18/01/2026

AGORA, YOGA!

 Agora é tempo de Yoga IV[1]

Grupo de Posturas Sentadas.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

O professor Carlos Eduardo alberga o vajrasana, o dandasana e o garbhasana debaixo do escopo dos Nathas no contexto do Yoga Doutrinário. Adicionalmente, tomei a liberdade de incluir aqui o parvatanasana, que o professor abordou na mitologia de ásanas associados aos comentários do Yoga Sutras, como oportunidade&possibilidade de conferir sphota (insights) diversos&múltiplos. Isto prova que no universo mítico&místico, quântico&tântrico, interno&subjetivo e sagrado&divino tudo é possível. Para tanto, admite-se as tendências&tradições espirituais é convergente&coerente com a doutrina do Yoga, que foi definida por Patanjali, organizando-o no Yoga Sutras (YS). Mas, voltando ao centro do marco mitológico deste grupo de posturas em pé, temos que o primeiro texto sagrado dos Nathas se chama SIDDHA SIDDHANTA PADHHATI (SSP), que traz os mesmos oito membros do YS; então, não faz diferença, pois no essencial são equivalentes.

O professor argumenta que a linha do tempo do Yoga é uma só. Não obstante, no caso dos Nathas, há uma reinterpretação do YS numa abordagem tântrica. Essa releitura tântrica faz algumas alterações pontuais, mas, como dito acima, mantendo a essência de Patanjali, considerando que a estrutura é preservada. Assim, do que se está falando exatamente? O SSP altera os dois primeiros componentes Yama&Niyama, sem alterar a parte visível do Yoga, uma vez que está consolidada&percebida na dimensão comportamental. Desta forma, quais as diferenças, isto é, quais as dimensões sutis? Para Gorakshanath, autor do SSP, deve haver, doutrinariamente, uma reeducação em relação ao centro promotor das atitudes, no sentido de que Yama são as forças que controlam o corpo. Essa é uma leitura diferente; é tântrica. Portanto, não é puramente comportamental, ainda que incorpore essa dimensão. Logo, não é só comportamental; trata-se, também, do controle do corpo, que age&atua. Isto posto, Yama controla as forças objetivas. Já quanto o Niyama, para Goraksha, deve ser entendido com as forças que controlam a mente; também deve haver uma reeducação, observando que Niyama controla as forças subjetivas. Essa é a grande diferença! No resto, as diferenças são, de fato, sutis.

Por que a mudança? Não se sabe a razão. Uma possível&provável motivo&razão seria o fato de que os Nathas restauraram o Yoga dentro do movimento tântrico, que transcorreu desde os séculos VII/VIII, culminando com o ápice nos XI-XVII. Nesse período histórico, aconteceu a recuperação do hinduísmo frente a predominância do budismo/jainismo. O revigoramento do hinduísmo pode ter sido o motivo para a releitura do YS, de Patanjali, pelos Nathas, na expressão do SSP, de Gorakshanath.

E aí? O que isso traz para o contexto dos significados&significações para assentamentos de ásanas/posturas no espaço interno&subjetivo? Quais os impactos? Na realidade, nenhuma, salvo a emergência do conceito&valor na prática espiritual do fogo serpentino (Kundalini), que se tornou central no tantra dos nathas&shaivas. Essa abordagem&perspectiva apenas complementa, mas não nega a doutrina do Yoga. Yoga é um só! Essencialmente, não há diferença entre Raja&Hatha Yoga. Até porque, nesse ínterim, surgiu o Shivaismo&Tantra, que estabelecem pontos de contato&convergência com o Yoga, conforme já vimos em outro grupo de ásanas/posturas em pé. São novas direções que foram elaboradas ao longo da história, que se somam! Isto posto, os significados&significações continuam a fornecer objetos de meditação para assentamentos no espaço tântrico&quântico, tal qual como antes&agora&depois; como&para sempre.

Agora vajra, o relâmpago, na forma de vajrasana.

