09/01/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga II[1]

Grupo de Posturas em Pé.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

O professor Carlos Eduardo enquadra, dentre outras, algumas posturas em pé, em três marcos teóricos. Então, vou juntar quatro delas, após sintetizar os cenários que ele desenhou para albergá-las. O primeiro marco foi chamado de o assanam e o Shivaismo; o segundo o assanam nos Puranas; e o terceiro o asanam nos comentários dos Yoga Sutras. Assim, temos:

1. No Shivaismo.

É normal a confusão entre Shivaismo, Tantra e Yoga, considerando que se desenvolveram em contextos diferentes. Por exemplo, o Tantra pode ser considerado como uma série de culturas voltadas para o fortalecimento das famílias. O Yoga, por sua vez, trata de uma prática que expressa compromisso perene com a Verdade; e com o Dharma a partir dos Upanishads. Porém, há semelhanças e pontos de concordância entre as três abordagens de práticas esotéricas&exotéricas. As três “escolas” tiveram início na Svetasvatara Upanishad.

No Shivaismo, pela primeira vez Shiva passa a possuir uma divindade que foi expressa por Rudra, que aponta para Brahman; portanto, no Shivaismo Shiva é idêntico da Brahman! Ou seja, dois aspectos diferentes da mesma fonte do conceito original, que é baseado na Verdade. Ainda no Shivaismo, no momento seguinte, Shiva ganha atributos de benignidade&bondade. Na origem, Rudra representa forças de destruição, que, contudo, segue presente na trindade hindu. Portanto, trata-se de uma divindade complexa. Não obstante, no Shivaismo houve uma restauração do aspecto místico&mítico original contido no Vedanta. Já o Tantra oferece uma configuração à Shiva, desenvolvendo histórias&cenários, aparências&iconografias, figurinos&localização, inclusive uma família, a família hindu. No Tantra, Shiva faz parte de uma cultura abstrata, no entanto, cotidiana, do dia a dia do praticante&devoto. Ambos, Shivaismo&Tantra trabalharam ao longo da história núcleos devocionais, de elevação&ascensão.

No Yoga, esse conteúdo histórico trouxe o significado&significação de inversão do aspecto material&objetivo em subjetivo&sutil. Ou seja, a força da gravidade nos leva para baixo – até porque nos alimentamos por cima e defecamos por baixo. O controle do Prana é a ferramenta desse processo, pois procura inverter esse processo de materialização, sutilizando o aspecto material. Num mecanismo mais amplo, também se inverte trazendo a mente para dentro, na medida em que a tendência é ir para fora. Dito de outra forma, a inversão da mente oportuniza mergulharmos no si mesmo. Numa perspectiva ainda mais profunda, os siddhas acreditam que podem inverter o caminho da morte, vindo daí a lógica da imortalidade com a liberação (Moksha). Inclusive, na&em vida, com uma vida eterna encarnado.

Portanto, saltando quântica&magicamente do Yoga para o Hatha Yoga, temos em mãos a ferramenta&mecanismo do ásana promover a volta para a natureza original, vale dizer, adotando a postura como assentamento na mente, através do corpo, no espaço interno&subjetivo do coração. Neste sentido, corpomente&coração deve estar ajustados&alinhdados, para o assentamento libertador&liberador nos significados&significações. Assim, no Shivaismo o conceito de ásana é coerente com o Tantra&Yoga. Aqui, o objeto de meditação, em caráter geral das posturas em pé, está centrado na inversão das tendências, com assentos construídos no coração.

O exemplo de ásana para ilustrar aderência ao Shivaismo é o virabhadrasana.[4]

O curso traz três exemplos de ásanas nesta categoria, associada ao Shivaismo: virasana (vira; herói), virabhadrasana (virabhadra; guerreiro) e shalabhasana (shalabha; gafanhoto). Mas, vamos adotar apenas as três variações (I, II e III) do virabhadrasana para compor a ilustração desse grupo de ásanas junto com os demais que virão a seguir.

Virabhadrasana traz o significado&significação associada à fúria de Shiva, que faz parte da cultura do Shivaismo, ainda que seja contada como herói amistoso nos Puranas. Mas não nada de amistoso. A mitologia que não será compilada aqui conta a história do casamento de Shiva com Sati. O pai de Sati (Daksha) não age dentro do Dharma junto à sua própria filha, humilhando-a, que se lança ao fogo. Então, para vingar a humilhação que sua consorte passou, Shiva, furioso, cria, junto com Devi Kali, Bhadra Kali, cujo enfurecimento só é pacificado com a intervenção de Brahma. Assim, Virabhadra, nome de um rei, deixa de ser histórico para se tornar mítico.

