Não queremos aqui negar o aspecto positivo do PPB, que ofereceu fôlego à lucratividade das firmas instaladas no PIM frente à abertura da economia nacional nos idos dos anos 1990, inclusive, nos desdobramentos da sua implementação, oferecendo espaço para novos entrantes. Mas destacar seu lado negativo quanto ao desenvolvimento da inovação tecnológica, na medida em que não damos mais atenção e importância aos programas de regionalização, o que fragiliza os investimentos de P+D vinculantes. Por outro lado, durante o período em que prevaleceu o conceito de IN, mediante progressivos esforços de regionalização, seus números foram crescentes. Tal esforço técnico foi politicamente maculado pela “indústria de componentes”, artificialmente induzida via vantagens espúrias. Sem falar que a adoção do PPB implicou na redução significativa dos níveis de produção, de pelos menos 25% no IN geral do PIM, pois foi exatamente aí que residiu na possibilidade de um maior fôlego. E o que é pior, Manaus não conseguiu construir uma cultura empresarial com capital local que apostasse na trajetória tecnológica que emergiu com o atual paradigma tecnoeconômico. Se há alguma, não tem representatividade expressiva junto ao faturamento do setor eletroeletrônico do PIM. Ou seja, o processo de capacitação tecnológica tardia continua evidente e premente. O mesmo raciocínio valeria para o setor de duas rodas vis a vis a engenharia mecânica. Talvez fosse interessante estudar a possibilidade de combinar PPB, enquanto mecanismo de industrialização, com Índice de nacionalização [IN], enquanto mecanismo de inovação tecnológica.
27/04/2012
SOBRE CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA TARDIA E CORRELATOS
Não queremos aqui negar o aspecto positivo do PPB, que ofereceu fôlego à lucratividade das firmas instaladas no PIM frente à abertura da economia nacional nos idos dos anos 1990, inclusive, nos desdobramentos da sua implementação, oferecendo espaço para novos entrantes. Mas destacar seu lado negativo quanto ao desenvolvimento da inovação tecnológica, na medida em que não damos mais atenção e importância aos programas de regionalização, o que fragiliza os investimentos de P+D vinculantes. Por outro lado, durante o período em que prevaleceu o conceito de IN, mediante progressivos esforços de regionalização, seus números foram crescentes. Tal esforço técnico foi politicamente maculado pela “indústria de componentes”, artificialmente induzida via vantagens espúrias. Sem falar que a adoção do PPB implicou na redução significativa dos níveis de produção, de pelos menos 25% no IN geral do PIM, pois foi exatamente aí que residiu na possibilidade de um maior fôlego. E o que é pior, Manaus não conseguiu construir uma cultura empresarial com capital local que apostasse na trajetória tecnológica que emergiu com o atual paradigma tecnoeconômico. Se há alguma, não tem representatividade expressiva junto ao faturamento do setor eletroeletrônico do PIM. Ou seja, o processo de capacitação tecnológica tardia continua evidente e premente. O mesmo raciocínio valeria para o setor de duas rodas vis a vis a engenharia mecânica. Talvez fosse interessante estudar a possibilidade de combinar PPB, enquanto mecanismo de industrialização, com Índice de nacionalização [IN], enquanto mecanismo de inovação tecnológica.
28/03/2012
RATIFICANDO O PROCESSO DE GROWING UP
E por que temos uma oportunidade histórica? Porque o mundo está em guerra contra as mudanças climáticas e as armas que o chão amazônico dispõe são as amazonidades. Então, a partir da ética sustentável, temos alguma chance de construir nosso autodesenvolvimento sustentável lastreado pela realização de produtos no mercado a partir de insumos e saberes da floresta.
Mas como seria possível tal façanha considerando o determinismo econômico que a fronteira tecnológica construída pelos países centrais impinge aos países retardatários? Exatamente com a idealização de uma trajetória tecnológica alternativa incorporando as externalidades positivas do Projeto ZFM, em nível das transferências de tecnologia e o capital intelectual que emerge com o Sistema Manaus de Inovação.
Devemos ter consciência dos abismos que representam tanto a perspectiva do cathing up quanto a intenção do growing up. E elas se configuram exatamente pelo desequilíbrio entre oferta tecnológica e demanda tecnológica, admitindo que o desenvolvimento industrial, minimamente autônomo e interdependente, se dá em equilíbrio com o desenvolvimento tecnológico. O cenário relativo ao PIM está representado pela maior demanda tecnológica, pois as plantas industriais aqui instaladas são frutos de políticas industriais e tecnológicas idealizadas e realizadas em outros locais, tanto centrais quanto emergentes. Há, portanto, uma assimetria sociotécnica entre o chão de fábrica e as salas de aula e os laboratórios do chão acadêmico local. O pior elemento dessa assimetria é que há um vazio na dimensão patrimonial das firmas relativamente ao capital local no contexto da ZFM/PIM, na medida em que o crescimento econômico, relativo à indústria de transformação, é liderado por grandes marcas globais.
O cenário relativo às amazonidades, por seu turno, é igualmente assimétrico, porém com natureza inversa. É que existe em Manaus certa acumulação de saber científico e tecnológico, constituindo uma oferta tecnológica que pode ser vertido ao autodesenvolvimento sustentável, leia-se amazonidades. Porém, há também um vazio de firmas locais com poder econômico e estratégico que gere demanda tecnológica para a busca do equilíbrio com a oferta tecnológica existente em Manaus, que resulta do capital intelectual do Sistema Manaus de Inovação.
Por que escolher a construção de uma trajetória tecnológica alternativa, que constitui uma abstração àquele determinismo econômico, para lastrear um capitalismo amazônico, para consubstanciar um processo de growing up? A resposta está numa confluência sinérgica vinculada ao desenvolvimento sustentável, associando-a, ainda, ao fato de que a organização social do planeta está estruturada em Estados nacionais, que albergam o sistema capitalista que predomina no planeta, aonde as firmas nacionais acumulam lucros e apropriam conhecimento.