Caixa de Texto: Vajrasana! Postura do Diamante! É uma denominação mais budista do hindu. É o nome do assento do trono imaginário onde Buda se iluminou debaixo da figueira sagrada

Vajra significa raio/relâmpago. Vem da raiz vaj, desdobrando-se em de vraj, viajar/viajante; vj, forte/poderoso. Ou seja, aquele que é poderoso&viaja pelo céu. Na visão natha, representa o momento mágico do nosso nascimento: um raio imaginário desce do céu e entra pelo ajna chakram, sendo conduzido pelo vajra nadi até a cavidade kundam. Esse é o raio chamado kundali ou kundalini, onde fica enrolado até o despertamento da nossa natureza original, autêntica, primordial, essencial. Portanto, é nossa natureza espiritual. Após entrar magicamente, esse raio fica dentro de nós até o momento da morte, representando a grande deusa&mãe, enquanto poder&força feminina. Ou seja, vajra é o poder do relâmpago dentro de nós!

A postura corporal formata o assentamento da kundalini, recriando o espaço mágico do nascimento, quando recebemos a força feminina dentro de nós, conforme dito acima. Em outras palavras, kundalini é a deusa dentro de nós com o formato da nossa identidade pessoal&cósmica, configurando o Dharma pessoal dentro do nosso corpo. A prática oportuniza&viabiliza a dinamização&potencialização desse poder&força pelo Prana. passando a se expressar pela nossa mente, na forma do Dharma.

E no shivaismo? O que representa essa potencialização&dinamização? O despertar do fogo serpentino aponta para a integração do jivatman com paramatman! Mas, o que é Paramatman&jivatman? Devemos, mais uma vez&sempre, nos reportar ao ensinamento upanixádico dos três eu’s: do corpo, enquanto consciência; da mente, enquanto sonho; e do coração, enquanto inconsciência! A combinação corpomente&coração é jivatman! E quando harmonicamente integrados, se transformam em Atman que é idêntico a Brahman! Então, esse Quarto (Turiya) é o Paramatman! Portanto, esses três eu`s podem estar desintegrados, mas quando se unem&fundem, o indivíduo&sujeito se torna Brahman ou Shiva!

Desta forma, há uma combinação virtuosa&auspiciosa entre o entrar&sair! Ou seja, o raio de energia que entra&fica, na forma da nossa natureza espiritual, com o poder&força da deusa, se transforma num relâmpago de fogo que sai, na forma de liberação (moksha), com a união Shiva&Shakti. Ou seja, o fogo no coração é que ensina Brahmavidya (Conhecimento de Brahman), cuja doutrina inicia a mente na superação&transcendência da dualidade. assim, o fogo também purifica a mente, purificada pelo fogo do coração. É uma dobradinha paradoxal que aponta para a transformação espiritual − objetiva&subjetiva, tântrica&quântica, sagrada&divina, quando nos tornamos puros como o raio&relâmpago!

Isto posto, esse poder, relacionado ao vajra, oferece o cenário de empoderamento do Eu, para entronar Isvara dentro de nós! A ideia é tornar o espaço do nosso corpo como espaço celestial, materializando-o de forma sagrada, no coração. Esse espaço&corpo sendo adotado&acolhido como um templo. Este é o sentido do ásana, vale dizer, a sacralização do corpo com Isvara entronado no coração. E, com isto tudo, estabelecendo o Dharma na nossa vida, em consagração! É um belíssimo objeto de meditação frente aos significados&significações que a postura oferece, para assentamento no nosso espaço interno&subjetivo![4]

Agora, danda, o bastão.[5]

 

Caixa de Texto: Danda simboliza, literalmente, emblema de autoridade&poder na Índia antiga. Por colorário, significa, também, castigo; castigar com o poder da autoridade.

 

Esse castigo era aplicado às pessoas que descumprirem as normas&regulamentos éticos&morais aceitos&válidos. A punição era simbólica, mas ilustrava um ponto de apoio&sustentação adicional, apontando uma ética social para a sociedade. Portanto, danda (bastão) era&é uma figura&emblema muito forte&poderoso; os líderes comunitários um bastão como sinal de autoridade&poder. Hoje, é usado pelos policiais indianos, pois causam temor aos cidadãos em desordem. Essa subordinação&obediência decorre das relações míticas&místicas que os indivíduos&sujeitos estabelecem com os símbolos de poder&autoridade. Funciona, fundamentalmente, para sociedade estruturada em mitos.