Esse ponto focal enreda a representação da fúria do coração, que não perdoa o descumprimento do Dharma. Ou seja, a fúria de Shiva é a fúria do coração. Como corolário, podemos entender que cumprir o Dharma pacifica o coração. O herói (vira), na forma de um guerreiro, destrói as fantasias&falsidades, fazendo prevalecer a Verdade. Abaixo, temos as três variações modernas de virabhadrasana, que quando praticadas o yogin deve trazer o significado&significação do heroísmo como construtor da Verdade e destruidor da mentira. E deve fazer isso com a fúria amistosa de Shiva, transformando um coração tempestuoso num tranquilo, utilizando o Dharma do guerreiro; com coragem!

Mulher com os braços para cima

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Foto preta e branca de mulher grávida

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Mulher com os braços para cima

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Nota: Guerreiro I, a mais nobre; Guerreiro II, a mais popular; Guerreiro 3; a mais incomum, respectivamente.

2. Nos Puranas.

Diferentemente dos Upanishads e dos épicos como o Mahabharata, os Puranas não são textos de Yoga, mas sim poéticos com colorido devocional, expressando rituais de adoração das divindades&personagens. Embora o Yoga Sutras não tenha essa característica, o Yoga faz parte do cenário purânico, quando ele ensina o assentamento do corpo o conforto&estabilidade para a mente meditar com o coração abrerto para acolher significados&significações. Essa é, portanto, uma leitura poética, não?

Essa perspectiva devocionalmente colorida continua porque, antes de praticar, o yogin deve fazer uma saudação às direções do espaço, no sentido da sua construção, gerando o cenário interno&subjetivo, mítico&místico. O ásana é, por consequência, seu próprio assento, onde realizará um trabalho subjetivo no seu espaço mítico.

A parte importante dos Puranas para a prática de ásanas é a da iconografia, pois ofereceram os cenários míticos, descrevendo com detalhes os personagens. Além disso, deve-se atentar que as características visuais auxiliam a prática dos ásanas. Portanto, o desenho dos cenários míticos para os ásanas é uma grande contribuição dos Puranas, ainda que o encaixe de suas significações na mente esteja distante no tempo. No entanto, como sabemos a prática acontece primeiro na mente depois vem para o mundo natural.

O exemplo de ásana para ilustrar aderência aos Puranas é o trikonasana.[5]

Veja, abaixo, uma ilustra dessa postura:

 

Caixa de Texto: Trikona significa triângulo combinado com quadrado. 
Trikonasana é uma criação moderna.
O ásana promove a integração da identidade espiritual com o corpomente. Como? É o que veremos a seguir.
Esta postura está inserida no cenário cultural do sânscrito, enquanto assento para assentar a divindade, tal qual um pedestal.

Possui significados&significações que lhe confere uma abordagem tântrica. É que tri significa 3; e kona 4. Podemos, então, visualizar na região dos quadris, na região da pélvis uma figura de um quadrado com um triângulo lá inserido com a ponta invertida para baixo, indicando o feminino, ou para cima, o masculino, conferindo aspecto de yantras. De toda sorte, esse triângulo, simbolizado pelo 3, aponta para o fogo, agni; e o quadrado, por sua vez, simbolizado pelo 4, para algo como um canto, com ângulos. Ambos, se enquadram como indicadores místicos&míticos, tântricos&mágicos. Dentro do quadrado, ao lado do triângulo, na posição de uma yoni, podemos visualizar um linga, superposto ao chacra base (muladhara). Esse chacra apresenta quatro pétalas, representando as quatro direções fundamentais do espaço. Está armado&desenhado o objeto de meditação na forma estática, com o quadrado&triângulo harmonicamente integrados, considerando as divindades masculina&feminina dentro de nós.

