Agora é tempo de Yoga V[1]
Grupo
de outras Posturas Sentadas&Deitadas.[2]
Significados&Significações para
Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]
Aqui vamos abordar o ásana na era do
budismo. E para ilustrar seu marco mitológico, vamos estudar as posturas matsyasana&matsyendrasana,
que o professor Carlos Eduardo explorará o peixe&guru
(matsya&matsyendra). Além disso, vamos trazer mais duas:
simhasana&uttanapada, incluídas num módulo cuja preleção do professor foi
vertida às origens védicas do ásana.
Assim, começando pela perspectiva do
budismo.
No século VI, incipientemente, teve início
a concepção de ásanas como posturas do corpo. Todavia, o desenvolvimento dessa
perspectiva, de fato, ocorreu a partir do século XII. Portanto, deste a era
védica, passando pelo Yoga Sutras, houve uma espécie de “evolução”, do ásana
enquanto assentamento da mente para o ásana como assentamento do corpo.[4] E
esse período podemos demarcar com sendo o primeiro milênio, época em que
predominava o budismo, na Índia, já migrando para outras regiões orientais.
O rei Ashoka adota o budismo como cultura
oficial de estado, predominando no território indiano por um milênio. Portanto,
a cultura budista era o pano de fundo cultural até a chegada de Sankara, o
organizador do Advaita Vedanta, a visão&escola da não-dualidade. Pode-se
visualizar com a hipótese, o ásana como assentamento para meditação na era
budista, considerando sua iconografia. Nela, a partir do pedestal da escultura,
vemos, claramente, a posição das pernas&mãos; estas em mudrá (gestos de
poder). Portanto, a inspiração budista para o conceito de ásana, como
desenvolvimento da postura corporal ao longo de primeiro milênio, parece ser a
melhor hipótese, no mínimo, uma boa proposição&possibilidade. Isto, sem
dúvida, provocou, até a chegada do século XX, a mudança de abordagem. Em outras
palavras, na era moderna, o ásana se torna uma postura do corpo, se esquecendo
da sua origem, que é, originalmente, para o assentamento da mente. É claro que
há idas&vindas do conceito&concepção original de ásana, é o
desenvolvimento do Hatha Yoga, no bojo do segundo milênio, durante a história
medieval, é um bom exemplo, uma boa demonstração. O Tantra também
libera&liberta o espírito!
Agora, finalizando o marco mitológico deste
grupo, segue algumas anotações sobre as origens védicas do ásana.
Para começo de conversa, ásana era
entendido como um lugar para sentar-se, uma espécie de residência, de porto
seguro favorável&factível para obter-se permanência&preservação; esses
são os significados primários do ásana nos primórdios da era védica. Ou seja,
pressupõe uma necessidade de imobilização, de se permanecer imóvel por algum
tempo. À propósito, essa inevitabilidade continua presente na era moderna,
apesar&sobretudo em função do atributo da velocidade com que tudo acontece
na sociedade; talvez até mesmo haja maior demanda por esse porto seguro. O
assento&assentamento imobiliza a mente&sentidos, os quais são fontes de
perturbações, portanto, de intranquilidades. Sabemos que a desconforto mental
agita; e que o conforto, por pressuposto, calma. Simples assim!
A ideia básica, então, é estabelecer um
comando interno da¶ mente, para que o comandante Isvara, residente em
nosso coração, assuma o comando da nossa existência&vida, por meio da percepção&intuição
puras&imaculadas, via disciplina&despego&devoção. A partir daí,
pode-se desfrutar da identidade Atman=Brahman! Objetiva&subjetivamente o Eu
do&no coração assume o comando do corpomente numa base de sustentação
estável&equilibrada, não só no tapetinho, mas, sobretudo, no cotidiano e
durante o curso da existência mundano-secular.
Ásana, no seu sentido corporal, é bom que
se diga, não era um componente do Yoga, que, conforme dito acima, ganhou
evolução com o Hatha Yoga. A Hatha Yoga Pradipika, um clássico do Tantra do
século XIV, traz a ideia de cadeira, trono, verdadeiramente, assento, que
proporciona o alinhamento&ajustamento do corpomente&coração. Muito
antes dela, a Svetasvatara Upanishad aponta, definitiva&embrionariamente,
para o surgimento da doutrina do Yoga, com a orientação da postura clássica com
coluna&tronco e pescoço&cabeça como um só membro do corpomente. Esse
processo de harmonização do corpo, aquietamento da mente e pacificação do
coração pode&deve ser conduzido por mitos, bons&corretos, levando a
mente para uma zona de conforto&estabilidade. Nessa linha do tempo,
chegamos, ao Yoga Sutras, que, como sabemos, orienta exatamente
estabilidade&conforto para a prática de ásanas, condizente com o Eu que
reside no coração. Portanto, por interpolação, podemos assegurar que a
orientação do YS conduz&leva à eliminação das dualidades, por meio da
imobilidade&equanimidade. Cita-se, ainda, a Katha Upanishad, que sinaliza
que o yogin assentado viaja para longe, mergulhando no Infinito dentro do seu
coração! Novamente, a essência do ásana aponta para o abandono das dualidades,
viabilizando&oportunizando perceber&intuir a presença do comandante
Isvara em nossa vida. O alinhamento&ajustamento dá-se trazendo o coração
para a mente e desta para o corpo; ou, no sentido inverso, corpo para a mente
e, em seguida, para o coração. Nesse processo finalizado com
justeza&firmeza reconhecemos&destacamos o Atman, na forma do Quarto
Estado (Turiya), que é idêntico a Brahman! Nossa existência se transforma em
Realidade&Consciência&Felicidade!