Esse ásana/postura aparece em textos tântricos medievais e foi difundida na modernidade, onde é amplamente praticada. A coluna vertebral, como bastão de autoridade existencial do devoto yogin, aponta para o Monte Meru, fortemente adotadas&abordadas nas mitologias budistas&hindus&jainistas. O Monte Meru é considerado o coração do Universo. É, também, aceito&acolhido como o seu eixo, em torno do qual tudo se move – eixo Danda! O Himalaia, enquanto morada de Shiva, é visto&vislumbrado como um eixo fixo que aponta para estrela polar, a mais brilhante estrela que orienta o Norte, a direção mitologicamente associada ao futuro.

Portanto, ela, a coluna vertebral, o bastão, sustenta&mantem toda estrutura&esforços existenciais do yogin. Mas antes disto, instituiu&organizou toda a criação. Assim, durante a meditação na posição final, pode-se construir este cenário de sustentação, visualizando o bastão (coluna vertebral) como o caminho&trajeto por onde passa o Prana, que oferece energia&vitalidade para a nossa existência. Essa consciência abre um poder de percepção&ação, que viabiliza&oportuniza viver nossa vida de forma intensa. Além disso, há o peso mítico, pois o Danda nos coloca no eixo do mundo, destacando&empoderando o si mesmo, o Dharma, o Eu do coração. No limite libertador&liberador, essa força se expressa na forma de Kundalini!

Agora vem garbha, o poder de nascer!

Garbhasana não está presente nos textos clássicos, mas fica bem nesse conjunto de ásanas/posturas, oportunizando uma ótima reflexão, como veremos. É bem praticado nos tempos atuais. Vejam, abaixo, uma ilustração da posição final.

 

Caixa de Texto: Garbha significa espaço interno, na forma de útero, por exemplo, portanto, uma espécie de santuário. Adicionalmente, passou a representar coisas que se formavam, por exemplo, um embrião&feto.Desenho de uma pessoa

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A configuração estética da postura/ásana aponta para um feto num útero! Na cultura sânscrita, no entanto, o conceito é mais utilizado como espaço interno&subjetivo destinado à gestação. Extrapolando miticamente podemos associar&correlacionar com Hiranyagarbha, o útero dourado, o ovo cósmico a partir do qual o Universo de originou. O ouro representando a imortalidade, isto é, o espaço imorredouro onde o universo foi criado. É um nome dedicado ao deus Brahma, o criador.

Assim, podemos correlacionar o ovo do cosmos, útero do universo como o espaço subjetivo, no qual vai nascer um micro&macrocosmo, e por corolário, um espaço mítico onde a mente organiza as forças que circulam no universo produzindo o macro&micro. Traz a noção geral de um espaço compacto, que vai produzir expansão; num sentido específico, faz a criação acontecer para gerar&produzir vida. Desta forma, pode ser aceita&admitida como a morada do deus Brahma, o criador, exatamente no muladhara chakra, que fica na raiz da nossa coluna vertebral. Essa morada específica dá sustentação à raiz que eleva o fogo serpentino ao longo da coluna vertebral.

Na posição final de garbhasana, podemos adotar como objeto de meditação as significações&significados disponibilizados por essa mitologia, associada ao garbha, visualizando o Dharma, como que residindo dentro de uma semente, que nasce, cujo nascimento vem da imobilidade. Esse poder é extremamente importante pois permite nascermos&renascermos a cada momento&instante, a cada aqui&agora, abandonando o que já foi, reformulando&recomeçando novas atitudes&comportamentos. Assim, temos a oportunidade&possibilidade de corrigir os rumos e ajustar nosso Dharma. Ou seja, podemos sempre abandonar hábitos&decisões ruins&equivocadas. Ou seja, assentar a vida é morrer&nascer para uma vida correta&justa, uma vida de Yoga!