O importante, do ponto de vista da “negação” do processo de cathing up como estratégica de desenvolvimento, é que ao longo do século XX apenas o Japão se emparelhou na fronteira tecnológica, seguido mais recentemente pela Coreia do Sul e atualmente pela China, que promete um emparelhamento que deverá desconstruir a pax americana. E o planeta tem quase 200 países. Então, pode-se concluir que o processo de cathing up além de cruel, é impossível de ser trilhado sem firmas com capital local. O fato é que precisamos ter nossas empresas, precisamos ter nossa tecnologia, precisamos ter nossas marcas, atuando em nível global. Podemos e devemos ter um modelito coboclo-tupiniquim, considerando todas as variáveis que conformam o autodesenvolvimento sustentável. Esse modelito é o processo de growing up. Sua gestão seria realizada pelo que tenho denominado de Conselho Político-Estratégico em Prol das Amazonidades para o Desenvolvimento Industrial e Tecnológico do Amazonas.
Tempo atrás, numa primeira aproximação ao conceito, idealizei um esquema para visualizar a forma como os países centrais se desenvolvem e como os retardatários tentam se emparelhar, comparando tais trajetórias a uma trajetória alternativa, consubstanciada por amazonidades. Minimamente reformulado, é o que segue:
Trajetória Tecnológica dos Países Desenvolvidos (Fronteira Tecnológica)
Fonte: Combustíveis Fósseis

Trajetória Tecnológica dos Países em Desenvolvidos (Industrialização Tardia & Capacitação Tecnológica Tardia)
Fonte: Combustíveis Fósseis

A construção de um capitalismo amazônico, a partir do acaso amazônico via amazonidades, tem a oportunidade de romper com esse determinismo industrial-tecnológico. O acaso amazônico está na possibilidade da construção de capitalismo em paralelo com os países desenvolvidos, mesmo a despeito de um menor capital social disponível em Manaus e na região. A fronteira tecnológica e os locais que se emparelham a ela dispõem de mais cientistas e engenheiros por milhão de habitantes do que Manaus. Entretanto, a criatividade manauara deverá estar a serviço desse propósito, de rompimento daquele determinismo, alinhada à vontade política de longo prazo de novas elites governantes, institucionais e empresariais. Essa nova ponte será estruturada em amazonidades. Do ponto de vista objetivo, a não reversão do processo histórico de construção da sociedade manauara com base em capital e tecnologia exógena determinará a permanente dependência do Projeto ZFM.
Esquematicamente, poder-se-ia visualizar da seguinte forma a lógica do capitalismo amazônico com base em amazonidades:
Trajetória Tecnológica Alternativa: acaso amazônico
Fonte: Desenvolvimento Sustentável combinado com amazonidades

Aí reside a perspectiva da informação e do conhecimento a ser gerado pelo Sistema Manaus de Inovação e pelas externalidades do Projeto ZFM na lógica de uma trajetória tecnológica alternativa, a partir do acaso amazônico, enquanto construção de um capitalismo amazônico, na medida em que, se a industrialização dos países desenvolvidos se deu do produto para o processo, a dos ainda em desenvolvimento se dá do processo para o produto. Hoje, quando os países em desenvolvimentos se aproximam da finalização de suas plataformas industrializadas, os países desenvolvidos afastam-se do produto para a lógica dos projetos, isto é, hoje o maior valor agregado está na terceirização de produção de marcas mundiais, estabelecido os mercados, para a geração de inovações tecnológicas contínuas. Portanto, produzindo aquele determinismo econômico que os países em desenvolvimento não conseguem se livrar.
Em sequência, visualizamos outra alegoria para representar a lógica da concepção do “acaso amazônico”, que contempla uma cadeia de valor, apropriando uma dada ideia para realiza-la no mercado, num processo sistêmico de criação:

O processo de invenção tem fluxo e refluxo, pois exige a incursão de melhorias e inovações perpétuas. A construção de um capitalismo amazônico geraria uma profusão de amazonidades. O acaso amazônico seria nossa arma para combater as mudanças climáticas, pois estaria condicionado à lógica da sustentabilidade, isto é, a realização de produtos e serviços no mercado a partir de insumos e saberes renováveis.

Ou seja, o processo de growing up, via amazonidades, se daria a partir da oferta tecnológica existente em Manaus, a qual serviria a demanda tecnológica pertinente, que seria criada a partir do empreendedorismo científico-tecnológico, que deve ser efetivamente induzido junto com fundos de capital de risco, que deverão ser disponibilizados para fazer frente à construção do capitalismo amazônico. A fronteira tecnológica inerente seria estabelecida através de saltos tecnológicos na medida em que as amazonidades passassem a se constituir no substrato de uma cultura sob a égide da sustentabilidade.
Finalmente, podemos visualizar, ainda, por meio de uma alegoria um indicador para medir no tempo os avanços de Manaus na construção de um capitalismo amazônico. Trata-se do que tenho denominado de Produto Bruto Manauara [PMB], constituído de firmas locais com tecnologia local realizando amazonidades no mercado, em franca concorrência com a indústria de transformação hich tech do PIM, medido pelo PIB. Vejam só o tamanho da encrenca:

Adotei o ano de 2003 como base desse desafio para sinalizar que algo já está em curso com a criação e institucionalização do sistema SECT/FAPEAM. Como tenho tido, apenas devemos acelerar o passo e aprofundar os mecanismos de gestão. Portanto, falta foco, enfrentando o problema de frente e formando consciência coletiva. Por isso, não à toa renovo a cada oportunidade a ideia do Conselho Político-Estratégico em Prol das Amazonidades, citado acima, como barracão de obra e ao mesmo tempo trincheira da construção do capitalismo amazônico. A ferramenta de gestão seria o indicador acima delineado, apontando a visão de futuro desejado, qual seja, de que em 2112, Manaus teria superado a sua dependência em relação ao capital e a tecnologia exógena determinada pelo Projeto ZFM. Nesse canteiro de obras, que se confunde com o próprio chão amazônico, a ordem seria a observância da ética sustentável.
É importante ressaltar que há um conflito entre a tese do growing up com o referencial adotado pelo estado da arte encenado pelo conceito de cathing up. O conflito está no sentido de que na realidade não se tem como fugir do que foi acumulado pela ciência, pela tecnologia e pelo conjunto total de inovações radicais e incrementais que a humanidade produziu, mas que países e firmas se apropriaram na forma de produtos, processos, serviços, marcas, patentes, lucros e conhecimento acumulados. Esse conflito é de somemos, pois está claro que na construção de um capitalismo amazônico consubstanciado por amazonidades o capital social de Manaus deve se apropriar das externalidades do Projeto ZFM. É como se virássemos a fronteira tecnológica de cabeça para baixo. E sabemos que as inversões funcionais oportunizam e robustecem novas visões, clareando novas veredas. Mas com o compromisso de avançar para a lógica do autodesenvolvimento, do caminhar com as próprias pernas, adotando como mote o acaso amazônico em sinergia com a ética sustentável como resposta civilizatória às mudanças climáticas.