Podemos, agora, imaginar uma dinâmica para o desenho, que deve ser visualizado na posição final da postura. É que podemos meditar no quadrado girando de três modos diferentes: ou em torno do centro, ou de uma de suas laterais ou, ainda, de uma linha imaginária. Esses movimentos podem acionar a manifestação de nossa identidade espiritual (Kundalini), se, para tanto, o praticante&devoto estiver preparado. Ou seja, novamente, clareando os significados&significações elementares: o triângulo, número 3, representando o fogo, como assento sagrado do espírito; o quadrado, número 4, como suporte da vida material, nosso corpomente. O quadril é o centro e seu desvio mostra o conflito, que deve ser superado como força&firmeza. Ou seja, o objetivo do Yoga é autorrealizar nossa própria natureza, viabilizando a integração do espírito&matéria. O trikonasana com seu significado&significação dá sentido, oferece oportunidade para a realização dessa perspectiva, utilizando-o como objeto de meditação na postura final, sendo necessário, para tanto, seu assentamento no espaço interno&subjetivo.

3. Nos Yoga Sutras (YS).[6]

A primeira referência literária, associada a múltiplos ásanas, é o comentário de Vyasa. Este sábio, que não é o mesmo dos Vedas&Mahabharata, viveu muito tempo depois do YS, cerca de 600 d.C. Portanto, o comentário cerca de mil anos (um milênio) depois da época do YS. Vyasa talvez seja um título equivalente a um sábio. O comentário, assim, está muito distante do contexto cultural do YS. Porém, é considerado um texto autorizativo. Vyasa fez uma pequena dissertação sobre o sutra 2.46, que trata do ásana.

A essência do ensinamento de Patanjali está centrada na possibilidade de trazer conforto&estabilidade para meditar. Coisas heterogêneas, isto é, existem várias&diversas maneiras de apoiar&sustentar o corpomente: cruzando os braços, apoiando-se numa bengala ou no parapeito de uma janela, etecetera. Ou seja, muitas posições podem trazer sustentação&apoio, mas não são ásanas em si mesmo, até mesmo conferir&viabilizar uma mente tranquila quando estamos, por exemplo, junto&perto de pessoas amigas, num ambiente acolhedor&aconchegante. Mas o ásana, enquanto assentamento tem uma função específica&própria de oferecer espaço&tempo para concentrar&meditar&contemplar. E aqui, como estamos vendo, adicionando significados&significações como objetos de meditação para os assentamentos, que devem acontecer no espaço interno&subjetivo do coração.

A modernidade conferiu aos ásanas a expressão posturas em português. Todavia, a essência deve ser preservada. Ou seja, são assentos para se cair no Infinito. Desta forma, a prática deve ter uma dimensão subjetiva. Neste processo, quando há tranquilidade na mente, ela se transfere para o corpo, que também se apropria da tranquilidade estabelecida na mente. Shankara, comentando Vyasa, disse que se deve praticar ásanas/posturas para produzirem firmeza na mente. Portanto, ásana/postura não é uma atividade essencialmente corporal, pois o objetivo central é levar a mente ao Infinito. É a mente que traz o ásana/postura à existência, projetando significados&significações, inclusive no corpo. Em outras palavras, o ásana/postura, cujo cenário é construído na mente, é trazido à existência pelo corpo.

Objetivamente, como fazer para a mente cair no Infinito, já que ela é personalista? De novo e novamente, recorremos ao ajustamento&alinhamento dos eu`s do corpomente ao do coração, via assentamento conjunto em união dos três eu`s. Aí ela, a mente se torna universalista. Ou seja, a mente só pode cair no Infinito no Eu do coração, e junto vai o corpo. Podemos dizer que o ‘eu’ de cima entra no Eu debaixo; esta é, de fato e de direito, a essência do ásana/postura. A mente, desta forma, se torna o espaço disponível para o assentamento do significado&significação, em meditação; assim, se transformando no trono de Isvara no Eu do coração. Isto tudo porque o Universo é Infinito, e a mente precisa se tornar universalista para cair no Infinito.

Os exemplos de ásanas para ilustrar aderência aos ensinamentos do Yoga Sutras são: tadasana&vrikshasana.[7]

Caixa de Texto: Tada significa penhasco.
Representa um cenário hostil com ventos e chuva gelados.
Faz-se em pé, como se estivéssemos em Savasana.
Mulher de calcinha e sutiã

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

A raiz verbal tad é bater, açoitar. Ou seja, considerando o cenário agressivo, podemos visualizar que os ventos&chuvas açoitando permanentemente o penhasco&montanha, configurando fenômenos gigantescos. Essas intempéries representam vayu&apas enquanto forças da natureza, estruturadas por elementais primordiais. Portanto, são grandes forças adversas que enfrentam a solidez da montanha&penhasco, que, ainda assim, se mantêm estáveis&elegantes.