Finalmente, vejamos uma combinação auspiciosa das três posturas acima. É que essa combinação dá&oferece expressão ao poder da vida, que reside dentro de nós, sob o ordenamento da mãe verdadeira, a Kundalini! Visualize o vajra no coração, o danda como coluna vertebral e o garbha na raiz, na base da coluna. Além de auspiciosa, é também uma combinação&visualização compassiva, unindo o conjunto dos significados&significações assentadas numa só meditação, no espaço interno&subjetivo!

 Agora, finalmente, parvatanasana, conforme anunciamos no início de grupo, um ásana/postura extraclasse aos Nathas no contexto do Yoga doutrinário, que serviu de marco mitológico para vajra&danda&garbha, para apontar perfeita&rigorosa adaptabilidade&resiliência das mitologias que oferecem significados&significações para assentamento no espaço interno&subjetivo.

Sabemos que mitologicamente Kailasha, no Himalaia, é a montanha de Shiva. Ela também para os budistas&jainistas. Sua (meta)geografia aponta para o norte (uttara), isto é para cima e para o alto. A montanha, claro, define a sentido para cima. Além disso, representa, também, imobilidade. Em paralelo, é bom registrar que Parvati é filha do Himalaia e esposa&consorte de Shiva, que seguem em União, em Yoga.

 

Caixa de Texto: Parva significa nodoso, enrugado. O parvatanasana ou postura da montanha tem como objetivo a imobilidade& elevação. Vamos ver como isto pode ser realizado.

Há um texto tântrico, o Rudrayamala Uttara Tantra (RUT), que traz uma frase enigmática. Trata-se do apontamento&ensinamento de uma grande felicidade pela destruição dos seis chakras (ou 6 yantras). Espera aí, como assim? É que embora os chakras sirvam para dinamizar o Prana e despertar a Kundalini, que aquecida flui para o alto da cabeça, oferecendo o Samadhi (êxtase, enquanto experiência de quase morte), sinaliza, também para uma autoiniciação. Não obstante, para imobilizar a mente, tem-se que destruir os chakras. Ou seja, os seis yantras associados&correlatos constroem&destroem. O parvatanasana tem, portanto, o objetivo da imobilidade&elevação, como dito acima.

Um outro texto tântrico, o Siddha Siddhanta Paddhati (SSP), já antes citado, também oferece sustentação para a imobilização dos sentidos por meio da yoni mudrá. Assim, os trabalhos&esforços de imobilização da mente&sentidos podem&devem estar colocados&inseridos numa mesma perspectiva.

Pode-se citar, ademais, uma outra possibilidade mitológica, na medida em que parvata, sétima&oitava nota na gramática sânscrita, representa as sete cadeias de montanhas que cercam o Monte Meru. O SSP descreve seis montanhas no corpo. A perspectiva purânica, igualmente, descreve as montanhas (não visíveis) do corpo. Ou seja, o Monte Meru representa as sete costelas, que formam a proteção dada ao coração pela caixa torácica, que é a morada de Brahman. Neste sentido, parvatanasana está associado ao coração. Então, 7&8 são a localização&chamamento do Eu do coração. Parvatanasana constrói na mente um assento para meditação, que oferece tranquilidade para a imobilização&elevação para o despertar do Eu do coração, Brahman, o Absoluto.

Parvatanasana é um assento de pedra em nosso coração. É um ásana extremamente subjetivo, pois corresponde ao silenciamento do corpomente. Vejam, agora, o que diz os versos 23.52, do RUT, e o 3.10, do SSP, respectivamente:

Agora falarei, ó mahadeva da grande felicidade do parvatanasam, que, tendo sido feito por aquele que tem firmeza, pode se tornar a primeira destruição dos seus chakras.

O Monte Meru reside no território de Meru, Kailasha reside no Brahmarandha (portal de Brahma), o Himalaia reside nas costas, o malaya no lado esquerdo do pescoço, o mandoca na orelha direita, o mainaka na orelha esquerda, a montanha shri na testa. Estas são as oito montanhas principais (kulaparvatas). As outras montanhas secundárias residem em todos os dedos.