O importante é o capital social de Manaus perceber que a proposta do capitalismo amazônico, embora permeado de obstáculos e desafios, traz em seu bojo a oportunidade histórica de se criar um círculo realmente virtuoso e verdadeiro de desenvolvimento. Isso em concorrência com o círculo vicioso de crescimento econômico lastreado pela dependência industrial e tecnológica que o Projeto ZFM determina, condicionando um capitalismo de ordem inferior. Observe-se que essa dependência local em relação ao global é a mesmíssima dependência que a fronteira tecnológica determina em relação à industrialização tardia e capacitação tecnológica igualmente tardia concernente aos países retardatários e até mesmo emergentes, ainda que a economia comandada pela China esteja enforcando os mercados maduros e de consumo extravagante.
Comentamos acima da necessidade de se estabelecer o equilíbrio entre oferta tecnológica e demanda tecnológica para que a economia de determinado local, de cunho capitalista, se reproduza com as próprias mãos e pernas, sob a liderança das mentes locais. Pode-se alcançar esse “equilíbrio” conquistado pelos países centrais, lastreado pelo consumo de combustíveis fósseis, consumo alienado e tecnologia nociva, no mesmo compasso da destruição do meio-ambiente e das relações ecológicas e sociais. Mas podemos construir um “equilíbrio” autossustentável, considerando as especificidades que o momento histórico determina. Esse novo valor, essa nova ideologia é exatamente o desenvolvimento sustentável. E o arsenal de guerra são as amazonidades.
A guerra, todavia, não poderá ser vencida se Manaus não estabelecer condições adequadas para se jogar o bom jogo capitalista, um jogo de ordem superior. Vale dizer, se não se estabelecer a cultura do capital de risco e se não se fomentar o desenvolvimento de amazonidades por meio do empreendedorismo científico-tecnológico, Manaus continuará pisando na maionese, literalmente patinando em relação ao autodesenvolvimento, considerando a lógica capitalista. A construção de um capitalismo amazônico envolve o estabelecimento de uma cultura correlata que conduzirá o processo para além dos governos, para além dos partidos, para além da política menor, para além dos políticos de visão imediatista. Por isso, precisamos criar e institucionalizar o Conselho Político-Estratégico em Prol das Amazonidades para que haja continuidade no tempo longo de uma política de Estado, de uma política maior, de uma visão de futuro de longo prazo.
É de bom alvitre que se registre que não estamos falando aqui da alta ciência e da alta tecnologia; daquela que demanda US$ 1 bilhão para ser aplicado pela massa crítica nos laboratórios e chão de fábrica dos locais mais avançados durante 10 anos para que a inovação chegue ao mercado. Não! Sem macular o rigor acadêmico e método científico, estamos falando da baixa ciência e da baixa tecnologia que traduza as necessidades da população e do meio ambiente em invenções realizando amazonidades no mercado. Mas, mais uma vez e sempre: o foco é a dimensão patrimonial das firmas. E, de forma complementar, exatamente como exige a lógica sustentável: investimentos verdes + tecnologia limpa + consumo inteligente.
Claro, pensamos na fronteira tecnológica, mas pensamos em construí-la ao invés de buscar o emparelhamento. Construir significa estabelecer uma dada, ou melhor, uma sequência de fronteiras tecnológicas a partir de sucessivos e progressivos equilíbrios entre oferta tecnológica e demanda tecnológica, considerando a dimensão patrimonial das firmas como referência para a formulação das políticas industrial e tecnológica. A lógica do emparelhamento está esgotada por força da proximidade de uma nova inovação radical que a economia verde promoverá nos investimentos e negócios, gerando uma nova onda, doravante sustentável, de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Isso sem falar que a fronteira tecnológica joga duro com quem dela se aproxima, recrudescendo as facilidades de negociações pertinentes à propriedade intelectual, industrial e tecnológica, de direitos autorais de marcas e patentes. A lógica do emparelhamento faz parte do mito do desenvolvimento econômico e do progresso social concernente ao século XX que as mudanças climáticas estão redimensionando.
A oportunidade histórica da entrada do conceito dos sistemas locais de inovações na pauta e na agenda dos governos locais e dos Estados nacionais como mecanismo para potencializar suas economias, portanto, a utilização da combinação virtuosa das potencialidades das TICs, da lógica dos arranjos institucionais associados à hélice tríplice e aos sistemas produtivos locais não pode deixar de ser apreendidas em toda a sua plenitude pelo capital social de Manaus para o desafio do autodesenvolvimento. Devemos potencializar a cultura da inovação associada à cultura do empreendedorismo científico-tecnológico e à cultura do capital de risco criando a cultura das amazonidades. Renove-se o pano de fundo da ética, da égide sustentável que permeia a cultura da amazonidades.
É preciso registrar sempre que nada tenho contra as firmas globais que nos ajudam no crescimento econômico: recolhem impostos, remuneram nossa força de trabalho, compram serviços e produtos locais, e transferem tecnologia. Nossas portas devem estar sempre abertas para elas. Mas, não as considero firmas locais mesmo que sejam constituídas sob as regras legais brasileiras e possuam sede em Manaus. Devemos ter consciência que, em última análise, remetem lucros para o país de origem, compram máquinas e equipamentos de recorrentes inovações de alhures, estão protegidas por patentes alheias, recebem royalties pagos como nossos recursos, contratam assistência técnica da matriz, enfim, demandam insumos estratégicos do ponto de vista do segredo industrial e tecnológico de alhures. Em concorrência às grandes marcas e firmas globais que operam no PIM devemos criar um exército de pequenas empresas de base tecnológica para melhor qualificar o uso e a ocupação do chão amazônico. Neste sentido, estaremos apostando na possibilidade da criação de grandes firmas e grandes marcas amazônidas, igualmente globais.
Já tenho sugerido que precisamos prover de energia vital esse processo com uma espécie de nacionalismo amazônico combinado com uma vontade de poder político institucional que assegure a continuidade da dinâmica de construção de um capitalismo amazônico. Mas esses são conceitos e definições da literatura da ciência social que preciso estudar como estudei os da literatura do desenvolvimento industrial e tecnológico. Na realidade, tenho dialogado com um amigo do e no chão institucional sobre a questão, procurando estabelecer um compromisso de estudo e investigação das causas nacionais e locais que determinam nossa sina da tardialidade e da associada dependência frente aos pressupostos do desenvolvimento econômico, e de seus antídotos para fins do autodesenvolvimento.