Agora, matsya&matsyasana e matsyendra&matsyendrasana!
As quatro denominações representam um
animal, o peixe, e um ásana, a postura do peixe; e, do outro lado, um homem, um
guru, e outro ásana, a postura da torção. Desta forma, matsyasana&matsyendrasana
têm histórias mitológicas, com variações que se associam em torno da Verdade. Senão,
vejamos: Matsya aponta para a Verdade (satyam)! Ou seja, matsya possui&tem
uma relação mágica com a Verdade. Na Índia, os rios são femininos, dedicados às
deusas. No caso, o rio Saravasti, enquanto aspecto feminino de Brahman, o
Absoluto, representa a deusa da linguagem comprometida com a Verdade. O povo
matsya, os matsyas, compuseram os Vedas às margens do rio Sarasvati. Daí vem a
associação&correlação de matsyasana, na medida da beberagem do Soma,
visando inspiração poética, isto é, matsya expressa essa simbologia, enquanto
sentido oculto das palavras. Mas antes disso, o mito diz que Manu, o primeiro
homem, foi abordado por um peixinho, que disse: “me proteja, que te
protegerei”. O peixinho, então, com a proteção, cresceu tanto que não cabia num
rio, muito menos num oceano. Assim, Ele se revela, como Brahman, o Absoluto, dizendo
estar satisfeito com a proteção.[5] Em
decorrência entrega a sabedoria ancestral, Vedas, para Manu. Percebam&vejam
o entrelaçamento marco mitológico: Vedas&Verdade. Portanto, o peixe é a
vida! As profundezas das águas, onde habitam os peixões&peixes&peixinhos,
em potência e em manifestação, apontam para o oceano do inconsciente; o peixe
protege&defende o que é verdadeiro dentro de nós! Há, aqui, um
pulo&salto tântrico&quântico!
Em complemento ao tópico, matsyendra, o
guru, dá suporte para matsyendrasana, o outro ásana/postura acima registrado. Como?
É o que veremos: é que a torção possui dupla direção, permitindo estar estarmos
atentos para os dois lados; são sinônimo de iniciados em
práticas&mistérios, tal qual leite&mel! Matsya, igualmente, como
Verdade, dá esse suporte à esse marco mitológico, na qualidade de autores dos
hinos védicos, como dito acima. Essa percepção é importante tanto para o
shivaismo quanto para o tantrismo, e, por pressuposto, também para o Yoga. É
dito que Matsyendra, filho de Shiva, assumiu a forma de peixe para ensinar
Yoga! Aqui, outro salto&pulo mágico&&mítico, pois os iniciados
tântricos aceitam que esse guru tenha tido uma vida de 1.300 anos! Montado
sobre um peixe ou saindo de uma boca de um peixe é a iconografia representativa
de Matsyendra. Matsyendra Natha foi guru de Goraksha Natha, o iniciador da
tantrismo Kaula. Então, ambos são importantes personagens históricos, no
contexto da cultura&mitologia sânscrita. Ambos possuem o acesso à Verdade!
Ambos possuem a visão direta da Verdade! Enquanto poetas, enxergam a Verdade
pela poesia. Não podemos nos esquecer que a poesia é expressão da verdade
espiritual.
Isto posto, podemos&devemos praticar
matsyasana&matsyendrasana mirando&focando o compromisso ióguico com a
Verdade, atitude&motivação que pode&deve ser constante&permanente. Esse
é o espírito com que os yogins&yoginis podem&devem praticar esses dois
ásanas, apoiados&sustentados pelos aspectos&atributos dos
significados&significações das mitologias de matsya&matsyendra,
assentando-os no espaço interno&subjetivo!
Vejam, abaixo, duas
ilustrações&variações para as posturas do peixe&torção, respectivamente.
Uma outra variação para o peixe seria
colocar as pernas como em padmasna; já para a torção seria abraçar os
joelhos, segurando as mãos atrás das costas. Ambas são mais difíceis de
executar para quem possui pouca flexibilidade.
Agora, simhasana, o assento do leão!
O leão não é nativo da Índia; é da África.