O parvatanasana sugere a obtenção de um estado de centramento, sustentado pelo coração; a firmeza, a elevação, a grandiosidade da montanha são elementos míticos do Yoga. Shiva é frequentemente representado o meditador na montanha. Então, vamos meditar como Shiva que somos, para uma vida de Yoga, aqui&agora!

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] No curso, neste módulo, o professor Carlos Eduardo disserta sobre diversas mitologias hindus&budistas que se entrelaçam, afirmando que há histórias intermináveis que se conectam mitologicamente. Aqui, fiz opção por ilustrar os atributos do marco mitológico associado&correlato. Porém, deixo registrado o belíssimo mantra do budismo tibetano, o mais sagrado&popular, que aponta para a transformação espiritual búdica pela compaixão&sabedoria disponível para todos os seres: om mani padme hum; registro, ainda, o objeto de prática dorje, simbolizando o raio&relâmpago, que aponta para a indestrutibilidade espiritual e irresistibilidade da iluminação.

[5] Observe-se que já trabalhamos o dandasana, numa variação que consubstancia a busca do si mesmo, via fogo serpentino. Vide primeiro grupo de posturas!

13/01/2026

AGORA, YOGA!

 Agora é tempo de Yoga III[1]

Grupo de Posturas Equilíbrio sobre Pé&Mão.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

Para ilustrar essa categoria, trago duas posturas trabalhadas pelo professor Carlos Eduardo, vishvamitrasana&vasishthasana, em dois módulos que se complementam como marco mitológico de ambas: a Siddha Sidhdhanta Paddhati (SSP) e o universo mítico dos Nathas.[4]

Acerca da Siddha Sidhdhanta Paddhati.

Gorakshanath é um dos mais importantes intelectuais da Índia medieval. E já registramos no grupo anterior que foi o criador da seita Natha e o autor da SSP. Essa espiritualidade&intelectualidade introduziu a doutrina do Yoga na linhagem Natha, ou seja, a grande sacada&pegada foi levar para o pensamento dos nathas a doutrina do Yoga. Essa perspectiva faz uma congruência do desenvolvimento histórico do Yoga com o dos nathas.

A partir da SSP os yogins passarão a ser considerados nathas, embora não sejam iguais. Porém, um abraçou o outro de tal sorte que a SSP funde os conceitos de nathismo&Yoga. E essa junção parcial, pois cada doutrina tem seus pressupostos, foi bom para o Yoga que andava meio em baixa em função da influência de quase um milênio do jainismo&budismo, conforme dito no grupo anterior. Objetivamente, o Natha refortaleceu o Yoga, trantificando-o. E o tantrificar não significa se tornar outra doutrina. O processo de transformação espiritual ióguico, no entanto, sofreu influência com a inclusão do aspecto&dimensão corporal.

A estrutura da SSP tem uma tese básica: o corpo é um microcosmo.[5] O nosso corpo é um conjunto de corpos sutis. Goraksha chama de pindam os corpos que formam o corpo, os quais devem ser lançados ao fogo como oferenda aos deuses. Pindam pode ser entendido como de cada um dos corpos, que se entrelaçam, desde o mais sutil até o mais grosseiro. Essa oferenda ritual é típica do Tantra. Em outras palavras, cada uma das partes de jivatman é destinada ao sacrifício. O conjunto todo, através da prática do Yoga, alcança a perfeição fazendo com que todos os corpos se tornem sutis, até o sutil do mais sutil, inclusive os mais grosseiros.

Na condição de sutis, eles deixam de ser consumíveis pelo fogo e à própria morte, passando à condição de imortalidade. Assim, passamos a existência de forma indestrutível, nos tornando o próprio universo. Como o universo é identificado como Shiva, então nos tronamos Shiva (shivoham).