Nessas ocasiões sempre me lembro de Visconde de Pombal, que gerou a primeira malha de incentivos fiscais para atrair investimentos para a Amazônia colonial; sempre me lembro de que D. Maria, a louca, mandou destruir todos os teares da Colônia para atender ao Tratado de Methuen, que beneficiava a indústria têxtil do Império Britânico em contrapartida do vinho português; sempre me lembro de que a Rei mandou salgar a casa e o local aonde Tiradentes nasceu e viveu para arrancar pela raiz a busca de possibilidades de maior liberdade política no Reino; sempre me lembro de que o momento de reconhecer a independência do Brasil representou abrir mão do estágio mais avançado que a Amazônia disponha em relação ao centro hoje mais dinâmico do país; sempre me lembro de que o gabinete imperial não só não incentivou como obstaculizou o empreendedorismo de Visconde de Mauá; sempre me lembro de que nossas elites preferiram desfrutar do fausto da borracha ao invés de construir as bases do autodesenvolvimento; sempre me lembro de que as drogas do sertão sempre foram objeto de comercialização ao invés de agregação de valor; sempre me lembro de que nossas elites nunca cobraram das elites nacionais o financiamento que o fausto da borracha proporcionou na formação industrial e tecnológica do centro dinâmico do país; sempre me lembro de que a indústria nacional de base nasceu por concessão do Tio Sam em troca de um espaço aliado avançado após momentos históricos de quase-identidade nacional com o Fuhrer e/ou com o Duce; sempre me lembro de que o Fundo Constitucional reservado ao desenvolvimento da Amazônia sob a gestão da SPEVEA/SUDAM nunca chegou a ser formado e aplicado; sempre me lembro de que a primeira política industrial do Brasil foi a de JK cuja natureza de industrialização tardia contrastava com a primeira política industrial do Tio Sam de Alexander Hamilton cuja natureza privilegiava a criação de firmas locais e o desenvolvimento de tecnologia endógena elaborada duzentos anos antes; sempre me lembro, enfim, que continuamos acomodados com a solução parcial, incompleta e, sobretudo, dependente do Projeto ZFM.
Ou seja, ou construímos uma visão de futuro associando-a ao autodesenvolvimento, ou continuaremos a ser o almoxarifado do planeta, espaço “avançado” de reprodução de capital estrangeiro e objeto de políticas públicas tratadas por sujeitos que não vivem na Amazônia.
Cabe aos amazônidas construir uma visão de futuro desejada, que não seja a eterna dependência de plantas industriais de alheios e de alhures! A construção é coletiva, decerto, mas cada indivíduo deve propor um tijolo. Do ponto de vista desta forma ordinária, a tese do growing up segue ratificada! Aqui growing up se confunde com trajetória tecnológica alternativa vertida as amazonidades enquanto projeto de construção de um capitalismo amazônico. A denominação growing up não deve ser entendida como um paradoxo; está posto apenas para rivalizar com seu concorrente cathing up. Amazonidades significa desenvolvimento com a floresta em pé, mas explotando o capital natural da Amazônia! Explotar significa tirar proveito econômico de determinada área, sobretudo quanto aos recursos naturais. Que essa explotação seja com capital local e tecnológica endógena!
Devemos, portanto, promover uma inovação político-institucional a partir da recombinação de variáveis de desenvolvimento para enfrentar a dependência ao capital e à tecnologia exógena e ao mesmo tempo enfrentar as mudanças climáticas. Essa inovação político-institucional transitará do dito, da materialidade hich tech insustentável para o inaudito, para a transcendência das amazonidades sustentáveis, como símbolo, como desafio, como compromisso de uma nova experiência civilizatória na Amazônia, cuja ideologia é exatamente a égide, a ética da sustentabilidade combinada com as exigências do autodesenvolvimento.
Hoje, todos no mundo inteiro estão falando em economia verde. Trata-se de uma exigência do planeta. Para a Amazônia, para os amazônidas, trata-se de uma oportunidade histórica imperdível, pois amazonidades converge para o contexto da economia verde. Apenas com uma especificidade adicional pertinente ao autodesenvolvimento, isto é, de que o mito do desenvolvimento se desdobre no chão amazônico com capital e tecnologia endógena realizando produtos e serviços no mercado a partir de insumos e saberes da floresta.
Malbaratando conceitos correlatos à inovação e a difusão tecnológicas que permeiam a lógica cathing up, podemos dizer que devemos pretender superar a path-dependence que a trajetória tecnológica hich tech determina na economia manauara ao confinar as iniciativas de negócios a um lock-in vinculante. Esse é um padrão alocativo que pode ser transformado e transvalorizado num outro padrão associado a uma trajetória tecnológica alternativa lastreada pelas amazonidades. Um novo padrão convergente à lógica da economia verde que as consciências coletivas nacionais, formatando uma consciência global, começam a impor aos agentes e atores políticos e econômicos de todos os locais do planeta. Os mecanismos e as ferramentas da economia evolucionária, e de suas pertinentes políticas industriais e tecnológicas, podem oferecer a oportunidade para essa transição obrigatória.
Caso contrário, aceleraremos os passos para a extinção da espécie humana junto ao desenrolar dos séculos e milênios e ainda perderemos a dinâmica econômica que o século XXI determinará, ou a ela chegaremos tardiamente como a história sugere ser a sina do chão amazônico.
Essa é a oportunidade histórica ímpar para a Amazônia como tenho dito, pois o cavalo alado está passando no chão amazônico pelos portais da história, junto às barbas amazônicas, aqui&agora. Ou seja, a perspectiva de futuro relativa a construção de um capitalismo amazônico, via growing up, sob a ótica da economia verde representa um lock-out [aqui, diferentemente do determinismo econômico derivado da economia clássica e neoclássica, representando necessariamente o sucesso da trajetória tecnológica alternativa], superando a inércia do capital social de Manaus quanto aos desafios do autodesenvolvimento sustentável, minimamente autônomo e interdependente. Para tanto, temos a faca e o queijo nas mãos, representado pelo Sistema Manaus de Inovação e pelas externalidades do Projeto ZFM. Falta vontade de poder, vontade política, visão de futuro e ações consentâneas e convergentes. Devemos trabalhar hoje, para desfrutar de verdadeiro orgulho no futuro. Hoje não há orgulho, há contentamento e acomodação, pois jogamos um jogo de natureza inferior, movidos por capital e tecnologia exógena e sem observância da ética sustentável. A natureza do capitalismo ainda é a mesma em qualquer local do planeta; a humanidade apenas começa a [re]qualificá-lo sob as exigências da ética sustentável.