Esse desenho recomenda mantermos a mente com a firmeza&solidez dos tempos&momentos duros&hostis que a montanha&penhasco enfrentam ao longo de suas existências, resistindo sempre em prol da sua vivência enquanto processo de evolução, que migra do mineral para o vegetal e daí para o homem em si mesmo com consciência individual (jivatma, a conquistar a condição de jivamukta). Essa evolução se processa em dezenas&centenas&milhares de encarnações&transmigrações, do espírito na matéria, ao longo de todo o dia de Brahman (o Absoluto), até a revelação do autoconhecimento que sempre está presente, por toda eternidade, quando ambos se unem no Uno, na Unidade.

Tadasana pode nos ajudar a evocar as forças da resistência, que existem dentro de nós, para que não nos abatamos com&nas adversidades. Podemos encontrar essa resistência em Tadasana, que é resistência de Shiva que mora&habita as montanhas&penhascos. Ou seja, Shiva está sempre lá, enfrentando as intempéries e desfrutando das benesses, como se nada estive acontecendo, estável&confortável, em total desapego&discernimento, com total&absoluta sabedoria&plenitude. Tadasana pode despertar Shiva em nós, para deixarmos de temer o tempo&impermanência, e dançar com Ele&Shakti, sem limitações, o jogo cósmico.

Isto posto, meditando nessas significações&significados durante a posição final desta postura, assentada no espaço inteno&subjetivo do coração, podemos enfrentar as oposições sem perder altiver&dignidade, e enxergar as condições ruins como oportunidades para processar a transformação espiritual aqui&agora. Ou seja, transmutar dor&sofrimento em arte&riqueza, viabilizando a revelação da nossa verdadeira natureza, que sempre é ilimitada&imorredoura, com disciplina&determinação&devoção.

Agora, vrikshasana.

Caixa de Texto: Vriksha é árvore.
Portanto, deve-se permanecer na posição final tal como uma árvore.
Pode-se imaginar que é assentada num local de ensinamento.
Imagem em preto e branco de mulher em pé

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

A Bhagavadgita traz um ensinamento associado a uma árvore especial. Trata-se da figueira sagrada (Ashvattha), a árvore da sabedoria. É uma árvore que nasce no céu cujos frutos descem para a terra. Poderíamos perguntar: por que ela tem raízes no céu? Porque o modo de reprodução é baseado no defecar dos pássaros, que acontece no topo da árvore. Então, as sementes nascem de cima para baixo. Isso acontece com o figo (da figueira). Não obstante, essa lógica física, essa árvore sagrada reserva muito simbolismo, especialmente cruzando com a mitologia de ashvattha, como lugar onde estão os cavalos. Como assim? O que isso significa? É que cavalo é um emblema para o fogo (agni), que é representado por um cavalo que vem do céu para as águas (apas) e se transfere para a terra (prithvi), sendo absorvido pelas raízes, as quais emergem na forma de Soma (planta sagrada que produz bebida védica). Portanto, simbolicamente o cavalo é o fogo que reside na alma dos vegetais; e é utilizado para acender o fogo ritual por fricção. Ou seja, a madeira é carregada de fogo; e é a única forma aceita para acender o fogo ritual. A ascese na forma de queimação (tapas) também traz essa percepção&intuição.

E aí o vrikshasana aparece firmemente enquanto significado&significação para assentamento no espaço interno&subjetivo, do coração. Como assim? É que é o ásana predileto dos ascetas, sendo comum vê-los nessa postura, como ferramente&instrumento de prática espiritual de tapas (queimação). Para o asceta esse fogo se confunde com Kundalini. O fogo serpentino fortalece o processo de visualização da árvore, enquanto viver do devoto pelo princípio de elevação espiritual (e de imunidade) que o Soma promove&viabiliza. Como o Soma representa o princípio de elevação dos vegetais, ele canaliza um estado de inspiração poética, inerente aos sábios. A sabedoria dos sábios faz o fogo dentro de si arrastar o Prana, simbolizando a ascensão do espírito. Ou seja, o espírito de elevação do Soma está presente na árvore, em vrikshasana. Assim, quando praticar esse ásana/postura medite na possibilidade&oportunidade de usá-lo&utilizá-lo com o significado&significação de purificação&elevação&sabedoria, mantendo esse cenário&contexto no espaço do coração, interno&subjetivo, tântrico&quântico, mágico&mítico&místico. Esta meditação, sem dúvida, trará bons resultados não para o nosso corpomente, mas, sobretudo, para a nossa elevação espiritual.