A SSP dá a metageografia de liberação (moksha) e apresenta o Yoga como o caminho de união&integração no espaço (akasha). No meio da localização&generalização, ela coloca os oito passos&etapas (angas) do Yoga. Como se deve aprender o caminho da sutilização do corpomente? Através do guru (sadguru Shiva). Aquele que alcança Isvara é um avadhuta. O siddha, na seita dos Nathas, atinge a perfeição, cujo comportamento é considerado superior aos demais sábios. Esse comportamento é descrito na SSP. A SSP se tornou uma referência dentro da cultura tântrica, inclusive indo além da seita dos nathas. Portanto, é um texto sagrado importante!

A obra é expressiva também porque diz algo sobre o ásana. A frase que trata do ásana diz o seguinte:

 

“Asanam a condição de quem alcançou a sua mais autêntica natureza. Svastikasanam, Padmasanam, Siddhasanam, um destes é desejável para nele permanecer, para fixar a atenção. Assim é a característica do Asanam”

 

O ásana é possível apenas para quem alcançou sua natureza autêntica, isto é, não relacionada à flexibilidade, etecetera, mas sim à uma condição subjetiva. Portanto, é importante destacar a dimensão&aspecto subjetiva do ásana, que permite viver com autenticidade, para se capacitar e viabilizar os assentamentos da mente, realizando o Yoga do yogin devoto&disciplinado&desapegado. Goraksha comprou a ideia de união de Patanjali, então, não há contradição entre as escolas Yoga&Natha&Tantra, ainda que haja benefícios para a saúde&bem-estar, pois a mente os leva para o corpo, e não ao contrário.

Isto posto, afinando os ponteiros para a temática, no ásana/postura, quando a mente reflete sobre o significado&significação enquanto objeto de meditação, há uma transferência&transmutação no corpo. E cada reflexão&meditação da mente, algo transformador&transmutador acontece no corpo. Assim, o corpo não é ignorado no processo, mas aprofunda a prática. Filosófica&mitologicamente, um dos objetivos do Tantra é fazer o corpo se expressar por meio da sua natureza autêntica, na medida em que o corpo expressa o que se passa na mente. Os significados&significações oferecem os tijolos&argamassas para a construção do cenário&contexto com a mente, visando aplicação no corpo. Isso é Tantra! Ou seja, viver o cenário como corpomente! Para tanto, a mente precisa querer conduzir o processo, o que se dá com o núcleo liberador&libertador; o corpo é passivo e a parte visível do espírito, e se expressa junto com a mente. No Tantra, por fim, o corpo não é excluído e se assenta, no espaço interior&subjetivo, junto com o assentamento da mente, mediante significados&significações.

Em seguida, o segundo marco deste grupo de ásanas, acerca do universo mítico dos Nathas.

Os mitos são narrativas; boas narrativas, que falam ao inconsciente. Elas falam&dialogam ao&com o inconsciente. Logo, têm o poder de conduzir nossas mentes. Elas mobilizam forças do inconsciente, no universo subjetivo, que conduz o universo objetivo. Podemos argumentar em cima de dois fenômenos:

Primeiro ponto: a conexão entre a forma externa e o significado, apontando para o complexo de significações, é a técnica&método de repassar os ensinamentos dos nathas. Ou seja, quando os aspectos do significante (subjetivo) se conectam com o significado (objetivo), isso é Yoga! E isso acontece com o recolhimento das atividades da mente, de modo que a nossa natureza autêntica se manifeste, se expresse por meio do nosso corpo. Em outras palavras, quando ganhamos significação(ões) com a manifestação(ões), com a expressão (ões), isso é Yoga! Objetivamente, o sentido gramatical, com a força(s) que reside(m) na(s) palavra(s) aponta para o sentido doutrinário, despertando&iluminando força(s) dentro de nós, dentro do coração. Os nathas abraçam essa ideia, enquanto técnica&método, como sendo a mesma coisa; palavras certas, isto é, escolha de palavras certas. Ou seja, os ensinamentos são repassados&transmitidos nessa perspectiva&direção.