Agora, a cultura da inovação tecnológica só será potencializada, a cultura do empreendedorismo científico-tecnológico somente será estabelecida e a cultura do capital de risco somente será induzida se, e somente se, a maioria ou pelo menos 50% do total de todas as pesquisas financiadas em Manaus e na Amazônia forem com considerações de uso, vale dizer, se forem orientadas, direcionadas para o mercado, para a explotação de amazonidades, realizando de forma sustentável produtos e serviços a partir de insumos e saberes da floresta. Precisamos, no mesmo diapasão, que nossa ciências econômicas estude e transmita ensinamentos da economia evolucionária, que nossas ciências da natureza e engenharias desenvolvam e apliquem conhecimentos para potencializar amazonidades e que nossa ciência sociais observe e investigue nosso nacionalismo amazônico. Nesse compasso, daqui a 100 anos, o que hoje é inaudito poderá estar dito.
28/02/2012
EM HOMENAGEM AOS 45 ANOS DO DECRETO 288/67
Nota: Esta reflexão foi reduzida jornalisticamente pelo editor Carlos Branco que convidou este pensador para participar da reportagem especial do jornal A Crítica em comemoração aos 45 anos de criação da Suframa e da idealização do Projeto ZFM nos moldes atuais. Hoje é 28 de fevereiro de 2012 e o capital social de Manaus celebra e comemora com todas as pompas e honrarias o dia da edição do Decreto-Lei 288/67. Esta reflexão foi postada no blog desta forma ordinária para homenagear esse momento histórico, questionando-o e criticando-o, contudo de forma propositiva e provocativa. Tenhamos muito boa sorte!
Um ideário [a partir de] ideias ou Ideias [a serviço de] um ideário
Se esses indivíduos não entram em conflito,
é porque não aspiram a mais nada,
suas vontades estão paralisadas,
e, por isso, vivem a felicidade espinosana,
definida como repouso.
NIETZSCHE
Precisamos de um novo paradigma que supere a lógica simples da prorrogação do Projeto ZFM, ou até mesmo sua perenização. Precisamos de uma lógica complexa que sinalize para a formulação de políticas públicas que não só consolide o processo de industrialização em curso, mas, sobretudo, crie uma trajetória tecnológica alternativa forjadora de um novo marco civilizatório sob a égide da sustentabilidade, o que significa dizer, investimentos conscientes, consumo inteligente e tecnologia limpa. Esta trilogia como base daquela outra mais conhecida e tradicional que busca assegurar o social e ambientalmente justo e correto e somente depois o economicamente viável. É nesta sequência que se amarra a sustentabilidade. Uma verdadeira revolução verde adotando o chão amazônico como laboratório de uma experiência sociológica no devir, no porvir.
Para tanto, devemos entender que a ideologia defendida da autossustentabilidade é expressa pela adoção do Projeto ZFM como um meio e não tão somente como um fim em mesmo. A visão de futuro desejada associada a essa lógica complexa deve ser metrificada com a superação do PIB manauara, no que concerne à indústria de transformação, medidos pela produção do PIM lastreada em capitais e tecnologias estrangeiras por um Produto Manauara Bruto [PMB] consubstanciado por amazonidades, vale dizer produtos realizados no mercado a partir de insumos e saberes da floresta com capital e tecnologia endógena, caracterizando um desenvolvimento industrial e tecnológico minimamente autônomo. Esse autodesenvolvimento, por sua vez, sinalizando um processo de growing up, em concorrência com o processo de cathing up determinado pela sina da industrialização tardia e pertinente capacitação tecnológica tardia. Superar não significa negar o atual crescimento econômico, muito menos abandona-lo, mas ir além dele. E podemos ir muito além, mas precisamos ter coragem para empreender o novo e original, associando-os com uma visão de futuro consentânea, e por via de consequência desencadear uma inovação institucional e política.
O que estamos propondo de forma recorrente é a idealização de um desafio manauara-amazonense-amazônico de superação da sina histórica do crescimento econômico lastreado pela atração de investimentos com a adoção e consolidação de mecanismos que contribuam para a formação da capacidade, estrutura, estratégia e rivalidade empresarial endógena, fundadora do que temos denominado de capitalismo amazônico, explorando sustentavelmente amazonidades. Essa transformação, essa metamorfose teria como base a interação sinérgica entre as externalidades do Projeto ZFM com a estruturação de uma trajetória tecnológica alternativa que explore de forma sustentável o capital natural da Amazônia.
Mas como construir essa trajetória industrial e tecnológica alternativa? Como construir um capitalismo amazônico?
Entendemos que liga é a dimensão patrimonial das firmas. Entendemos que a argamassa é o empreendedorismo científico-tecnológico. Isto é, precisamos formular uma política industrial e tecnológica de longo prazo que privilegie o capital e a tecnologia local. Ou seja, precisamos promover ambiências inovadoras que induzam negócios estruturados no uso sustentável de insumos e saberes da floresta, que realizem amazonidades. Essa nova cultura já está em gestação, às vezes pensamos que desde sempre, especialmente se lermos o famoso e célebre discurso de Álvaro Maia proferido no Teatro Amazonas no início da década de vinte do século passado, anunciando um Amazonas livre como potência econômica para 2023, mas, e por isso mesmo, precisamos acelerar o passo. Álvaro Maia certamente não imaginava as exigências do desenvolvimento sustentável e certamente não pensava numa espécie de Projeto ZFM; mas certamente pensava em amazonidades. Na realidade, ele vivia intensamente a contextualização do fausto da borracha, no interregno entre os dois momentos históricos de maior pujança. Então deve ter imaginado no que o Amazonas poderia vir a se transformar se explorasse outros insumos da floresta. Percebeu claramente que a borracha era apenas uma dentre uma infinidade de oportunidades econômicas.