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] O módulo concernente apresentado pelo professor Carlos Eduardo no curso traz, ainda, outros ásanas que não abordaremos aqui: virasana&shalabhasana.

[5] O módulo concernente apresentado pelo professor Carlos Eduardo no curso traz, ainda, outros ásanas que não abordaremos aqui: kukkutasana&muktasana.

[6] Num módulo anterior, o professor Carlos Eduardo, já dá o tem&tônica desse cenário&contexto, reproduzindo os sutras 2.46-48: firme&confortável é o ásana (assento) pelo relaxamento dos esforços e pelo encontro com o Infinito; daí não ser (o yogin) oprimido pela dualidade. O professor complementa que há diversos&múltiplos núcleos na mente, mas que só um deles é capaz de fazer o recolhimento dos sentidos para o assento da mente, que é localizado no coração, no espaço interno&subjetivo. A finalidade principal dos ásanas/posturas, enquanto ferramenta&mecanismo do Yoga, é oportunizar&viabilizar que o yogin fique&seja livre de dualidades, livre de limitações. O ásana/postura deve trazer conforto&estabilidade para a mente, que transfere esses atributos para o corpo; o corpomente, então, passa a se expressar como graça e torna-se habilidoso. Essa benção aponta para a transformação espiritual, para a evolução do espírito, que, oportunamente, iluminará o ego (ahamkara).

[7] O módulo concernente apresentado pelo professor Carlos Eduardo no curso traz, ainda, outro ásana que não abordaremos aqui: parvatasana.

04/01/2026

AGORA, YOGA!

 

Agora é tempo de Yoga![1]

Grupo das Cobras&Serpentes.[2]

Significados&Significações para Assentamentos no Espaço Interno&Subjetivo.[3]

As posturas podem nos sugerir várias atitudes&motivações para a meditação durante suas posições finais oferecidas pela Hatha Yoga. Uma delas, talvez a mais nobre dentre outras, é a serpente que nos oferece a oportunidade&possibilidade de “partir” em busca do si mesmo, da nossa própria natureza original.

Para tanto, temos um fundamento disponível que deriva do Samkhya, no contexto da concepção da origem do universo, desde a própria consciência em si mesma. Como sabemos, nesta doutrina que dá base ao Yoga, existem duas faces distintas, mas que representam apenas uma única natureza: Purusha&Prakriti. Por que existe apenas uma realidade última? Porque são idênticos&indiferenciados, existindo de forma imutável&infinita, sem limites!

Num determinado momento, a matéria recebe um desconforto provocado do espírito, que cresce dez dedos, e continua infinito. Como assim? Ele cresceu do avesso, virando-se para dentro. Então, a matéria se desdobra em princípios que vão formar o universo. Esse processo cria dois pares de opostos primordiais: masculino&feminino!

Os dedos são vazios&finitos, cuja essência de vacuidade&finitude é que dá origem, que alberga o universo manifestado. Claro, esses dedos não preenchem plenamente o espaço primordial, representado pelo Infinito&Absoluto. Essa essência limitada&condicionada é preenchida imediatamente pela matéria, que se desdobra&enumera, primeiramente em inteligência cósmica (Mahat) e na consciência individual (Citta), em sequência (vertical). Essa dupla produz a tríade, em bloco (horizontal): o intelecto racional (Buddhi), a mente/pensamento (Manas), cujo conjunto forma&gera o princípio de ego ou da individualidade&separatividade (Ahamkara). Daí, sucessivamente, outros elementos constitutivos da matéria (Prakriti) emergem, de acordo com o Samkhya: órgãos de ação&percepção, além das substâncias estruturantes do universo em si. Está configurada a criação&manifestação do Universo, segundo a enumeração plena do Samkhya.[4]

Há, portanto, uma grande diferença da concepção do universo segundo a ciência. Ela, a ciência, criou o entendimento do Big Bang, que formou átomos&moléculas e, em desdobramentos progressivos, faz surgir a vida, configurando, finalmente, a consciência. Portanto, na mitologia&cosmologia hindu, a consciência vem em primeiríssimo plano. Ou seja, o desdobramento do espírito (Purusha) oportuniza a matéria (Prakriti) consubstanciar o que experimentamos&experenciamos em termos de vida&morte&renascimento. Em outras palavras, somos o final do processo, viemos da consciência universal, da natureza primordial (Purusha&Prakriti) para a matéria manifestada e estamos convidados&condenados a reverter o processo, retornando à consciência infinita&absoluta. Diga-se de passagem, já somos essa Consciência!

