
Siddhanta Paddhati (SSP), já antes citado, também oferece sustentação para a
imobilização dos sentidos por meio da yoni mudrá. Assim, os
trabalhos&esforços de imobilização da mente&sentidos podem&devem
estar colocados&inseridos numa mesma perspectiva.
Pode-se citar, ademais, uma outra
possibilidade mitológica, na medida em que parvata, sétima&oitava nota na
gramática sânscrita, representa as sete cadeias de montanhas que cercam o Monte
Meru. O SSP descreve seis montanhas no corpo. A perspectiva purânica,
igualmente, descreve as montanhas (não visíveis) do corpo. Ou seja, o Monte
Meru representa as sete costelas, que formam a proteção dada ao coração pela
caixa torácica, que é a morada de Brahman. Neste sentido, parvatanasana está
associado ao coração. Então, 7&8 são a localização&chamamento do Eu do
coração. Parvatanasana constrói na mente um assento para meditação, que oferece
tranquilidade para a imobilização&elevação para o despertar do Eu do
coração, Brahman, o Absoluto.
Parvatanasana é um assento de pedra em
nosso coração. É um ásana extremamente subjetivo, pois corresponde ao
silenciamento do corpomente. Vejam, agora, o que diz os versos 23.52, do RUT, e
o 3.10, do SSP, respectivamente:
Agora falarei, ó mahadeva da grande
felicidade do parvatanasam, que, tendo sido feito por aquele que tem firmeza,
pode se tornar a primeira destruição dos seus chakras.
O Monte Meru reside no território de
Meru, Kailasha reside no Brahmarandha (portal de Brahma), o Himalaia reside nas
costas, o malaya no lado esquerdo do pescoço, o mandoca na orelha direita, o
mainaka na orelha esquerda, a montanha shri na testa. Estas são as oito
montanhas principais (kulaparvatas). As outras montanhas secundárias residem em
todos os dedos.
O parvatanasana sugere a obtenção de um
estado de centramento, sustentado pelo coração; a firmeza, a elevação, a
grandiosidade da montanha são elementos míticos do Yoga. Shiva é frequentemente
representado o meditador na montanha. Então, vamos meditar como Shiva que somos,
para uma vida de Yoga, aqui&agora!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] No
curso, neste módulo, o professor Carlos Eduardo disserta sobre diversas
mitologias hindus&budistas que se entrelaçam, afirmando que há histórias
intermináveis que se conectam mitologicamente. Aqui, fiz opção por ilustrar os
atributos do marco mitológico associado&correlato. Porém, deixo registrado
o belíssimo mantra do budismo tibetano, o mais sagrado&popular, que aponta
para a transformação espiritual búdica pela compaixão&sabedoria disponível
para todos os seres: om mani padme hum; registro,
ainda, o objeto de prática dorje, simbolizando o raio&relâmpago, que
aponta para a indestrutibilidade espiritual e irresistibilidade da iluminação.
[5]
Observe-se que já trabalhamos o dandasana, numa variação que consubstancia a
busca do si mesmo, via fogo serpentino. Vide primeiro grupo de posturas!
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