Todavia, para realizar esse desiderato precisamos superar a visão ingênua de nossa elite política e institucional que entendem que o Projeto ZFM é um fim em si mesmo, impossível de ser superado. Sem esquecermos no que resultou a exportação das sementes da borracha e, sobretudo, no que representou o desenvolvimento tecnológico do seu princípio ativo em prol dos materiais sintéticos, cuja indústria alavancou durante o século XX parte do poderio político e econômico dos países hoje hegemônicos e dominantes, precisamos deixar de compadrios com o capital estrangeiro, pois as firmas multinacionais estão aqui realizando mais-valia global, de pusilanimidade em relação ao Projeto ZFM, pois temos que supera-lo em favor da construção do capitalismo amazônico de que tanto falamos estruturado em vantagens competitivas dinâmicas vis a vis as amazonidades, e de omissões com relação ao autodesenvolvimento, considerando a predomínio do sistema capitalista enquanto organização social dominante, ainda que este esteja com seus dias contados, como dizem os especialistas.
Precisamos exigir que todo capital incentivado, todo ele, de todos os setores do PIM, aplique recursos de verdade em P+D, sobretudo, em projetos cooperativos com a oferta tecnológica local, portanto, além da tese dos investimentos da indústria, dita já de forma extemporânea, de informática. Neste sentido, precisamos dominar enquanto informação de Estado o quanto é a margem de lucro que se pratica industrialmente falando no PIM, não só para exigir os investimentos em P+D, mas para saber o quanto custa a isenção para a sociedade em nível de subtração de impostos que retornariam para o provimento de saúde, segurança e educação, confrontando-os com as alíquotas de proteção comercial.
Precisamos reformular nosso entendimento já fossilizado em nossas mentes da justificativa de que a incentivação da ZFM se deve ao fato do mercado consumidor estar longe da produção do PIM; reproduzi-la após 45 anos é um atestado de medo em relação ao porvir, ao devir, e até mesmo um atestado de incompetência quanto a necessária transformação da nossa realidade; se amazonidades fizerem parte de uma cultura, seus produtos e serviços poderão ser consumidos em qualquer parte do planeta, independentemente dos custos de transporte.
Precisamos formular e encarar os desafios e metas relativas ao desenvolvimento endógeno de frente, com firmeza e responsabilidade se desejamos construir um autodesenvolvimento, se desejamos obter maior liberdade política e maior independência econômica, se desejamos revolucionar nosso progresso social, qualificando o uso e a ocupação do chão amazônico e preservando a soberania nacional no longo prazo. Poderíamos começar a transformação do Decreto-Lei 288/67 reescrevendo seu artigo primeiro, pois os fatores locacionais hoje são outros, além de maiores, igualmente melhores, e a grande distância de outrora se encurtou com a globalização e com as escalas de produção demandadas pelos mercados que se agigantaram. Quantas faculdades, institutos de pesquisas e mestres e doutores existem hoje compondo o nosso capital social? Quantas televisões, motos e telefones celulares o PIM produz hoje após os anos que suas plantas industriais incentivadas foram implantadas?
Nesse sentido, ficamos imaginando uma universidade empreendedora que sinalize claramente para pesquisas com considerações de uso. Ficamos imaginando no chão acadêmico de Manaus espaços dinâmicos, pró-ativos e sinérgicos onde estejam presentes as funções de capital de risco, de formulação de negócios, de transferência de tecnologia. Na realidade, a ambiência inovativa deve ser construída em todo chão de fábrica, em todo chão institucional. Enfim, uma cultura capitalista, em que viceje o empreendedorismo científico-tecnológico entendido como todo aquele que transforme o pesquisador e/ou o estudante acadêmico em proprietário de uma empresa de base tecnológica e que ao mesmo tempo esteja realizando amazonidades no mercado. Onde vários fundos de financiamento estejam disponíveis para financiar direta e indiretamente projetos de desenvolvimento tecnológico, planos de negócios dos empreendimentos a serem realizados, financiando, ainda, a capacitação empresarial e gerencial dos pesquisadores e/ou estudantes. Portanto, muito além da própria pesquisa e desenvolvimento tecnológico que lhe deu origem, devidamente apropriada em níveis de patentes e royalties.
Por exemplo. Na primeira tese do Programa de Doutorado em Biotecnologia implantado na Ufam com financiamento da Suframa a partir dos anos 2000/2001, o pesquisador desenvolveu tecnologia para a adoção da casca da mandioca como alimento proteico para o frango em substituição a ração tradicional de milho. Para tanto, idealizou máquinas e equipamentos, além do processo produtivo para viabilizar técnica e economicamente a amazonidade. Mas não temos notícias de que a ideia tenha se transformado numa marca amazônica. Nem mesmo temos notícias de que o resultado da pesquisa tenha se transformado num negócio. Mas existem mecanismos e ferramentas de política industrial e tecnológica que lançam, apoiam e emancipam empresas de base tecnológica.
Outro exemplo. Podemos afirmar que o tijolo vegetal criado por pesquisadores do Inpa ainda não entrou no mercado em concorrência com o tijolo tradicional de argila. Para tanto, nos dois exemplos, financiamento diferenciado e/ou participação societária do Estado na formação do capital social inicial da firma poderia ter sido acionado, incentivação tributária poderia ter sido idealizada, disponibilização de subsídios poderia ter sido aplicada, proteção comercial poderia ter sido adotada, poder de compra governamental poderia ter sido estruturado e subvenções econômicas para melhorias e inovações incrementais, inclusive, organizacionais e mercadológicas, e encomendas para novo desenvolvimento tecnológico poderiam ter sido estrategicamente induzidas.
Ou seja, a trajetória tecnológica alternativa no sentido growing up significa não só idealizar, criar novos produtos para novos usos ou para usos tradicionais, mas utilizar, gerar novos materiais em substituição aos insumos presentes em produtos vigentes, adotando doravante a égide da sustentabilidade de forma autossustentada. Uma nova cultura estaria sendo gestada: o autodesenvolvimento sustentável. A força da criação de novos produtos com novos materiais ou não para novos usos viria com a instalação propriamente dita do processo de growing up. Quantos produtos não poderiam ser comercializados por firmas de capital local a partir da oferta tecnológica já existente em Manaus?
Vejam a lógica da sustentabilidade ambiental dos casos relatados. A casca da mandioca é encontrada como insumo na forma de lixo nos mercados de Manaus. Já a matéria-prima do tijolo vegetal é composta do ouriço e a casca da castanha do Brasil e os mesocarpos do coco e do tucumã. Todos abundantes na floresta! Observe-se que esta é apenas uma perna da equação sustentável, restam compor com a questão social e a própria viabilidade econômica, que podem ser elaboradas com as ferramentas que sinalizamos acima. Mas essa é a trilha! Essa é a vereda!