Como? Essa é a pergunta fundamental que o Yoga, enquanto união&fusão de toda multipilicidade&diversidade, nos ajuda a responder! Aí, nesse cenário, temos a ferramenta&mecanismo da criação subjetiva, de perceber&intuir, como que surgindo na mente de Purusha (espírito), e acontecendo na matéria (Prakriti), como um aspecto&atributo dele próprio, isto é, do si mesmo. Dentro desse escopo, podem ser evocadas infinitas situações&condições, sendo uma delas a da serpente, que, como elemento mítico&místico, representa esses fenômenos cósmicos da criação, como desdobramento da&na mente.

Bastão (Dandasana).[5]

A postura do bastão pode nos oferecer esse espaço interno&subjetivo de assentamento. É que dentro do Yoga nos interessa uma determinada serpente, que sai do fogo cósmico e entra dentro de nós, caracterizando&formando nossa natureza única&original. É a Kundalini, o fogo serpentino, a serpente cósmica, que é macro, mas que em nós resta micro, ao se instalar dentro de nossa coluna vertebral.

 Ou seja, a coluna vertebral tem vida própria. No Dandasana (postura do bastão), que é, essencialmente, um cajado de poder&autoridade, ela pode se manifestar. A Kundalini constitui nossa natureza espiritual. Mas que poder é esse? É o poder sobre nossa mente. Sabemos que no Yoga, a mente controla o Prana, e o Prana controla a mente. Por que controlar a mente? Para ajustar&alinhar&assentar os três eu’s, isto é, o do corpo, o da mente e o do coração. Ou seja, o coração, por meio de Isvara, comanda; a mente, por meio da inteligência, decide; e o corpo, em equilíbrio, obedece. Ou não! Objetivamente, a mente pode não obedecer, e pode, biologicamente falando, prejudicar o corpo. Por isso, o devido&correto assentamento no espaço interno&subjetivo é importante&necessário. Dito de outra forma: os três eu’s em equilíbrio&equanimidade desvelam&revelam o Atman, o Quarto (Turiya), o Eu (Sat&Chit&Ananda)! Assim, a mente pode servir de ponte entre o corpo e o coração, onde habita o Ser, iluminando o ego com a Luz da consciência!

Kundalini dá&oferece esse poder para assumirmos o controle da mente! Neste sentido, o fogo serpentino pode escancarar as portas da libertação, mas também pode nos trazer problemas&entraves. Objetivamente, com o canal central (Sushumna) obstruído pode-se até entrar em desequilíbrio mental. Para fins do Yoga, é necessário observar o Dharma, atender nossa vocação espiritual, além de observar&atender a ética ióguica. A prática consubstancia o caminho da transformação. Ou seja, para obter benefícios devemos pensar&falar&agir de acordo com a nossa natureza original, caso contrário teremos problemas. O fogo cósmico sem obstruções virá vigor, expressividade e, sobretudo, consciência. Na prática, ela sobe serpenteando pelo canal central em direção&sentido ao espaço mítico&místico do coração, fortalecendo o poder do equilíbrio interno. O espaço do coração está representado pelas oito direções de Shiva, que correspondem às oito pétalas do seu chacra (Anahata).

Ela pode subir firme em equilíbrio imparcial, constante e pleno ao encontro do Eu. Sobe em direção&sentido da consciência infinita&absoluta (Brahman). Desta forma, invertemos o processo de criação do universo, que veio da perturbação do espírito (Purusha) expressa por fenômenos cósmicos na matéria (Prakriti). Portanto, podemos sair do mundo manifesto pelo recolhimento dos sentidos; Yoga, recolhimento dos turbilhões&vórtices de pensamentos&volições da mente (Citta), para mergulhar no Infinito, desde o Universo. Mergulhamos em Purusha (espírito), na plenitude do si mesmo, saindo do avesso e entrando no Infinito, no espaço imperecível&indestrutível. Esse exercício pode ser vivenciado com&no Dandasana. Quando estiver nela, em sua posição final, coloque as mãos em oração e medite nesse significado&significação! Vejam, abaixo, uma imagem ilustrada do bastão.