Segundo ponto: no processo, há uma explosão de significados numa relação subjetiva, todavia convencionada. Na realidade, no aprendizado há necessidade de insights (sphota), para a conexão da&com a ideia de forma instantânea, intuitiva. Logo, não necessidade de se estabelecer relações&raciocínios. Na percepção do vínculo&insight, ficam disponíveis grandes forças da(s) narrativa(s) mitológica(s). Não sabemos como funcionam essas forças; a explicação do fenômeno é indecifrável, sem a sabedoria Absoluta do Absoluto. A palavra remete à memória, à leitura, à reflexão, enfim, às marcas&tendências&traços. Insights explodem quando ouvimos o som! O sphota é uma força social&espiritual, inclusive, aponta para inovações de significados&significações.

A linguagem tântrica trabalha, continuamente, com essa malha de significados&significações, na forma de uma linguagem oculta. É uma malha complexa, pois conta com significados&significações corretas&incorretas. Então, qual a direção&sentido devemos adotar&tomar? Até que o ensinamento seja consolidado pode haver insinuações em consonância com a natureza experimental&comportamental de cada um. Porém, após a conquista da sabedoria é livre de pressões&condicionamentos, pois o sábio usufruirá a sua natureza autêntica. Não obstante, a bem da Verdade, não há certo&errado, mas visões&posições diferentes, pois o universo mítico é amplo e extrapola o individual. Dito de outra forma, é quando podemos imaginar&visualizar uma existência&vivência Absoluta além do dharma&adharma. Completamente pode ser dito, que as particularizações são recortes do universo mítico de acordo com a nossa capacidade. É sempre bom ter em mente, entretanto, que as palavras dizem sempre mais do que percebemos, ou seja, as palavras dizem infinitas mensagens dentro da malha de significados&significações.

O universo mítico dos nathas sinalizam para uma profundidade indescritível. Os mitos devem se reforçar mutuamente observados&vistos a partir de várias perspectivas ainda que pareçam contraditórios. A poesia consegue conciliar os opostos. O Yoga nega a separatividade, dispensando o racional. Assim, o sphota é uma explosão de impulsos que dá o insight, a visão. O objetivo da prática é impulsionar para enxergar, cujo processo nos leva para mais perto da libertação. Podemos nos tornar siddhas (perfeitos), livres para viver da forma mais autêntica possível, junto à nossa identidade&natureza espiritual. Isso é autorrealização! E esse é o objetivo essencial dos nathas.

Portanto, podemos nos conduzir para uma vida libertadora, para uma vida de Yoga. Podemos usar os significados&significações para gerar sphota, enquanto impulso para imprimir uma direção&sentido, objetivando liberação (moksha). Daí surge a oportunidade&possibilidade de mergulhar no Infinito, no Absoluto. Esse universo de infinitas posições&posturas foi desenhando pelos sábios&poetas&pensadores nathas.

Agora, falaremos sobre vishvamitra, o autor do gayatri.

Caixa de Texto: Visha significa tudo; mitra, amigo. Portanto, o ásana/postura representa amigos de todos! Assim, é um personagem amistoso; e um nome importante na mitologia hindu.

É uma postura exigente, que exige esforço médio, além das básicas. Então, como toda postura devemos nos ajustar ao nosso corpomente, e não ao modelito. O que importa é o sentido da postura. E que ela diz? Qual o cenário possível? É o que veremos adiante.

A base imaginária&visionária é o oceano de leite primordial, expressando um oceano de sabedoria ancestral, percebido&intuito pelos sábios originais. Há um conflito&querela antigo entre vishvamitra&vasishta, no sentido de disputas&debates intermináveis. No período védico, ambos eram importantes sábios; foram panditas (sacerdotes) do rei Sudas. Sábios em desarmonia&desequilíbrio? Como assim? Calma, mas já no momento do épico Ramayana eles estão reconciliados, comportando-se como amigos que se tratavam com respeito. Na conversa de Vasishta com Rama, com quase 30 mil versos, no clássico da não-dualidade Yoga Vasishta, num dado instante o guru é Vishvamitra. Desta forma, os dois, em paz, compartilharam o mesmo discípulo, o deus Rama, avatar de Vishnu.