Neste contexto, registramos que apenas duas empresas de base tecnológica foram criadas por egressos do Programa de Biotecnologia da Ufam frente a um total de 98 teses defendidas até o primeiro semestre de 2011. Portanto, apenas 2% dos conhecimentos aplicados gerados se transformaram em negócios. É muito pouco, mesmo considerando que dois outros egressos tenham desenvolvidos dois produtos inovadores, passíveis de produção e comercialização, devidamente patenteados, inclusive um com reconhecimento mundial - sendo a primeira da Ufam neste sentido! Palmas! Mas pesquisas com considerações uso direcionadas ao mercado devem compor no mínimo 50% da pauta de projetos de pesquisa de todo programa de pós-graduação na Amazônia, em especial os vinculados à biologia, química, física, microeletrônica e correlatos, se desejamos mesmo o autodesenvolvimento minimamente autônomo e ao mesmo tempo interdependente, vinculado e associado ao sistema capitalista devidamente qualificado. O complemento para a totalidade seria reservada às necessidades de se avançar junto ao conhecimento exploratório.
Ao longo da última década, o capital social manauara construiu o Sistema Manaus de Inovação, segundo fundamentos públicos. Para tanto, foi aplicada a soma total de R$ 1,7 bilhão pelas principais instituições indutoras de inovação tecnológica representada pela Suframa/Capda e Sect/Fapeam. Cremos que estamos bem posicionados quanto ao lado da oferta tecnológica em termos relativos para o estabelecimento de uma cultura do empreendedorismo, especialmente do científico-tecnológico, já que este é quase inexistente, na medida em que não tem representatividade na pujança da economia local, lastreada por capital e tecnologia exógenas, conforme demonstramos no Pequeno Ensaio em prol da construção de um Capitalismo Amazônico a partir de Manaus, publicado pela Editora Caminha Consultoria em 2011.
Há recursos gerados em Manaus para serem direcionados adicionalmente a esse desafio, como o valor total contingenciado da Suframa, que não é desprezível para um local que precisa construir seu autodesenvolvimento, muito ao contrário. É quase R$ 1,2 bilhão contingenciado entre 2000/2011, considerando o valor apropriado pelo BNDES. Esse valor e suas partes poderiam, ou melhor, deveria ser negociado pela elite política local em troca das perdas das vantagens comparativas do PIM. Para termos uma ideia, todos os programas e projetos do CT-PIM, incluindo seu ParqTech, poderiam ser financiados, no sentido de pô-los em marcha, com a metade deste valor. A outra metade poderia constituir o valor inicial de Fundo de Investimento de Capital de Risco.
Numa outra engenharia financeira, 1/3 desse montante poderia ser direcionado para o CBA, devidamente emancipado com CNPJ próprio, 1/3 para o Fundo de Capital de Risco e 1/3 para os programas e projetos do CT-PIM, enquanto que recursos vinculados ao orçamento do Plano Nacional de C&T&I financiaria o ParqTech do CT-PIM, já que nesse Plano existe rubrica específica para este fim. Ainda uma outra poderia ser formulada na perspectiva do chão amazônico: 1/4 para projetos de produção apoiando cooperativas e associações amazônicas que realizam amazonidades + 1/4 para o CBA + 1/4 para o CT-PIM + 1/4 para o Fundo.
Na verdade, esse mecanismo de barganha e troca deveria se constituir numa estratégica permanente, isto é, a cada perda de uma vantagem comparativa da produção incentivada no PIM se apresentaria, se defenderia um projeto, uma ideia junto ao governo federal. Neste particular, os potenciais imanentes aos dois governos Lula foram perdidas. Vamos perder as potências inerentes do governo Dilma? O que negociamos em troca na forma de projetos vertidos ao autodesenvolvimento com a perda de vantagens comparativas para a produção de tablets para outros locais do território brasileiro?
Portanto, retornando aos argumentos vinculados à liga [dimensão patrimonial das firmas] e da argamassa [empreendedorismo científico-tecnológico], se não tivermos uma forte demanda tecnológica para impulsionar o processo de inovação, segundo os fundamentos da ordem e, sobretudo, da liderança privada, não construiremos um capitalismo amazônico realizador de amazonidades. Essa forte demanda somente acontecerá se tivermos uma produção industrial e agroindustrial equivalente. Vale dizer, se induzirmos igualmente como estão sendo induzidos os avanços em C&T&I, a cultura empreendedora e creditícia vinculado à construção de um capitalismo amazônico lastreada em amazonidades. Por isso, entendemos importante e ratificamos a sugestão da criação, em nível local, de um Conselho Político de Gestão Estratégica do Desenvolvimento Industrial e Tecnológico vinculado às amazonidades, exatamente unindo ambas as vertentes, isto é, oferta e demanda tecnológica. Esse é o “x” da questão associada à dimensão patrimonial das firmas vis a vis ao empreendimento científico-tecnológico.
A criação de um Conselho Político de Gestão Estratégica em prol das Amazonidades pode ser entendida como um eixo propulsor do capital social manauara-amazonense na medida em que se vai dando a formação, o desenvolvimento e a consolidação de um capitalismo amazônico. Os agregados graúdos desse capital social expressos pelo aprendizado, pela cooperação e pela confiança seriam refinados no exercício da pertinente gestão estratégica unificada no Conselho Político em prol do autodesenvolvimento. A elaboração de uma política industrial e tecnológica seria permanentemente aprofundada no sentido de construção de vantagens competitivas dinâmicas e sustentáveis.
Que a próxima década seja adotada como a década do empreendedorismo científico-tecnológico manauara e que ao final dela possam constar valores e estatísticas do PMB dessa função fundamental relativa à capacidade, estrutura, estratégia e rivalidade empresarial, visando lastrear a construção do que denominamos capitalismo amazônico. Há uma oportunidade histórica ímpar para eleger o empreendedorismo científico-tecnológico como elemento estratégico fundamental para o autodesenvolvimento na medida em que os sistemas locais de inovação ocupam espaços nas agendas das políticas nacionais de desenvolvimento em concorrência aos tradicionais laboratórios de P+D das grandes indústrias globais. Ou seja, é a tese schumpeteriana dividindo espaço com a tese neoschumpeteriana para a sustentação do progresso social, agora sob a égide da sustentabilidade.