Porém, se incorporou à mitologia hindu, servindo de veículo para a grande
deusa&mãe Durga. A atitude do leão é de voracidade, então, é visto como
devorador de carnes. Não obstante, mitologicamente, é entendido como o trono
majestoso&real do rei. Qual rei? Isvara, o rei que preside nosso coração. Portanto,
o leão está associado&ligado ao rei&coração. Como isto se dá? É o que
vamos ver!
Para começar, temos que visualizar a visão
de que o leão é inimigo do elefante. Este, o elefante, representa as grandes
forças; aquele, o leão, é percebido como o devorador das forças. Por outro
lado, na astrologia hindu, o leão representa o sol, o centro do sistema. Traz
sorte, pois simboliza um bom augúrio, mesmo tendo natureza ameaçadora. Está
associado&correlacionado às montanhas, habitat do leão; assim, o leão
circula na coluna pelo canal pingala, do sol, amarelo. O canal sutil pingala é
o leão! Lembremos que as vertebras mitologicamente representam montanhas, o que
até já foi dito antes. Adicionalmente, o rugido do leão, quando entra dentro do
canal sushumna, representa o grande som da natureza, OM, que é pura vibração, a
última essência. Há, desta forma, uma sublimação do rugido bruto do leão, que
se transforma no OM refinado&purificado. No coração, ocorre a União de
Shiva&Shakti, cujo Uno, cuja Unidade segue até o portal do Infinito, para a
morada de Brahman, o Absoluto.
Finalizando, simha simboliza garra,
ferocidade! É com essa energia&força que ele, simha, ruge, entrando no
canal sutil central, até a sua transformação final, apontando para a
autorrealização do devoto. Fica, então, ratificado o
significado&significação do simhasana como o assento&trono do rei,
Isvara, que comanda nossa existência desde o coração, espaço
interno&subjetivo do devoto. É com Isvara que obtemos a
graça&glória&benção da liberação&libertação. O ásana, em si mesmo,
pode representar uma homenagem ao comandante interno, Isvara!
Adiante, uma visão da postura, simhasana,
exatamente da variação que registra seu rugido.
As descrições modernas são
diferentes das dos textos antigos, até mesmo incompatíveis. Esta é uma
variação largamente praticada na modernidade. Simha está presente tanto na
mitologia vaishnava quanto na shaiva. Aponta para prajna, intuição!
Agora, uttanapada, a força da ascensão!
Com uttanapadasana imaginamos a poder da
criação e a grande força associada ao Soma, conforme ensina o Rigveda, no hino
X,72: (que) faz a comida surgir, o espaço surgir, as quatro direções surgirem,
a partir do não-existente. Nesse objeto de meditação, pode-se&deve-se
meditar, meditar, meditar até se obter a graça!
Há, ainda, outro indicador mitológico: é a
estrela polar, ocupando a posição central no universo, que não se move, nem na
destruição ela perde a posição de centralidade. Ou seja, representa a sabedoria
indestrutível que está no coração. É outro objeto de meditação no qual se pode&deve
meditar, meditar, meditar até obter uma benção!
Ademais, uttanapadasana tem uma posição
simbólica importante junto aos vegetais. Apoiados na terra com os
pés&mãos&pernas&braços estendidos apontando para caminhos no céu,
como um cavalo alado! Representando o fogo na mitologia hindu, fogo que vem do
céu e sobe como Soma pelos vegetais, conforme já descrevemos antes.
Portanto, há um aglomerado de
significados&significações que podem&devem ser adotados para o
assentamento do uttanapadasana no espaço interno&subjetivo! Podemos
pensar&refletir, meditando, nas grandes forças do Infinito cósmico, que
fazem a ordem existente brotar do inexistente. E isto é muito forte&poderoso!
Vejamos, abaixo, uma ilustração da
postura.
Uttanapada representa as
fraquezas da mente, superadas com as forças presentes no coração!
[1] Por
Antônio José Botelho.
[2]
Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A
Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de
Carlos Eduardo Barbosa.
[3] Este é
o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.
[4] Evolução
entre aspas porque, como sabemos, a essência do ásana é seu assentamento no
espaço interno&subjetivo do coração, com a congruência&confluência do
corpo&mente equilibrado&quieto. Para tanto, nunca podemos&devemos
nos esquecer do ajustamento&alinhamento do corpomente&coração para a
liberação&libertação do espírito, ainda que saibamos que o Yoga é para
todos, em quaisquer circunstâncias&cenários, quando praticado com correção&coerência
como veremos no próximo grupo de ásanas.
[5] O
professor Carlos Eduardo, no módulo da preleção, comenta a equivalência com a
parábola bíblica da Arca de Noé, ou seja, Noé constrói, sob inspiração divina,
uma arca para resistir&sobreviver, com proteção sagrada, a um dilúvio que
destrói toda a vida.
[6] Na nota
finalística, traremos algumas descrições dos textos clássicos Gheranda Samhita
e Hatha Yoga Pradipika, além de outras modernas como as do Iyengar.
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