 

Caixa de Texto: Trata-se de uma variação à versão original, conforme sugerida pelo professor Carlos Eduardo. A imagem em si foi trabalhada por IA, com ajuda do amigo Ivo, como todas as demais.Imagem em preto e branco de mulher sentada no chão

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Bhujanga, a cobra.

Caixa de Texto: A atitude da postura é de controlar nossos desejos. Com a coluna vertebral recurvada, os braços sustentam a posição final.Desenho de uma pessoa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

As mãos&braços representam a força do nosso agir&fazer; nossa capacidade de realização. E isso simula a cobra, pois é similar aos seus movimentos de deslocamento curvilíneos. Os olhos da cobra apontam para a mente, onde nutrimos nossos desejos; seu olhar encanta como a mente enfeitiça. As cobras são forças livres; e com venenos são perigosas. Aí reside a metáfora, que aponta para a atitude de controle dos desejos. Então, é controlar a mente ou fugir do controle, pelo fascínio dos desejos. A mente seduz, encanta e conduz seus próprios caminhos ou descaminhos, pois existem explicações para o certo&errado. Se não controlarmos a mente, ela nos controla. Devemos, então, reforçar a atitude&motivação correta&adequada e aprofundar&realizar o nosso Dharma.

Para tanto, e por outro lado, o estufar do peito na posição final pode empoderar nosso coração, onde reside o comandante Isvara. Devemos buscar forças para nos estabelecermos na nossa identidade interna, assumindo o comando da nossa vida. Assim, evitar sermos levados pelos comandos alheios, externos.

O poder da cobra está representado pelo seu assento no pescoço de Shiva. Com esse poder devemos assumir nosso Dharma, lançando mão do controle da mente, enquanto objeto de meditação durante a posição final da cobra. A vida de Yoga é ganha quando controlamos nossa capacidade de realizá-la!

Sarpa, a serpente.[6]

Sarpa significa rastejar em conexão com o solo, simbolizando um movimento tortuoso. Pensamentos&palavras&ações sem espontaneidade, que apontam para coisas não naturais, podem sinalizar um simbolismo que fundamenta o falso. Ou seja, Sarpa simboliza um discurso divergente. O que o yogin tem que praticar é um pensamento simples, correto e sem devaneios. É o que a meditação em Sarpasana pode nos ajudar. Senão vejamos.

O objetivo de Sarpasana é converter uma mente oscilante numa firme, qual a postura linear de um bastão. Esse movimento retilíneo serve como uma ponte entre o ponto de partida e de chegada. Aqui, novamente a simbologia da Kundalini deve ser aplicada. Ou seja, o fundamento da postura é o sorver o Prana para dentro de todo o corpo, reconhecendo-o, para, sem oscilações, conduzi-lo para cima. Esse preenchimento traz benefícios, assim como em Bhujangasana, como o despertar de percepções clara e intuições puras. Em nível fisiológico, o Prana, absorvido durante a prática, se expande&preenchendo, não só nossa estrutura de órgãos&tecidos, mas, igualmente, toda rede de canais sutis, ampliando a disposição&inteligência do corpomente. É como se tomássemos um banho no oceano de Prana primordial&essencial. Objetivamente, o Prana carrega&conduz o ar para dentro do corpo, fluindo no ir&vir existencial, vale dizer, dando sustentação aos movimentos das mãos&braços etecetera, inclusive sangue. Esta é a visão filosófica do Yoga; isto é sorver o Prana.

Então, sorvendo&invertendo o Prana temos a oportunidade de direcioná-lo para o coração e, desde aí, obter uma experiência extática de quase morte. Ou seja, transformando-o de descendente em ascendente, pelo canal central (Sushumna), é possível experenciar&experimentar nossa natureza espiritual.

Neste processo, tanto na conquista da autorrealização quanto na obtenção dos benefícios, há de se conversar com o Prana, pedindo que promova a atuação do fogo de Kundalini. O calor carrega mais do que calor; carrega sinais de origem bons&ruins. E o yogin deve estar preparado, como tem sido dito, obediente&fiel ao Dharma. A base desse calor é a nossa identidade espiritual, que se manifesta com o Prana ascendente.

Portanto, Sarpasana é uma postura de purificação! A meditação na postura final, semelhante ao bastão em prece (uma variação do Dandasana como vimos acima), faz-nos evitar mentiras&falsidades, viabilizando nosso ajustamento&alinhamento&assentamento à Verdade. O fogo serpentino queima impurezas e coze a pureza, despertando uma vida benigna, em sintonia com o Dharma. É o que deve interessar ao yogin: ter uma mente obediente aos comandos do coração, sob a liderança de Isvara.