Esta oportunidade histórica restará potencializada, exponenciada, se combinarmos se cruzarmos esse binário estratégico, do empreendedorismo em sinergia com os sistemas de inovação, com as exigências do desenvolvimento sustentável vis a vis a Amazônia/amazonidades. Mas como disse no início desta reflexão precisamos ter coragem para empreender uma visão de futuro redentora e libertária, pois deveremos enfrentar de frente a ilusão de curto prazo do Projeto ZFM. Aqui, longo prazo é um horizonte de 100 anos, de um século!
Esse cenário futuro, essa visão de futuro desejado, enfeixado por missões e objetivos estratégicos empresariais, institucionais e políticos convergentes, estaria eivado de legitimidade para o desfrute do verdadeiro orgulho de uma sociedade que constrói seu caminhar sob as próprias pernas, com suas próprias mãos e sob a liderança de suas próprias mentes. Que sejamos capazes de metamorfosear a natureza dependente da indústria de transformação amazonense. Que possamos ser agentes corajosos e determinados de transformação ao invés de meros atores acomodados e descansados da reprodução do capital e da tecnologia de alheios e de alhures. A galinha dos ovos de ouro é o capital natural da Amazônia. O PIM é pinto frente ao que podemos construir com amazonidades.
A condição de repouso foi questionada por Nietzsche na citação inicial não porque esse nobre pensador não contemplasse o sossego como solução racional para os homens. Em sua reflexão, anunciava a barbárie do século XX, em especial frente à iminência das Duas Grandes Guerras, a partir de sua experiência como enfermeiro na guerra regional franco-prussiana de 1870. No nosso caso específico; qual é a grande ameaça do século XXI? Exatamente as mudanças climáticas a exigir um novo paradigma de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. É contra as mudanças climáticas e a favor da ética sustentável que devemos depositar e empenhar todas as nossas armas e energias na construção de um capitalismo amazônico, nas amazonidades, adotando o Projeto ZFM como alavanca, pois que em si mesmo reproduz a matriz da insustentabilidade.
Alerte-se que a cobertura vegetal que o PIM ajuda a manter no Amazonas, o faz apenas por uma questão de escala, pois o capitalismo é o mesmo praticado no planeta. Isto é, a ZFM tem 10.000 km² contra mais de cinco milhões de km² da Amazônia. Não se pode, ou melhor, não se deve confundir variáveis e coincidências históricas, não planejadas e programadas, diga-se a bem da verdade, que favoreceram a manutenção da cobertura vegetal do Amazonas frente, por exemplo, aos Estados do Pará e de Rondônia, com desenvolvimento sustentável, muito menos com autodesenvolvimento.
Esta é uma questão que precisa ser muito bem entendida, mesmo que haja métricas científicas para justificar a associação de tais variáveis e coincidências históricas com uma adjetivada virtuosidade do Projeto ZFM, mesmo que tais cálculos sejam validados por cientistas graduados de praças mais avançadas que pesquisadores locais convidam para subescrever para convencer as mentes tupiniquins, valorando a peça de investigação. Não estamos negando o conhecimento gerado em si, válido em si, não há dúvida, mas anunciando sua verdade parcial, pois nos basta observar a matriz energética de Manaus que opera parcialmente com a queima de combustíveis fósseis, ainda que o Brasil seja um dos líderes em energia renovável e reciclável, portanto, sustentável, os resíduos que o PIM gera ainda sem uma solução técnica sustentável e o cinturão social de pobreza que circunda e permeia toda Manaus, que no final dos anos 1990 chegavam aos 600 mil indivíduos. O capitalismo que consubstanciará o capitalismo amazônico que tratamos nesta reflexão é de outra natureza e faz parte do conceito de sustentabilidade que está em elaboração no planeta. Contudo, o cerne, o fulcro da visão de futuro que tratamos aqui é que na Amazônia ele seja construído com amazonidades.
Ademais, ainda quanto a citação de Nietzsche, devemos ter consciência que a bem-aventurança total é incompatível com este mundo dos fenômenos de natureza dual, isto é, ou há desenvolvimento ou não há desenvolvimento; ou há liberdade ou não há liberdade, considerando os diferentes capitais sociais dos locais do planeta e as relações de poder existentes entre os homens e entre os respectivos Estados nacionais. A combinação exitosa de desenvolvimento com liberdade exige coragem e determinação, conforme demonstra a história dos povos e respectivas civilizações, que emergiram e atingiram o apogeu com capital e tecnologia próprias, delineando as formas de organizações sociais idealizadas pelo homem ao longo dos séculos. E ruíram exatamente quando a cultura pertinente perdeu hegemonia e dominância para outra combinação virtuosa.
Autodesenvolvimento sustentável combinado com Amazônia/amazonidades é a nossa oportunidade histórica para desfrutar de maior liberdade política e maior independência econômica ao longo das próximas gerações. O que estamos propondo e discutimos nesta reflexão é a oportunidade de uma experiência civilizatória qualificada, não um progresso social espúrio, porque estruturado em vantagens competitivas estáticas, e, dependente, porque lastreado por capital e tecnologia exógenos, uma combinação desastrosa para o longo prazo frente à liberdade política, a independência econômica e a soberania nacional.
Finalmente, é de bom alvitre registrar que os esforços complementares para finalizar de forma nova e original nosso processo de industrialização não exclui muito menos nos exime da responsabilidade de explorar com a mesma determinação e acuidade, frente à perspectiva minimamente autônoma e ao mesmo tempo interdependente exigidas para o autodesenvolvimento, as demais potencialidades vinculadas à sociedade do conhecimento para a economia como um todo, muito especialmente o setor de serviços, base da sociedade contemporânea. Tenho escrito de forma recorrente sempre com o foco no nosso processo de industrialização, atual e potencial, entretanto buscando diferentes palavras e conceitos e procurando expandir o raciocínio com novas abordagens.
Tal expectativa deveria ser discutida à exaustão pelo capital social de Manaus para não se comprometer as mentes de nossos jovens colegiais e universitários bombardeados com informações evasivas e inebriantes que asseguram o Projeto ZFM como solução definitiva para o nosso desenvolvimento, anestesiando a motivação e adormecendo os desafios de transformação da realidade. Há profundas controvérsias quanto ao entendimento do Projeto ZFM apenas como um fim em si mesmo, conforme demonstramos segundo valores pertinentes ao autodesenvolvimento.