Vishvamitra foi conselheiro de guerra, que acompanhava Rama. Ele foi instruído por um oficial&guru védico (Brhaspati), que ensinava a arte do ofício de arqueiro e repassava instruções&orientações sagradas&divinas, inclusive para Arjuna. Vashvamitra, então, recebe as condições para exercer as atividades de um guerreiro militar e de um sábio espiritual. Ele nasceu guerreiro (kshatriya), versado em filosofia&ciência nas artes da guerra. Mas, também se tornou um guru&sábio em questões de espiritualidade. Como? É que refeições mágicas, desejando um filho brâmane e, ao mesmo tempo, guerreiro “misturado”, resultou Vashvamitra, que é uma kshatriya com espírito bramânico, isto é, guerreito&sacerdote, inclusive intelectual&sábio. Portanto, ele foi educado na vocação guerreira, mas com habilidades para compor hinos&rituais. Desta forma, a vida espiritual foi sua opção existencial, deixando a atividade militar, quando passou a criar hinos védicos. É dele, como dito acima, a composição do Gayatri, contido no mandala 3 do Rigveda; já Vasishtha compôs o sétimo mandala. Gayatri é o verso mais importante do Rigveda. Possui uma essência de elevação espiritual. É dito que dominar seu significado&significação confere ao devoto conhecer todo o Veda. Essa narrativa demonstra a importância de Vashvamitra na cultura hindu. Talvez seja o objeto de meditação mais sublime para adotar na prática da vashvamitrasana!

Agora, Vasishtha, que traz a combinação virtuosa&auspiciosa do&da sábio&fortuna!

Caixa de Texto: Vasishtha significa riquíssimo, o mais rico de todos.
É uma postura moderna, não sendo encontrada nos textos místicos antigos.
Mulher com os braços para cima

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É um dos sete sábios emanados diretamente da mente de Brahma. É lembrado junto com sua esposa Arundhati, virtuosa&atenta ao Dharma, considerada um rishi (sábia) da mesma estatura de Vasishtha. São identificados como duas estrelas, coexistindo juntas, na constelação da Grande Ursa, representando uma homenagem grandiosa&magnânima.

Como dito acima, no texto de Vishvamitra, Vasishtha é autor do mandala 7 do Rigveda. Portanto, é um sábio dotado de grande poder e tinha à sua disposição todos os bens necessários, pois tinha consigo a vaca kamadhenu, realizadora de todos os desejos. Vem saí sua ilustração de portador de sabedoria&riqueza. A fartura era marca registrada de Vasishtha, que multiplicava tudo o que fosse necessário, por exemplo, comida. Vasishtha está sempre acompanhado da vaca kamadhenu. Os poderes da kamadhenu são os poderes do mantra.

Quanto ao atributo da sabedoria, inerente à Vasishtha, vem da sua maestria com palavra, cujos ensinamentos instruía os discípulos, sobretudo, Rama, como já dito acima. Esse poder expressa o poder da palavra; a força do discurso. Essa perspectiva se complementa com a capacidade de escolher os desejos corretos&certos; palavras certas&corretas expressam aquele que deseja acessar o coração, onde habita o comandante Isvara, a quem devemos nos entregar de forma incondicional. O que é certo&correto é o que o Universo reserva para nós, nos permitindo alcançar&acessar.

As histórias, as lendas, as narrativas, os mitos são o que mais nos enriquecem&enriquecem nossas famílias. A riqueza&sabedoria de Vasishtha nos ampara&proteja e nos encaminha para o autoconhecimento. Ademais, essa fortaleza repassamos aos nossos descendentes. Todos podem ser direcionados a uma vida de Yoga, autorrealizados! Na postura final de vasishthasana meditemos que nos atributos de riqueza&sabedoria do sábio Vasishtha, na forma de seus significados&significações nobres&sublimes!

 

 

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Nesses módulos foram abordadas, ainda, kurmasana&makarasana, e mayurasana&krounchasana, respectivamente.

[5] A visão de Goraksha é, na realidade, de que cada parte do complexo corpomente é, por si só, um microcosmo.