Ananta, o infinito.

Ananta significa sem limites! Na mitologia vaishnava, trata-se de uma cobra incomensuravelmente gigante com várias cabeças, flutuando no oceano cósmico e sustentando, em seu dorso, Narayana. Portanto, é uma perspectiva que aponta para dois universos: abaixo, representado pela água; e acima, pelo ar. Esta simbologia é aplicada ao Anantasana. Vejam abaixo, uma imagem que ilustra a postura.[7]

Caixa de Texto: Esta postura não aparece nos textos originais de Hatha Yoga e se inspira na iconografia vaishnava.Imagem em preto e branco deitado ao lado de uma mulher

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Portanto, a postura remete à ideia de fusão&integração dos dois universos, pois a cobra está ligada tanto ao mar quanto à terra. É a possibilidade de unir&fundir o subjetivo&objetivo. Ananta está no pescoço de Shiva, oferecendo significado aos seus poderes sobre o tempo. Ananta também tem conexão com Patanjali, o organizador do Yoga. Shiva é patrono do Yoga; o yogin primevo. Diz a mitologia do Yoga que Patanjali nasceu de uma fagulha de fogo do infinito (Ananta), que foi despejado&depositada nas mãos de sua mãe. O Yoga nos confere a possibilidade&oportunidade de irmos para além do tempo, mergulhando no Infinito&Absoluto.

Não podemos nos esquecer que a mitologia torna verdadeira as lendas. O Infinito é a natureza do Eu que reside no nosso coração. Ele, o Infinito, não está no passado nem no futuro, mas eternamente no presente. Ou seja, o presente é infinito. É o ponto (Bindu) sem direções. Não há tempo; é zero. E esse momento dura por toda a nossa existência. Dura, na realidade, todas as eras da manifestação, pois o Absoluto é consciência eterna, inefável, sem segundo, não nascida.

O Eu do coração pode experimentar&experienciar o Infinito desse momento, praticando a Anantasana com esse objeto de meditação. Essa experimentação&experiência aponta para a inexistência da morte&nascimento, cujos eventos são ilusórios&relativos. Portanto, não há passado&futuro, mas apenas o eterno presente. Ou seja, a nossa existência&vida transcorre de forma infinita, nunca começando&terminando. Essa percepção&intuição é uma dádiva do Anatasana. Assente-o no coração, com esse significado&significação em mente, no seu espaço interno&subjetivo!

 

 

 

 

 

 

 



[1] Por Antônio José Botelho.

[2] Sínteses ajustadas&alinhadas&assentadas aos comentários do curso A Mitologia dos Asanas, promovido pela sancritforum.org, sob a inspiração de Carlos Eduardo Barbosa.

[3] Este é o título do livro que albergará, dentre outras compilações, esta síntese.

[4] Aqui, usei, adicionalmente aos comentários das preleções do professor Carlos Eduardo, a parte central do sétimo diagrama, à p. 352/353, do livro de B.K.S. Iyengar, intitulado Luz sobre os Yoga Sutras de Patanjali, publicado pela Mantra, em São Paulo, em 2021.

[5] É apenas aparente a contradição da serpente com o bastão, como poderá ser observado adiante, na medida em que nela, em Dandasana, podemos despertar a mais nobre das serpentes, a da nossa natureza espiritual.

[6] Aqui, não vamos apresentar uma imagem do Sarpasana já que o professor Carlos Eduardo o remete novamente para o bastão como fez para expressar a Kundalini. Portanto, cobra é diferente, tanto física quanto mitologicamente falando. Assim, é contrário ao entendimento à postura moderna, conforme pode ser vista em Iyengar no seu livro Luz sobre o Yoga, publicado pela Pensamento, em São Paulo, em 2016, às pgs. 408-410. No entanto, reconheço a legitimidade da plasticidade moderna, que Iyengar denomina de Bhujangasana II. A opção de convergir para uma imagem similar&próxima ao Dandasana, sugerida pelo professor Carlos Eduardo, está em sintonia com os textos mais antigos. Dandasana propriamente dito, estará presente em outro grupo de significados&significações.

[7] Pode ser vista em Iyengar (2016; p. 256), que traz a foto final da postura, de número 290. Obra citada na nota de roda pé acima.